Falando de Literatura

MAG - O homem que conversava com as palavras - por Carmem Soek Pliessnig

26 jul 2026 às 09:01

Carmem Andrea Soek Pliessnig, conhecida pelo pseudônimo literário Carmenatureza, é professora da Rede Estadual do Paraná, licenciada em Letras – Português/Espanhol e em Pedagogia, com especializações em Neuropsicopedagogia, Ludopedagogia e Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa e Estrangeira.

Sua trajetória é dedicada à educação, à literatura e à formação de leitores. Atua como mediadora de leitura para crianças, adolescentes, jovens e idosos, desenvolvendo projetos que aproximam a comunidade do universo literário por meio da leitura, da poesia e da contação de histórias.

Em parceria com o bibliotecário Antônio Marcos Afonso, da Biblioteca Pública de Telêmaco Borba, realiza ações culturais voltadas ao incentivo à leitura, à contação de histórias e ao encontro entre leitores e escritores. Também promove atividades que inserem seus alunos em eventos literários, estimulando o contato direto com autores, incentivando a produção textual e a valorização da literatura.

Foi convidada pelo bibliotecário Antônio Marcos Afonso para atuar no projeto “Melhor Idade, Melhor Leitura”, desenvolvido na Biblioteca Pública de Telêmaco Borba em parceria com o Centro de Convivência do Idoso (CCI), com o objetivo de incentivar o hábito da leitura entre a população idosa, promovendo o estímulo à imaginação, ao raciocínio, à memória e à convivência por meio da literatura.

Participa como coautora de diversas antologias literárias. Assina o prefácio de uma antologia organizada por Antônio Marques (PNAB) e também da obra Sonhos de Poesia, organizada por João Leles Martins, contribuindo para o fortalecimento e a divulgação da produção literária contemporânea incluindo seus alunos adultos (CEEBJA).

Foi convidada pela escritora Isabel Furini para declamar poemas em português e em espanhol em eventos literários, além de desenvolver traduções de poemas do português para o espanhol, promovendo o diálogo entre as duas línguas.

Participou da banca examinadora do projeto Chá da Vida, idealizado pelo escritor Jones Pinheiro, conhecido pelo pseudônimo Hupomone, avaliando obras de poetas nacionais e internacionais e colaborando com a valorização da poesia contemporânea.

Recebeu convite da ASES – Galeria 50 Mais, em Curitiba, para homenagear a artista Vivien Zanlorenzi, criando poemas inspirados nas obras produzidas por suas alunas, realizando a declamação dessas composições durante o evento.

Também atua como administradora do grupo literário Cantinho do Amor, fundado por Sérgio Melgareco, espaço dedicado ao compartilhamento de poemas, reflexões e incentivo à criação literária.

Acreditando que a literatura transforma vidas e aproxima pessoas, Carmem Andrea Soek Pliessnig segue desenvolvendo projetos que unem educação, poesia, arte e cultura, fazendo da palavra um instrumento de sensibilidade, inclusão e formação humana.

MAG – O HOMEM QUE CONVERSAVA COM AS PALAVRAS (Carmem Soek Pliessnig)

Algumas pessoas escrevem poemas. MAG conversava com as palavras.

Sonhadora mente, assim sou eu. Sempre acreditei que os livros respiravam. Bastava abrir uma página para sentir que ela escondia alguém esperando para conversar. Havia dentro de mim um sonho silencioso: aprender a cuidar dos livros, tocar suas folhas com respeito, compreender as marcas do tempo e devolver-lhes a vida.

Jamais imaginei que um dia uma página mudaria completamente a minha própria história. Aos vinte e cinco anos, deixei meu trabalho em uma papelaria. Precisava apenas descansar a mente. Depois de alguns dias, caminhei até a pequena biblioteca do Parque da Barreirinha, em Curitiba, para emprestar alguns livros.

Pequena apenas em tamanho.

Gigante em humanidade.

Ao entrar, minha imaginação fez uma travessura. Parecia que algumas páginas haviam escapado dos livros e voavam pela biblioteca.

Em uma delas estava escrito:

Geraldo.

Na outra:

Magela.

Na terceira:

Cardoso.

Sorri comigo mesma.

Quem seria aquele personagem formado por três páginas? Foi quando ouvi uma voz acolhedora:

Vieste apreciar uma boa leitura?


Levantei os olhos.

À minha frente estava o bibliotecário.

Poeta.

Escritor.

Sonhador.

Geraldo Magela Cardoso.

Conversamos poucos minutos. Mas algumas pessoas não precisam de muito tempo para ocupar um lugar definitivo dentro da nossa história. Falamos sobre livros. Sobre poesia. Sobre sonhos. Contei-lhe que havia um desejo guardado em meu coração: aprender a restaurar livros.

Ele sorriu. Olhou para uma pilha de exemplares machucados pelo tempo.

Depois perguntou:

Tens um pouco de tempo?

Imaginei que fosse para ler.

