11/05/21
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Confinamento

Pesquisa aponta aumento de tristeza e ansiedade em jovens na pandemia

Reprodução/Jcomp/Freepik
Reprodução/Jcomp/Freepik


Três adolescentes de São Paulo com depressão, tratados no Hospital das Clínicas, apresentavam melhora quando veio a pandemia. Confinados, pioraram e tentaram se matar. Uma menina de 12 anos, que antes do isolamento fazia terapia para lidar com o bullying, nos últimos meses fala em suicídio e até cortou a tela da janela do apartamento. Uma garota de 14, que nunca havia tido complicações emocionais, no confinamento desenvolveu estresse grave e agressividade a ponto de deixar os pais com medo. Um menino de 10, antes tranquilo, agora tem crises de falta de ar e de choro de madrugada.


O confinamento prolongado no Brasil apresenta a fatura, e até famílias mais equilibradas enfrentam esgotamento. Uma pesquisa nacional do instituto Datafolha, em parceria com a Fundação Lemann, o Itaú Social e a Imaginable Futures, vem acompanhando crianças e jovens do ensino público ao longo da isolamento e revela seus impactos.

Essa é a terceira fase da pesquisa "Educação não Presencial na Perspectiva dos Estudantes e suas Famílias", de abrangência nacional –a primeira fase foi em maio ,e a segunda, em junho.

O Datafolha fez, entre 7 e 15 de julho, 1.056 entrevistas, por telefone, com responsáveis por 1.556 alunos de 6 a 18 anos de escolas municipais e estaduais do país, com amostra baseada no Censo de Educação 2019. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos, e os resultados têm confiabilidade de 95%.

A falta de motivação, que em maio atingia 46%, chegou a 51% em julho. Os que enfrentam dificuldades para manter a rotina saltaram de 58% para 67%. O percentual dos que estão tristes começou a ser medido em junho, quando chegou a 36%, e passou para 41% em julho. No mesmo período, o de irritados foi de 45% para 48%. Somam 74% os que se sentem tristes, ansiosos ou irritados.

A parte cheia do copo, diz Denis Mizne, diretor-executivo da Fundação Lemann, é que subiu o número dos que recebem atividades remotas das escolas, de 74% em maio para 82% em julho, durante a pandemia. "No começo, achávamos que seriam dois ou três meses de isolamento, e a preocupação foi mobilizar os estados para criar sistemas de ensino a distância, o que foi bem-sucedido. Com o confinamento prolongado, a saúde mental passou a nos chamar a atenção. A fadiga chegou e está cobrando a conta", diz.

É o que ocorreu com Lucas, 10 (os nomes são fictícios). Aluno de colégio público de São Paulo, ele teve dificuldades no início para acessar as aulas, pois dividia com o irmão de 14 e a irmã de 7 o celular da mãe, o único da família. Em maio, recebeu como doação um computador e se conectou com mais facilidade às atividades. Mas, ao longo dos meses, a ansiedade cresceu e ele passou a ter crises de choro e falta de ar.

"Observamos crianças que acabaram desenvolvendo problemas na pandemia. Outras possuíam questões escondidas, que estão saindo do armário. E há aquelas que já enfrentavam dificuldades e pioraram", diz a psiquiatra Lee Fu I, coordenadora do Ambulatório de Transtornos do Humor na Infância e Adolescência do Hospital das Clínicas.

Ainda que a pandemia imponha mais dificuldades a pacientes do serviço público, nos consultórios particulares também se sentem suas consequências. Um caso é o da garota de 12 anos que agora falar de suicídio. Em psicoterapia desde antes da pandemia, sofria bullying na escola, mas vinha administrando as angústias.

Já fragilizada, no isolamento cortou a tela da janela de seu quarto, no 15º andar. Os pais ouviram da psiquiatra que, ainda que o ato pudesse ter o propósito chamar a atenção deles, ela estava em sofrimento e havia risco. Orientou-os a trocar a telinha de nylon por grades de ferro, e a garota passou a tomar antidepressivo.

No confinamento, crianças e adolescentes tiveram que lidar com outras complicações. Há aqueles que enfrentaram situações mais traumáticas, como a perda de renda dos pais, a complicação da doença em alguém próximo ou o luto.

Em comum, todos têm sido submetidos aos seguidos prolongamentos do tempo de privações. E tem hora que falta fôlego, o que Lee Fu I ilustra com outra metáfora: "Há crianças que pulam uma onda, depois outra e outra. Vão bem, até que derrapam no último mês do isolamento".

Luísa, 14, que passava o dia na escola, entre aulas, curso extras ou mesmo tardes de bate-papo com amigos, desenvolveu irritação na pele no confinamento. Depois, dor de estômago. Exames nada encontraram, o que levou o médico a constatar que era emocional. Com o tempo, ela se trancou no quarto, acumulou notas vermelhas e ficou agressiva.

"Um dia tive medo de ela pegar uma faca e vir para cima de mim", diz a mãe. Filha única, só sai de casa para ir ao apartamento dos tios. Apavorada com a chance de ser contaminada, sobe os cinco andares de escada. Não quer ver amigos nem no parque e diz que só volta às aulas com a vacina.

Lee Fu I alerta que essa fobia social e uma mania de limpeza que beira o TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) têm sido observados em crianças e jovens, o que hoje pode não parecer um problema, porque estão em casa. Mas na retomada, pode complicar.

"Se essa vivência causará traumas ou estresse pós-traumático, saberemos depois. Vai depender muito do ambiente ao redor das crianças e dos jovens, da postura e do acolhimento dos adultos."

Para o pediatra e psicólogo Eduardo Goldenstein, do departamento de saúde mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo, crianças que estejam passando pelo confinamento dentro da normalidade possível não terão traumas.

"Claro que estão atordoadas e com saudades dos amigos, o que traz tristeza", diz. "Mas depressão é algo mais profundo, não acontece com todas. Elas regridem, sentem medo, mas, em geral, têm forte resiliência e capacidade de se recompor."

Os jovens também estão com os hormônios à flor da pele. "Pacientes reclamam de não poder encontrar namorado ou namorada'", diz. Mas a experiência deve levá-los a amadurecer e a refletir. "Adolescentes se ressentem de que as coisas não são como querem, o que é uma novidade, e ficam bravos. É um enorme aprendizado", diz o psicólogo, que ressalta: "Os mais pobres não têm direito nem à adolescência, precisam trabalhar, situação que se agravou na pandemia."

É importante que se converse em família e que, com os devidos cuidados, crianças e adolescentes voltem a dar voltas. "Os pais vão ao mercado, saem para resolver as coisas, e os filhos ficam sempre em casa. Eles precisam começar a ver gente, ter noção de que a vida continua", diz Goldenstein.
Laura Mattos - Folhapress
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