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16/07/2008 09:29
Memórias

Jaguariaíva guarda o imponente 'palacete' Matarazzo

Mansão construída em 1920 por Francesco Matarazzo leva visitantes de volta ao passado

Sentado numa cadeira no amplo salão principal, um simpático senhor espera pelos esporádicos visitantes. Quando alguém chega, ele põe-se a falar em tom de recordação das muitas histórias envolvendo o imponente casarão batizado de ''palacete'', que um dia pertenceu à Família Matarazzo, o clã de imigrantes italianos que impulsionou o desenvolvimento industrial brasileiro entre o final do século XIX até meados do XX. Esvaziada dos objetos luxuosos que enchiam os olhos de quem era convidado a entrar, a mansão hoje repousa quase esquecida em um privilegiado ponto de Jaguariaíva (Norte do Paraná). Ainda assim, Rosário Vieira Papa mantém-se firme como o solitário guardião do lugar.

O palacete

Alto e imponente, o Palacete Matarazzo à distância já enche a visão. De perto, o deslumbramento cede espaço à curiosidade de saber detalhes sobre os antigos donos. Mesmo sem nenhum mobiliário ou qualquer outro objeto que originalmente compunham os 31 cenários que formam o casarão - tudo foi levado pela família para uma fazenda no interior de São Paulo -, o visitante é levado de volta ao caminho da história.


Vencida a escadaria, a porta principal se abre para a sala de recepção. No passado, a lareira amenizava o inverno. Uma estante falsa se abre para o salão de jogos, onde também abrigou a biblioteca. ''Ele costumava se trancar por dentro quando queria ler algum livro e não queria ser incomodado'', conta o guia. Alguns passos adiante, a luz do sol atravessa a ampla janela de vidros transparentes e ilumina naturalmente o salão principal. A ausência de mobília e decoração do passado confere ao espaço um ar degradado mas, ainda assim, aconchegante.

Outra porta leva à suite onde o conde Matarazzo repousava e tomava demorados banhos na grande banheira. Azulejos brancos e louças de qualidade valorizam o acabamento. Da cozinha, nada mais lembra o passado. No porão ficavam a lavanderia, a dispensa e o quarto das camareiras e cozinheiras. No segundo andar, ficavam outros cômodos onde pernoitavam os dois motoristas e os três ou quatro seguranças que acompanhavam o conde. Ao que parece, a preocupação com a integridade do industrial era grande, haja visto que o conde construiu uma clarabóia no alto do casarão, que servia como posto de observação noturno dos vigias.

Do lado de fora, belos jardins adornavam os arredores do palacete. Nos fundos, uma quadra de tênis e um campo de futebol formavam a área de lazer. Papa conta que Ermelino Matarazzo, um dos filhos do conde que chegou a jogar profissionalmente no Palmeiras e Botafogo do Rio, costumava reunir amigos e funcionários em acirradas partidas. Atualmente, o casarão é cercado por plantação de pinus que, ainda que sejam belos, nem de longe traduzem a exuberância do passado. A estrebaria, que nos anos 80 serviu de morada do guardião, hoje é só ruína.

O palacete e boa parte dos 1,2 mil alqueires que pertenciam ao Grupo Matarazzo foram vendidos em 1978. No final da década de 1990, depois de pertencer a outros donos e abrigar até um hotel, o imóvel foi repassado à Prefeitura de Jaguariaíva, que pretende instalar no local o Museu Histórico Municipal Conde Francisco Matarazzo.

Neto de tropeiros, o diretor do Departamento de Cultura de Jaguariaíva, João Antônio Santos Lima, diz que a idéia é resgatar os quase 185 anos de história de Jaguariaíva, valorizando o garimpo de esmeralda e ouro, o tropeirismo, a chegada da estrada de ferro, o grupo Matarazzo e as muitas famílias que ajudaram a erguer a cidade.

Conforme Lima, juntamente com a lei que criou o Museu foi instituída outra que criou o Conselho Municipal de Cultura, que vai gerir os recursos e planejar eventos culturais e artísticos. Para abrigar o Museu, no entanto, o prédio terá que passar por reforma e adaptação. O projeto já foi feito e a previsão de custos é de R$ 600 mil.

História

Para contar a história do palacete, Papa lembra que é preciso lembrar a história de Francesco Matarazzo, o patriarca, que em 1881, aos 27 anos, partiu da Itália rumo ao Brasil trazendo consigo a esposa Filomena, dois filhos pequenos, três de seus oito irmãos e o sonho de ampliar os negócios da família. Após um período de dificuldades, o ítalo-brasileiro conseguiu instalar um mercado, uma fábrica de banha e se lançou em diversas outras atividades.

''Então, ele teve a idéia de realizar seu grande sonho, que era construir um frigorífico, e decidiu viajar para o Sul do país, para escolher uma cidade para abrigar a empresa'', continua Papa. O industrial tomou o trem em São Paulo e no caminho se deparou com um recanto formado por um rio e uma cachoeira, já em terras paranaenses, e decidiu construir o empreendimento ali, em Jaguariaíva. ''O trem parou e contam que conforme ele se aproximava do rio ia ficando mais entusiasmado porque observou na margem oposta um grande criame de porcos'', valoriza o guardião.

As obras foram iniciadas em 1918 junto com a construção do palacete e de mais 148 moradias para funcionários. ''As olarias da região trabalhavam unicamente para ele'', recorda o guardião transformado em guia histórico. Dois anos depois, o sonho foi concretizado.

Francesco havia se tornado conde um ano antes de sua chegada a Jaguariaíva. O título foi dado pelo Rei Vítor Emanuel III em homenagem à ajuda que ele havia dado à Itália durante a Primeira Guerra Mundial. O industrial faleceu em 1937, como um dos homens mais ricos do mundo, e o controle dos negócios passou para um de seus herdeiros, Francisco Matarazzo, que viajava pelo menos uma vez por ano a Jaguariaíva.

O conde

O herdeiro da fortuna também era chamado de conde e parece ter herdado ainda o mesmo tino para os negócios. O grupo industrial chegou a ter 366 empresas. Conta quem o conheceu que Francisco Matarazzo era um sujeito de personalidade acanhada mas muito querido pelos funcionários. Papa afirma: ''eu trazia as camisas para ele experimentar e ver se estava do seu gosto. Ele não era de ficar falando muito. Dizia poucas palavras mas não era arrogante.''

Do púlpito na sacada do palacete, o conde observava a chaminé do frigorífico que ficava na parte baixa do terreno, a cerca de 500 metros de distância. ''Quando ele não via a fumaça, mandava um encarregado saber o porquê.''

O conde não era dado a festas nem oferecia jantares no palacete, mas fazia questão de celebrar todo 1º de Maio, Dia do Trabalhador, quando presenteava os funcionários. Nos finais de ano, durante o Natal, também distribuía presentes para todos.

Ele frequentou o palacete até 1966. Nesse ano, teria ficado muito chateado ao saber que diretores do grupo haviam fechado o frigorífico e instalado uma tecelagem de juta, rami e algodão. ''Contam as pessoas que o conde sentiu um impacto muito grande. Cabisbaixo e abatido, ele foi embora no dia seguinte e nunca mais voltou'', relembra Papa.
Luciano Augusto - Folha de Londrina
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