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Maconha transgênica e com agrotóxico assusta usuários nos EUA

25 jan 2016 às 14:34

Eleitores americanos que nos últimos anos votaram para legalizar a maconha em seus Estados pensavam em criar novas fontes de receita para o governo, enfraquecer o tráfico de drogas e combater o estigma enfrentado por consumidores. Mas muitos usuários não contavam com um efeito colateral da medida: a absorção da erva pelo capitalismo.

Conforme a legalização da planta avança pelos Estados Unidos e investidores despertam para seu potencial econômico, usuários e pesquisadores tentam agora impedir que a maconha se transforme numa espécie de commodity agrícola, com variedades transgênicas, uso intensivo de agrotóxicos e poderoso lobby entre os políticos.


"Depois de tudo o que fizemos pela legalização, é frustrante ver o rumo que as coisas têm tomado", diz à BBC Brasil Larisa Bolivar, diretora executiva da Cannabis Consumers Coalition, uma organização de usuários da erva sediada no Colorado.


No fim de 2012, Colorado e Washington se tornaram os primeiros Estados americanos a legalizar o uso recreativo da maconha. Desde então, foram seguidos por Oregon, Alaska e pelo Distrito de Columbia (sede da capital Washington). O uso medicinal da erva já foi legalizado em 23 dos 50 Estados americanos.


Bolivar diz que, ao elaborar as regras que regem a produção e o comércio de maconha, políticos têm deixado os consumidores de lado e levado em conta apenas os interesses de empresas farmacêuticas e produtores da erva.


A indústria da maconha, como tem sido chamada, já conta até com representantes em Washington. Em 2014, a National Cannabis Industry Association, organização que representa o setor, contratou um lobista para atuar junto a congressistas, prática comum a grandes segmentos empresariais.


Agrotóxicos no pulmão
"A maconha já está se transformando numa commodity", diz à BBC Brasil o biólogo Mowgly Holmes, cientista chefe do laboratório Phylos Bioscence, em Oregon. Ele diz que, assim como a maioria dos fazendeiros que plantam milho ou soja em larga escala, vários produtores de maconha estão recorrendo a práticas do agronegócio, como o uso de pesticidas para aumentar a produtividade.


Holmes publicou em junho um estudo sobre a presença de agrotóxicos na maconha vendida legalmente em Oregon. A pesquisa detectou as substâncias em quase a metade dos produtos testados, inclusive em alguns cujos rótulos diziam ser orgânicos. Em alguns casos, o nível de agrotóxicos excedia o limite permitido para outros produtos agrícolas.


Holmes afirma que fumar produtos com agrotóxicos é ainda mais arriscado do que ingeri-los, já que as substâncias entram na corrente sanguínea sem que antes sejam metabolizadas pelo sistema digestivo.


No ano passado, a cidade de Denver (Colorado) interditou seis estufas de maconha ao flagrar o uso de pesticidas impróprios para uso em produtos voltados ao consumo humano. Cabe à agência ambiental americana (EPA, na sigla em inglês) definir as regras para o uso de agrotóxicos em alimentos nos Estados Unidos. Porém, como a legalização da maconha tem sido promovida por Estados, à margem da legislação federal, a agência não elaborou diretrizes para o uso de agrotóxicos na produção da erva.


Segundo Holmes, a ausência de regras faz com que muitos produtores de maconha estejam aplicando pesticidas sem saber dos riscos. Ele defende que os Estados restrinjam o uso de agrotóxicos em pés de maconha a produtos com toxicidade mínima, aceitos até no cultivo de orgânicos.


Maconha transgênica?
Em outra frente, o laboratório de Holmes se uniu ao filogeneticista Rob Desalle, do Museu Americano de História Natural, para fazer o sequenciamento do genoma de milhares de tipos de maconha. O pesquisador diz que a planta, domesticada por humanos há cerca de 10 mil anos, possui variedades "incrivelmente diversas e complexas".


Segundo Holmes, o estudo busca criar um banco de dados e impedir que empresas tentem patentear variedades em circulação. Outra preocupação, diz o pesquisador, é evitar que gigantes do agronegócio passem a dominar o setor, produzindo maconha transgênica e reduzindo a variedade atual.


"Estamos muito preocupados em proteger a diversidade e os pequenos produtores", ele afirma.
Por enquanto, não há informações sobre o desenvolvimento de variedades transgênicas de maconha. Segundo Holmes, grandes empresas do setor, como a Monsanto, só esperam um afrouxamento da legislação federal para atuar na área, o que para ele deverá ocorrer dentro de dois ou três anos.


A Monsanto afirma em seu site que não "trabalhou e não está trabalhando com maconha transgênica". A farmacêutica alemã Bayer, que também desenvolve sementes transgênicas, já produz medicamentos à base de maconha. Consultada pela BBC Brasil, a empresa disse não ter planos de desenvolver produtos agrícolas relacionados à erva.

(com informações do site BBC)


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