Quinta-feira, 25 de Maio de 2017
22/06/2004 11:00

Ulisses - James Joyce

Mais cultuado do que lido, o livro-chave do autor irlandês continua sendo uma das mais instigantes obras da literatura universal, mesmo após mais de 80 anos de sua publicação

Eu não sei se gosto de James Joyce*. Não sei se algum leitor ou estudioso de suas obras, sobretudo "Ulysses" e "Finnegans Wake", gosta.

Porque Joyce me incomoda. Joyce me instiga. E me provoca.

Como não se sentir incomodado? Em pleno século XXI, mais de 80 anos depois do lançamento de Ulisses ainda não existe livro que o rivalizasse em questões de inovações formais. As técnicas criadas/aprimoradas por Joyce são ainda o que temos de mais "avançado" em literatura.


Ninguém foi além de Joyce até agora.

Ulisses parece ser o fim do caminho. O livro chega mesmo a dispensar o narrador nos seus dois últimos capítulos.

Receita para ler o Ulisses:

Leitura Essencial

  • O Retrato do Artista Quando Jovem (J.Joyce)

  • A Odisséia (Homero)


Leitura Recomendada

  • Dublinenses (J.Joyce)

  • A Divina Comédia (Dante Aligheri)

  • Hamlet (Shakespeare)

  • todo o resto da obra de Shakespeare

  • a literatura inglesa escrita até Joyce



Some à leitura essencial uma dose de não imediatismo e grande interesse por questões de qualidade literária. Besunte a literatura recomendada com a busca por referências em doses constantes até aturar.

Deixe descansar (você) e comece de novo.

Por que tamanha dificuldade de leitura? A obra é inovadora, porém ruim, já que não se consegue ler?

Se só alguns conseguem ler, é óbvio que ela é elitista e o problema está com eles (leitores), a minoria.

Será?

Estamos sempre envoltos em cultura de massa, de assimilação rápida e fácil, de estrutura repetitiva. Então nos deparamos com um texto carregado de referências, inovador a cada capítulo, que não lhe permite a criação de uma base estável de compreensão.

Com um problema extra em português: a tradução pernóstica de Houaiss. Se a obra já é complicada por sua própria conta, o tradutor dá uma eruditada no texto todo, inclusive em trechos mais simples. Leia a primeira linha da tradução do Houaiss. Coragem irmão...

Resumão do Ulisses:

Leopold Bloom sai de casa para um enterro e irá percorrer Dublin durante um dia inteiro, visitando biblioteca, jornal, bordel e bares. No final ocorre o encontro com Stephen Dedalus, um jovem intelectual de Dublin. O livro "Retrato do Artista Quando Jovem", é o retrato de Stephen (Joyce?). O Sr. Bloom é o equivalente ao Ulisses (ou Odisseu), herói da "Odisséia" e Stephen, a Telêmaco, seu filho. Assim como na obra de Homero, o herói faz um grande caminho e retorna pra casa, reencontrando o filho, representado por Stephen.

Joyce incomoda por pedir uma atenção não convencional, por exigir uma sensibilidade de leitor que vai muito além do trivial.

Incomoda a ponto de você entender quase nada.
Quase.

Você fica com o sentimento de que tem algo ali que você quase entendeu. Que há muita coisa ali pra revirar.

E quando dá por si, não é mais uma questão de gostar ou não. É uma questão pra responder. Resposta cada vez mais completa a cada leitura, com uma pergunta cada vez mais díficil.

(*) Essa idéia eu empresto de Jacques Derrida em seu ensaio "Duas Palavras", sobre "Finnegans Wake".
Quem escreve esta coluna?
Lielson Zeni
Lielson Zeni, 27 anos, é formado em Publicidade e Propaganda pela UFPR e Mestre em Estudos Literários (também pela UFPR). Atualmente, cursa Letras. Passou muito mais tempo do que deveria lendo livros e quadrinhos e vendo filmes. Mesmo assim, é uma boa pessoa (segundo o próprio).
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