Pesquisar

Canais

Serviços

Gatos são inteligentes - Isabel Furini
Continua depois da publicidade
Continua depois da publicidade

O Gato de Botas e o homem de pinto pequeno

31 dez 1969 às 21:33
Continua depois da publicidade

Aniversário de Alberto. Meu irmão, o Carlão, virá com alguma de suas loucuras. Já o presenteou com um vômito de plástico, com cocô... nem sei de que material, parecia de verdade. Deu copo com mosca, refrigerante que faz babar... O Alberto queria matá-lo, até que....

Continua depois da publicidade
PUBLICIDADE

– A sociedade está perdendo os valores éticos. A sociedade de consumo, consumiu nossos valores! - gritou Alberto para finalizar o discurso.

Continua depois da publicidade


Os alunos aplaudiram. O diretor não gostou. Os pais deram queixa: o professor Alberto usava da retórica para colocar os filhos contra o sistema. Foi demitido.



Alberto era o único dos três irmãos que estudara. Meu sogro, ao morrer, deixou uma chácara para o mais velho, uma padaria para o filho do meio e, para o caçula, uma poupança para terminar os estudos. Alberto formou-se em História.


Nessa tarde quente de primavera, Alberto aproximou-se do prédio, cabisbaixo.

Continua depois da publicidade


– Lúcia, preciso falar com você, disse com voz triste. Perdi o emprego, murmurou.


A notícia se espalhou. A família toda entrou em desespero. Os tios de Alberto, meus pais, os irmãos de Alberto, minhas primas. Todos estavam revoltados. Falavam em processar a escola, em processar o diretor, os pais dos alunos, até em processar o porteiro da escola. Só o Carlão permanecia tranqüilo.


Ainda lembro quando falamos sobre o assunto. Foi numa tarde. O Carlão ia cuidar do Carlinhos porque eu precisava consultar o médico e Alberto tinha uma entrevista de emprego. Estava do lado de fora, esperando-o . O Carlinhos brincando com um carrinho entre as poltronas do hall. Duas senhoras idosas, idosas mesmo, falavam sobre doenças, ao lado da porta. Uma apoiou-se do lado direito, e a outra, do lado esquerdo da porta. Desculpa o atraso, mana, disse o Carlão e entrou correndo, passando entre elas sem cumprimentar. Uma das senhoras olhou para ele e gritou:


– Juventude sem educação, passou entre nós duas e nem disse boa tarde.


Carlão virou-se e irônico retrucou: – Desculpem, achei que as duas múmias faziam parte da decoração do prédio. Eu baixei a cabeça e caminhei até o carro. O Carlão e Carlinhos sempre me faziam ficar envergonhada.


– O que disse o médico? – perguntou o Carlão.


– Só estresse... – respondi quase chorando... É que se Alberto não consegue emprego... não sei... devemos R$15.000,00 ao banco.... vamos perder o apartamento... Carlão.... onde vamos morar?


– Podem morar comigo...


– Você mora numa quitinete...


– É verdade... não se preocupe, já vai surgir alguma solução.


Eu continuei preocupando-me. Às vezes, o Carlinhos, com seus cinco anos, aproximava-se de mim – Por que está tão triste, mãe? Eu não respondia... não sabia o que dizer.


Uma semana depois, à noite, o Carlão chegou acompanhado da Marilda, a namoradinha loira. Entregou-nos R$ 15.000,00 em notas de cinqüenta... Foi a maior agitação, lá em casa. O Carlinhos pulava do sofá, subia e pulava novamente. Alberto achava que o Carlão tinha roubado. Minha mãe gritava que o filho não era ladrão. Eu perguntava de onde ele havia tirado o dinheiro.


– Ele não roubou, não... ele é um gênio! -exclamou a Marilda e deu-lhe um beijão na boca... desses de tirar o fôlego.


No dia anterior, o Carlão tinha solicitado falar com Osvaldo, o chefe. Osvaldo era um quarentão arrogante e egocêntrico. Metido a besta, segundo os funcionários. Era namoradeiro, um play-boy e bom gourmet. Foi recebido pelo Osvaldo às dezesseis horas. Sala grande, luminosa, computador de última geração.


– Admiro o senhor... por isso, tenho que falar.... bem... não sei se devo contar isso ao senhor... talvez... é... melhor outro dia.... Virou-se e deu dois passos até a porta.


– Pode falar, rapaz... O Carlão explicou que o assunto era muito delicado. Não sei se devo, não sei se devo, repetia.


– Por favor... sente-se. Qual é o problema?


– Seu Osvaldo... eu sei que temos nossas opiniões, algumas diferenças... mas eu admiro muito o senhor, por isso acho que devo ser honesto. O pessoal está dizendo... está dizendo... que o senhor...


– Sim?...


– Pinto pequeno. Estão dizendo que o senhor tem pinto pequeno.... Desculpe, senhor, mas é o que estão dizendo.


Os olhos de Osvaldo ficaram enormes, injetados de sangue. Ele, o play-boy, o garanhão.... Pinto pequeno, eu????


– Estou contando para ajudar. Em seu lugar eu... daria uma lição. Reuniria todos os homens, baixaria as calças e faria notar o tamanho de minha genitália.


Osvaldo ficou em silêncio, os punhos crispados, a garganta seca. Serviu-se de um café e ofereceu outro para Carlão.


– Isso... Isso... Vou dar uma lição no pessoal.


Osvaldo chamou a secretária e pediu para reunir todos os homens da empresa –185, na parte livre do almoxarifado. Ele iria discursar.


Osvaldo, de pé sobre um palco improvisado, esbravejou:


– Sei que estão falando nas minhas costas... sei que estão me criticando... mentindo sobre o meu pinto. Dizendo.. dizendo que tenho pinto pequeno..


Carlão, na primeira fileira gritou: – Abaixe as calças! Abaixe as calças!


Osvaldo abaixou as calças e mostrou, com orgulho, como era um homem avantajado. De hoje em diante, quero ser chamado de Osvaldo, grande pinto! Gritou e retirou-se, feliz. Os funcionários iam saindo e cumprimentando o Carlão. Você ganhou... cara! Nunca pensei que realmente conseguisse fazer o chefe abaixar as calças diante dos funcionários.


Marilda contou rindo que o Carlão tinha feito uma aposta. Apostou que conseguiria fazer o chefe descer as calças. E conseguiu. Todos os 327 funcionários da empresa, entre homens e mulheres, todos apostaram. R$ 50,00 cada um. São R$ 15.000,00 para pagar o apartamento e um trocado para mim... disse o Carlão.


O dono, seu Eufrásio, ao saber da brincadeira chamou o Carlão. Criatividade é o que precisamos nesta empresa, disse. O Carlão mudou de setor. Foi para o departamento de marketing e ganhou uma promoção.


– O que fará hoje teu irmão? – perguntou a prima de Lúcia, enquanto arrumava os brigadeiros.


– Alguma brincadeira... como sempre, agora é chefe da empresa, mas não mudou.


Soou a campainha. Os convidados estavam chegando com presentes para Alberto. Beijos, abraços, frases como: o Carlinhos é um amor, é muito fofinho... Onde está o aniversariante?

Carlão trouxe um presente para Alberto. É para festejar seu novo emprego na faculdade, falou. Um charuto fino, um cubano. Alberto acendeu. Explosão. Risos. Alberto foi lavar o rosto. Tinha ficado preto. Lúcia aproximou-se dele. Você não sabia que ele ia fazer isso? Sabia, Lúcia, eu sabia, mas depois de tudo o que fez por nós... decidi entrar na brincadeira.


Continue lendo

Últimas notícias

Publicidade