Mas respondeu:

Não… para devolver a vida a eles.

Naquele instante, sem perceber, comecei também a devolver vida a mim mesma. Aceitei trabalhar como sua auxiliar bibliotecária durante suas férias. As férias terminaram.

Nossa amizade não.

Graças ao incentivo de Magela, realizei o curso de restauração e encadernação de livros no Parque São Lourenço. Passei a restaurar obras da biblioteca, bíblias e tantos livros que voltavam às mãos dos leitores prontos para novas histórias. Durante muitos anos pensei que eu restaurava livros.

Hoje compreendo que Magela restaurava pessoas. Ele enxergava talentos onde quase ninguém os percebia. Descobria poetas escondidos em alunos, professores, trabalhadores e sonhadores. Ao seu lado vivi uma das experiências mais bonitas da minha caminhada literária: a Editora Fundo de Quintal, pelo selo Alternativa. Visitávamos escolas. Promovíamos encontros literários. Descobríamos novos escritores. Publicávamos os primeiros poemas de pessoas que jamais imaginaram um dia segurar um livro com o próprio nome na capa.

Nos fins de semana, a Feira do Poeta era muito mais que um espaço cultural. Era um abraço coletivo. Ali aprendi que literatura não nasce apenas dos grandes nomes. Ela floresce quando alguém acredita, pela primeira vez, na voz de outro escritor. Magela fazia exatamente isso. Ele não publicava apenas livros. Publicava coragem.

Com o passar do tempo, passei a chamá-lo simplesmente de MAG.

Não era apenas um apelido.

Era a tradução do que ele representava para mim.

Meu Amigo Gigante.

Gigante porque jamais media a grandeza das pessoas pela fama.

Gigante porque estendia a mão sem fazer barulho.

Gigante porque compreendia que a cultura só permanece viva quando é compartilhada.

Depois a vida seguiu seus próprios caminhos. Voltei para minha cidade. Os anos passaram. Quase vinte anos de silêncio. Até que, durante a pandemia, por meio do projeto Chá da Vida, de Jones Pinheiro, e graças à generosidade de uma amiga escritora Carla Ramos, nossos caminhos voltaram a se encontrar. Parecia que o tempo havia apenas colocado um marcador de páginas entre nós.

Magela permanecia exatamente igual. Ou talvez ainda mais poeta. Descobri que ele não escrevia mensagens. Escrevia pequenos espetáculos de palavras. Enquanto muitos diziam “bom dia”, ele escrevia:

— “

Bom dia, fidalguia. Como vai a senhora poesia?”

Quando a saúde dava sinais de cansaço, respondia com humor:

— “

Não tenho depressão… tenho pressão alta.”

Quando brincava consigo mesmo, sorria:

— “

Pra não ficar MauGela.”

E fazia a própria mente brincar:

— “

Às vezes minha mente mente…”

Magela não fazia trocadilhos para demonstrar inteligência. Fazia porque enxergava vida dentro das palavras. Parecia conversar com elas. Parecia libertá-las. Era como uma criança que desmonta um brinquedo apenas para descobrir quantas possibilidades existem dentro dele.

Assim era sua poesia.

Leve.

Humana.

Generosa.

Inesquecível.

Entre tantas mensagens que guardo com carinho, existe uma que hoje parece escrita entre a terra e o céu.

Ele me escreveu:

— “

Preciso… antes de subir aos céus… te encontrar. Avisar pros anjos que você me representará.”

Sorri quando li. Achei que fosse apenas mais um dos seus encantadores jogos poéticos. Eu não sabia que algumas poesias chegam antes dos acontecimentos. Pouco tempo depois, recebi a notícia de sua partida. Naquele instante, suas palavras deixaram de ser metáfora. Transformaram-se em missão.

Hoje, ao assumir sua cadeira na Academia AVIPAF, não sinto que estou ocupando o lugar de alguém. Sinto que continuo caminhando ao lado dele. Porque pessoas como Magela não pertencem apenas à própria história. Pertencem à história de todos aqueles que ajudaram a florescer.

A pequena biblioteca do Parque da Barreirinha nunca foi pequena. Ela tinha exatamente o tamanho do destino. Entrei procurando um livro.

Encontrei um bibliotecário.

Conheci um poeta.

Ganhei um mestre.

E a vida me presenteou com um amigo.

MAG.

Meu Amigo Gigante.

Se hoje alguém me perguntar quem foi Geraldo Magela Cardoso, talvez espere ouvir que foi poeta, escritor, bibliotecário, incentivador cultural, fundador da Feira do Poeta, descobridor de talentos. Tudo isso é verdade. Mas ainda é pouco. Prefiro responder de outro jeito. Geraldo Magela Cardoso foi um homem que restaurava pessoas com livros. E conversava tão profundamente com as palavras que, quando partiu, elas se recusaram a partir com ele.

Resolveram permanecer.

Dentro de todos nós.

Carmem Andrea Soek Pliessnig

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