Beirada nipônica

Nipônico surpreso

22 jul 2012 às 09:39

Por esses dias, conversando com uma brasileira da gema, ouvi uma declaração que me deixou pensando. Ela me relatou que não se sente bem em assistir programas onde aparecem gays. Disse também que não sabe o que explicar ao seu filho de 12 anos quando aparece um travesti.
Explico... nas TVs japonesas é muito comum aparecerem travestis. Elas são divertidas, falam coisas que um "normal" não falaria, vestem-se de maneira mais ousada e superaram preconceitos de todos os lados.
Esses travestis aparecem diariamente nos diversos programas de variedades, ora como apresentadoras, interpretando alguma canção ou apenas como convidados para dar opiniões.

O travesti Haruna Ai


O japonês é um povo que vive na sua. Para quase todos não é importante o que vizinho faz, como ele se veste ou se ele é homo ou hetero. Eles simplesmente não estão interessados nisso. Lógico que existem as fofoqueiras de plantão, aquelas que ficam nas janelas fiscalizando o "transito". Mas no geral, o pessoal não liga se fulano veste rosa ou cicrana não está depilada. É meio que cada um para si e Deus para todos. É bom porque aqui não existe um padrão de moda ou comportamento. E ruim porque esse "cada um para si" deixa as pessoas isoladas, muitas vezes empobrecidas socialmente. Mas isso é outra coisa.
Imediatamente me vieram à mente as agressões aos homossexuais em algumas cidades brasileiras. A intolerância com as opções de cada um. O preconceito sem conhecer em detalhes a vida alheia. Aquela coisa de se basear apenas no ouviu falar, vi em algum lugar...
O que acho interessante é que o brasileiro passa a mensagem de ser um povo amigável, tolerante, aberto para várias coisas e situações. Existe o campeonato da Miss Bumbum, as revistas e os sites estão cheio de corpos sarados, bronzeados, siliconados e até alguns naturais.
O carnaval talvez seja uma das coisas mais marcantes dentro da cultura brasileira. Naqueles três dias tudo está liberado. As popozudas em fio dental, as exibições dos seios sem nenhum constrangimento, gays abraçados com machões declarados, o nu frontal escondido atrás das purpurinas. Uma liberdade de dar inveja a suecos e dinamarqueses.
Mas parece que quando chega à quarta-feira de cinzas, o preconceito começa a dar sinais de vida e pessoas como a minha amiga da gema não sabe o que falar e nem pensar a respeito de toda essa liberdade.
Tenho repetido sempre que o Japão é um país cheio de regras. Os horários são respeitados. A hierarquia é rígida. Os mais jovens tem a obrigação de respeitar os mais velhos, ninguém passa num farol vermelho, ninguém anda sem cinto de segurança, ninguém faz barulho excessivo depois das nove horas. São regras e mais regras.
Mas parece que em questão de tolerância o país vai bem. Não existe registro de agressões aos gays, ninguém acha estranha a opção sexual de ninguém, as crianças não se assustam quando vêem travestis nas TVs e os pais sabem como explicar tudo isso.
Com será que funciona tudo isso nas cabeças tupiniquins?

O tamanho das pessoas


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