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Por gotículas

Cientistas sugerem soma de esforços para prevenir transmissão da Covid pelo ar

Ana Bottallo - Folhapress
19 nov 2021 às 08:42
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Apesar de já bem estabelecida, a rota de transmissão do coronavírus pelo ar ainda traz muitas dúvidas, como qual a quantidade necessária de ar inalado para se infectar ou a distância segura entre as pessoas em espaços fechados.

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Em agosto de 2020, a Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina americana tentou responder a algumas dessas questões, que estão resumidas em um artigo publicado no último dia 9 na revista científica PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences).

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O texto é de autoria de Jonathan Samet, epidemiologista e reitor da Escola de Saúde Pública de Colorado, Linsey Marr, engenheira e cientista de aerossóis da Universidade Virginia Tech, e Thomas Burke, professor de risco em saúde e sociedade da Universidade Johns Hopkins, entre outros.


Imagens mostram a dispersão de gotículas quando alguém espirra usando uma máscara N95 com válvula. Qual o tamanho das partículas emitidas pelas pessoas ao falar e como se dissipam pelo ar? As evidências científicas existentes antes da pandemia -especialmente para o vírus da gripe- já reconheciam a participação de gotículas de saliva como rotas de transmissão de doenças infecciosas respiratórias, tendo em vista que gotículas maiores, por terem mais peso, cairiam rapidamente no solo enquanto as de menor densidade permaneceriam no ar por mais tempo.


No início da pandemia, a OMS (Organização Mundial da Saúde) reconheceu a transmissão da Covid por gotículas, mas focou principalmente o contágio direto de pessoa para pessoa, ou indireto, pelos chamados fômites -gotículas presentes em superfícies que, ao serem tocadas, provocam infecção.

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Já os especialistas na chamada ciência de aerossóis alertaram, ainda nos primeiros meses de 2020, que partículas presentes no ar menores do que as gotículas de saliva teriam um papel maior na transmissão do vírus do que se imaginava antes.


Estudos subsequentes tentaram responder a algumas dúvidas cruciais como por quanto tempo esses aerossóis permanecem no ar, qual a eficiência de diferentes tipos de máscaras em filtrar essas partículas e como ventiladores ou aparelhos de ar-condicionado podem agir na sua dispersão.


Qual o tamanho dessas partículas que são potencialmente infecciosas e por quanto tempo podem infectar outros? De acordo com os pesquisadores, a demora em reconhecer os aerossóis como via de transmissão principal do Sars-CoV-2 prejudicou as medidas de prevenção adotadas pelas autoridades de saúde e governos.


Segundo a definição de Marr, da Virginia Tech, gotículas são partículas com mais de 100µm de diâmetro, enquanto aerossóis são menores do que esse tamanho. Como consequência, a aerodinâmica das gotículas é afetada pelo seu tamanho, com dispersão rápida e decaimento a até dois metros de distância do foco de emissão, que pode ser ao falar, espirrar ou cantar, por exemplo.


Já aerossóis são produzidos de diversas formas, inclusive ao exalar ar, e podem permanecer em suspensão por minutos até horas, viajando e se acumulando em espaços fechados por bastante tempo.


Quanto de vírus é carregado em cada uma dessas partículas, no entanto, é de difícil definição e está associado ao tipo de atividade: cantar e falar alto emitem mais partículas potencialmente infectadas, enquanto falar mais baixo irá produzir uma menor quantidade dessas gotículas.


Para Samet, as pesquisas sobre quanto de vírus é carregado no ar avançaram muito, mas ainda é difícil saber o seu comportamento no mundo real. As máscaras, então, servem em dois momentos distintos: primeiro como barreira física que segura as partículas maiores tanto do portador da máscara quanto das pessoas ao redor e, em um segundo momento, diminuindo a quantidade de aerossóis inalados.


Quais os comportamentos individuais e fatores externos que determinam maior risco de exposição ao Sars-CoV-2? Para os especialistas, além dos cuidados com ventilação e filtragem do ar, o risco de contágio da Covid pode variar segundo o comportamento individual. Por essa razão, é difícil medir exatamente qual o potencial risco de exposição em um ambiente.


De acordo com Samet, o risco individual está associado, primeiro, ao tipo de espaço. "Pensando no princípio primário da transmissão pelo ar, quanto mais pessoas [fonte primária] estiverem em um ambiente fechado maior o risco. O nível de ventilação dos espaços e as máscaras são alguns dos elementos que podem diminuir esse ciclo", disse.


Manter o distanciamento físico também é fundamental, mas, em uma sala fechada e sem circulação do ar, mesmo que as pessoas estejam a mais de dois metros de distância, o risco é potencialmente maior, ainda mais se as máscaras forem retiradas. "Aprendemos muito também sobre a importância dos filtros de ar e controle de nível de CO2 em espaços fechados", afirma.


Assim, os cientistas aconselham somar esforços: aumentar a circulação do ar de fora para dentro; filtração do ar adequada; limitar o número de pessoas em espaços fechados e aumentar o distanciamento entre elas reduz a chance de uma pessoa infectada contaminar outras e da intensidade da exposição.


O que sabemos sobre a quantidade de partículas infecciosas e sua relação com a Covid? Segundo Samet, essa é uma pergunta para a qual ainda não temos a resposta. O que a ciência sabe, diz, é que uma pessoa infectada pode produzir milhões de partículas aerossóis que são infecciosas, mas quanto dessas partículas inaladas são necessárias para causar contágio é desconhecido.


A carga viral necessária para uma infecção pode variar enormemente entre indivíduos por diversos fatores, inclusive o ambiente em que aquela pessoa está. Fatores genéticos podem ainda influenciar, como as pessoas que são aparentemente imunes à Covid -e que são ainda um mistério para a ciência.


O tipo de variante do vírus também, uma vez que foi demonstrado que algumas cepas do coronavírus, como a delta, possuem carga viral até 1.260 vezes maior que a cepa original.


Por fim, os especialistas concluem que adicionar camadas de proteção são as formas mais eficazes de diminuir a transmissão -mesmo em um momento epidemiológico confortável, como o que estamos vivendo hoje- e que essas mesmas proteções devem ser ajustadas para cada contexto social ou populacional.

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