06/05/21
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Falta kit intubação

Hospitais em São Paulo usam alternativas ao intubar pacientes de Covid-19

Geraldo Bubniak/AEN
Geraldo Bubniak/AEN

Municípios de São Paulo afirmaram nesta quarta-feira (14) que 68% dos serviços de saúde do estado zeraram o estoque do chamado "kit intubação" e usam remédios alternativos para supri-lo.

Segundo o governo estadual, a reposição é urgente para evitar um colapso. Os medicamentos são essenciais para tratar pacientes de Covid-19 em situação grave.


O novo levantamento foi feito pelo Cosems (Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo) com dados fornecidos pelas unidades de saúde ao MedCovid (Sistema de Monitoramento de Consumo e Estoque dos Medicamentos do Kit Intubação, do governo estadual).

Na terça (13), 2.127 dos 3.126 serviços de saúde no estado não tinham neurobloqueador, medicamento utilizado para relaxar a musculatura na intubação, e 961, sedativos.

Médicos e gestores da rede pública de saúde paulista consideram o desabastecimento preocupante, mas ressalvam que não há sinais de que os remédios acabem em 24 horas.

"Não há percepção generalizada entre os intensivistas de que o estoque acabe amanhã [quinta, dia 15], mas todos estão preocupados com o problema. Em todos os lugares, tem alguma dificuldade de abastecimento muito clara", diz o médico Ederlon Rezende, consultor da Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira).

No Hospital das Clínicas de São Paulo, o estoque dura 15 dias e há novas compras de medicamentos a caminho, afirma seu superintendente, Antonio José Pereira.

Em Campinas, a Rede Mário Gatti (municipal) afirmou ter estoque suficiente para atender a demanda atual. "A rede tem recebido dos fabricantes entregas parciais que têm permitido manter o estoque mínimo. Há medicamentos suficientes para atendimento de 7 a 10 dias", diz a gestão em nota.

"As compras estão abertas, com poucos fornecedores demonstrando possibilidade de venda. A falta de medicamentos ocorre em nível nacional por conta da demanda aumentada e porque parte da produção está requisitada pelo Ministério da Saúde."

Em março, o Ministério da Saúde passou a fazer requisições administrativas que obrigam as fábricas a destinar o excedente da produção para a pasta, que redistribui os medicamentos para os estados.

O governo de São Paulo enviou ofício ao ministério na terça (13) afirmando que precisava receber medicamentos do kit intubação em 24 horas.

"A situação de abastecimento de medicamentos, principalmente daqueles que compõem as classes terapêuticas de bloqueadores neuromusculares e sedativos, está gravíssima, na iminência do colapso, considerando os dados de estoque e consumo atualizado pelos hospitais nesses últimos dias", afirma o texto assinado pelo secretário de Saúde, Jean Gorinchteyn.

Segundo ele, a partir dos próximos dias faltarão medicamentos caso nada seja feito.

Em entrevista à imprensa, Gorinchteyn afirmou que o uso dos medicamentos alternativos tem garantido o procedimento, sob a chancela da Sociedade Brasileira de Anestesiologia e a Associação de Medicina Intensiva Brasileira.

O presidente do Cosems e secretário de Saúde de São Bernardo do Campo, Geraldo Reple, afirma que esses remédios têm o mesmo fundamento clínico que os do kit, mas são mais antigos ou trazem maior risco de complicações.

"O último caso é fazer o procedimento sem eles. Mas intubar um paciente sem sedativo ou relaxante é tortura."

Para o médico Paulo Menezes, coordenador do comitê de contingenciamento do governo paulista, a situação é mais crítica em municípios que enfrentam grande dificuldade de reposição.

A Feohosp (Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes do Estado de São Paulo) fez um levantamento entre seus cerca de 300 associados no qual 160 apontaram que os estoques têm, em média, de 3 a 5 dias de duração. A situação foi considerada gravíssima, e começam também a escassear os antibióticos.

"Vamos monitorando a situação em um grupo online com mais de 200 hospitais, e a cada dia a situação é mais desesperadora", afirma o diretor-presidente da Fehosp, Edson Rogatti.

"Mesmo nos hospitais que apontam entre 8 e 10 dias de estoque a situação é delicada, pois são hospitais maiores que também recebem grande volume de novas internações a cada dia e, dependendo da região, o estoque cai bruscamente de um dia para o outro."

Matão, Guarujá, Votuporanga, Presidente Epitácio, Fernandópolis e Rio Preto são exemplos de hospitais que operam com estoques entre 2 e 3 dias de margem. Mas a situação no estado todo é grave e os hospitais que acumulam dez dias de estoque são raros.

Rogatti diz que os hospitais entraram em contato com mais de 22 fornecedores na segunda e na terça, sem sucesso.

"A secretaria estadual tem ajudado, mas também não está conseguindo grandes volumes. Estamos batalhando por importações que estão sendo lideradas pela Confederação das Santas Casas, mas os estoques no exterior também não estão disponíveis e tememos pelo pior. Se o volume de internação não cair rapidamente, não conseguiremos repor."

O governador João Doria (PSDB) anunciou que fará uma compra emergencial no exterior, sem, contudo, informar a previsão de entrega.

Gorinchteyn frisa, porém, que a situação exige a compra imediata e centralizada pelo governo federal para maior rapidez. Segundo ele, foram enviados nove ofícios ao Ministério da Saúde nos últimos 40 dias solicitando "medidas expressas e urgentes" para recompor os estoques, e nenhum deles recebeu resposta.

Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que aguarda para esta quinta (15) a chegada de 2,3 milhões de medicamentos para intubação vindos da China, a serem imediatamente distribuídos entre estados com estoque crítico. Os remédios foram doados por Petrobras, Vale, Engie, Itaú Unibanco, Klabin e Raízen.

Ressaltou ainda que até agora foram distribuídos a estados e municípios mais de 8 milhões de medicamentos para intubação –1,4 milhão deles ao estado de São Paulo.

Além disso, disse que estão em andamento dois pregões e uma compra direta via Opas (braço da Organização Mundial da Saúde para as Américas), sem informar a quantidade.
Isabela P., Mônica B. e Cláudia C. - Folhapress
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