Até pouco tempo atrás, era fácil entender de onde viemos: cada um de nós é metade da mãe e metade do pai – e 100% nós mesmos.
O problema é que essa história tão simples agora se tornou bem mais complicada. Além dos genes que herdamos de nossos pais, somos também formados por um mosaico de vírus, bactérias – e potencialmente células de outros seres humanos.
Gêmeos, aliás, têm uma chance particularmente alta de carregar pedaços do irmão no corpo e no cérebro. E o mais espantoso é que essas partes podem influenciar no comportamento de cada indivíduo.
"O ser humano não é um indivíduo unitário, mas sim um superorganismo", define Peter Kramer, da Universidade de Pádua, na Itália. "Um enorme número de indivíduos humanos e não humanos estão incessantemente lutando dentro de nós para assumir o controle."
Kramer publicou um artigo recentemente na revista Perspectives in Psychological Science, no qual pede para psicólogos e psiquiatras passarem a dar mais atenção às maneiras como esse fato influencia o nosso comportamento.
Micróbios superpoderosos
Pode parecer alarmante, mas há muito tempo cientistas sabem que nossos corpos são, na realidade, uma mistura de muitos organismos diferentes. Os micróbios que vivem em nossos intestinos podem produzir neurotransmissores que alteram nosso humor. Alguns pesquisadores até levantaram a hipótese de esses microrganismos terem a capacidade de alterar o apetite de seu hospedeiro, de maneira a fazê-lo comer aquilo de que eles têm vontade.
Já o parasita Toxoplasma gondii pode simplesmente levar um homem à morte ao manipular seus pensamentos. Na natureza, esse micróbio modifica os cérebros das ratazanas de maneira a fazê-los se atraírem por gatos, que por sua vez oferecem o ambiente ideal para a reprodução do parasita.
Mas, ao infectar um ser humano, o micróbio parece transformar seu comportamento, aumentando as chances de o indivíduo sofrer de esquizofrenia ou depressão suicida. Atualmente, cerca de 30% da carne vendida na Grã-Bretanha carrega esse parasita, apesar do fato de essa infecção contribuir para doenças mentais. "Precisamos acabar com isso", conclui Kramer.
De filho para mãe
Independentemente de como isso ocorre, é perfeitamente plausível que o tecido de outro ser humano induza o cérebro a se desenvolver de maneiras inesperadas, segundo Lee Nelson, da Universidade de Washington, nos Estados Unidos.
Ela atualmente estuda se as células de uma mãe podem ser implantadas no cérebro do bebê. "Uma diferença na quantidade, tipo de células e momento em que elas são adquiridas poderia resultar em anormalidades", afirma a cientista.
Nelson descobriu que mesmo um adulto não está imune a "invasores" humanos. Há poucos anos, ela e William Chan, da Universidade de Alberta, no Canadá, retiraram fatias do tecido cerebral de uma mulher e analisaram seu genoma em busca de sinais do cromossomo Y. Eles descobriram que 63% desse tecido hospedava células masculinas.
Segundo Chan, o cérebro dela estava salpicado de células vindas do corpo de um homem. Uma conclusão lógica seria que, de alguma maneira, as células-tronco do filho que ela gerou atravessaram a placenta e se alojaram em seu cérebro.
Alguns pesquisadores estão começando a investigar se essas células poderiam influenciar o comportamento de uma mulher durante a gravidez.
Nosso conhecimento sobre o "superorganismo" humano ainda está engatinhando. Portanto, muitas das teorias ainda estão para serem comprovadas. Os cientistas ressaltam, no entanto, que não devemos hostilizar esses "invasores" – afinal, eles são parte do que cada um de nós é hoje.
(com informações do site BBC)