A exemplo do que aconteceu com o cantor Supla, os músicos presentes na segunda edição do programa Casa dos Artistas, do SBT, podem ter suas carreiras catapultadas caso saiam-se bem no "reality show". Supla era um artista já conhecido (ou famigerado) muito mais por suas excentricidades do que por sua música. Seu desempenho na Casa dos Artistas foi célebre, fazendo com que ganhasse respeito e admiração de muitas pessoas que antes o menospresavam. Todas estas características acumuladas lhe renderam uma fama nunca antes conquistada. Mas quem são os músicos que fazem parte da segunda edição do programa? Xis, Syang e Lulo são mais conhecidos dentro de seus próprios nichos, mas em pouco tempo podem tornar-se celebridades bem populares.
Paquita do inferno
A loira tatuada Syang vem do rock. Em 1985, durante o primeiro Rock In Rio, furou a segurança do hotel onde estava hospedado seu ídolo Angus Young, do AC/CD. Sua idolatria é tão grande que tatuou o rosto do guitarrista no braço. Daí também vem seu nome artístico, uma combinação da primeira letra de seu nome, Simone Dreyer Perez, com o nome do roqueiro.
Nasceu em Brasília, onde montou a primeira banda, Autópsia, com a irmã, ainda na adolescência. Finalizou o grupo para fazer intercâmbio na cidade de San Diego, Califórnia. Ao retornar dos Estados Unidos, ingressou no grupo punk Detrito Federal. Insatisfeita com os rumos musicais da banda, pulou fora para tocar no grupo de death metal P.U.S (Porrada Ultra Suicida) no final dos anos 80. Com esta banda gravou um compacto ("Third World", 1990) e três álbuns: "P.U.S." (1991), "Sin Is The Only Salvation" (1994) e "Presets" (1996). Este último marcou a carreira do grupo por aliar rock pesado com techno e música afro, rendedo o rótulo de modern primitive. Esteve casada com o vocalista Ronany e por mais de uma década formaram o casal mais rock'n'roll do Brasil. Mas tanto a união com a banda quanto com o marido se dissolveram.
Deixou o P.U.S. para realizar o sonho de gravar um CD solo de pop rasgado e ingênuo. Pouco tempo depois veio o divórcio. Mas antes do relacionamento chagar ao fim, o casal realizou uma série de ensaios fotográficos de momentos íntimos. Eles estão reunidos em um livro de literatura erótica escrito pela própria guitarrista. Em 15 contos, Syang encarna uma personagem sedutora e dominadora que fala de sexo sem culpa - "é meu assunto predileto, eu adoro, me dá prazer e eu gosto de fazer tudo o que me dá prazer", afirma em diversas entrevistas. Até poucos meses, fez parte da banda DeFalla, a mesma que lançou o "Melô da Popozuda", mas que retornou ao rock.
O mano
Já o rapper Xis (Marcelo Santos) viveu uma realidade diferente. Nasceu e criou-se em Itaquera, bairro pobre e violento da Zona Leste de São Paulo. Deu início a carreira em 1992, integrando o grupo DMN, que deixou para a posteridade o disco "Cada Vez Mais Preto", lançado em 1994 pelos selo Zimbabwe. Em 1997, Xis iniciou uma parceria com o rapper Dentinho. Abandonou os dois projetos para dedicar-se à carreira solo. Montou o selo 4P com KL Jay, dos Racionais MCs, e lançou o álbum "Seja Como For", muito bem recebido por seu público.
A música "Us Mano E As Mina" (sic) tornou-se seu hino, chamando a atenção da gravadora Trama, que fechou um contrato de distribuição nacional do disco. O videoclipe deste hit recebeu o prêmio de Melhor Video de Rap no Video Music Brasil, prêmio da MTV. Um detalhe curioso quanto ao disco: em duas faixas, Xis critica a TV. Em uma delas, ataca diretamente Silvio Santos. Cinismo pouco é bobagem. No ano passado, fez uma participação especial no CD acústico da falecida cantora Cássia Eller e lançou seu segundo álbum, "Fortificando a Desobediência".
Controvérsia
O radicalismo é uma constante no movimento hip hop brasileiro. Como exemplo, a grande banda do estilo, Racionais MCs, foge da mídia como diabo da cruz. No início deste ano lançaram um CD ao vivo que ficou conhecido apenas pelos "manos" e vendeu mais de 100 mil cópias neste gueto fechado. Mas Xis não compartilha desta ideologia, tanto que topou o convite para participar da Casa dos Artistas. Em razão desta atitude, está sofrendo fortes críticas por integrantes mais radicais do movimento.
No entanto, Xis tem o apoio de uma verdadeira entidade do rap nacional: o veterano Thaíde, que tem mais de duas décadas de militância no movimento - lançou o primeiro álbum próprio de rap no Brasil e atualmente apesenta o programa Yo! da MTV. Em depoimento ao jornal Folha de São Paulo, Thaíde alegou que não vê problemas na decisão de Xis, pois desta forma a cultura hip hop chega a locais que a MTV não atinge. "Enquanto o hip hop fugir da mídia, o movimento continuará pequeno, medíocre e hipócrita", encerra.
Já o bombado cantor Lulo Scroback vai pelo caminho do sucesso fabricado. Lançou o CD "Modernidade" pela Som Livre, o que já é meio caminho andado para entrar na categoria "artista de gosto duvidoso". Pop suingado com refrões grudentos é a fórmula da maioria das músicas, que tiveram a mão do produtor Rodrigo Pitta. Covers de "Construção", de Chico Buarque, e "Odara" de Caetano Veloso foram incluídas para assegurar sucesso fácil.
Popularidade garantida
Participar de um "reality show" rende uma grande exposição púbica, mas só isto não basta pra se tornar um sucesso de vendas. É necessário que o artista tenha carisma e aceitação pública. Veja o exemplo do Supla, que já ultrapassou as 600 mil cópias vendidas de último CD, "O Charada Brasileiro". A cantora pop Patrícia Coelho, que dividiu o mesmo teto de Supla na primeira edição da "Casa", não teve uma presença tão marcante. Mas manteve-se no programa até os últimos dias e com isso conseguiu um contrato com a gravadora Abril Music, além de ter seus dois primeiros CDs bastante procurados.
Quanto à qualidade musical, esta evoluiu em relação à primeira casa dos artistas. Enquanto Supla tinha um álbum com produção trash e letras primárias e infantilóides, Xis possui discos muito bem resolvidos, repletos de letras inteligentes e alfinetadas certeiras. Syang é uma excelente instrumentista, mas nunca teve uma banda que passasse do "razoável".