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Sylvio do Amaral Schreiner
Sylvio do Amaral Schreiner
13/12/2019 - 10:51
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Uma leitora fez algumas perguntas bem pertinentes sobre psicanálise e achei interessante compartilhar com os leitores do blog que me acompanham. São questões de muitos que me procuram e busquei responder da forma mais simples possível.

O blog Mundo Vivo está aberto para sempre responder aos leitores, com total sigilo. Também estou no Instagram e Facebook e podem me contatar no modo privado das redes sociais.



Vamos às perguntas:

1- Uma vez li um texto que dizia que para a análise iniciar de fato, é necessária a transferência e o analista precisa ter aceito aquele paciente em análise. O que seria aceitar o paciente em análise?

Significa o analista sentir que o analisando pode se beneficiar do processo da análise. Que, em algum grau, o analisando entende que há uma responsabilidade sua pela vida que leva, que seja um indivíduo que sofra e que tenha curiosidade sobre si mesmo, sobre seu mundo interno. Há muitas questões envolvidas para se tomar alguém em análise, mas esses três fatores são muito levados em consideração. Sem estas condições fica difícil um analisando levar em frente um processo que demanda entrar em contato com dores antigas e poderosas. Sem consciência do sofrimento, sem presença da curiosidade sobre si e sem responsabilidade por si mesmo não há como uma análise acontecer e aí desistir do tratamento no meio do caminho é muito frequente. O analista para aceitar alguém deve olhar para essas questões.

2- As primeiras entrevistas são feitas numa poltrona geralmente, analisando e analistas ficam de frente um para o outro. Em que momento o analista leva o paciente ao divã? O que demarca, exatamente, esse momento? Existe um tempo médio pra que isso aconteça?

Ah, o divã! Como isso gera dúvidas! Essa peça do mobiliário de um consultório analítico é algo que deixa muita gente curiosa. A análise, que fique entendido, não depende do divã. Ela pode acontecer frente a frente, com o paciente sentado na poltrona. Portanto, é um erro, que até muitos psicanalistas cometem, crer que a análise necessita do divã, invariavelmente. Frente a frente a análise pode acontecer, porém quando um analisando passa ao divã pode ter um contato maior com seu mundo interno. Nesse momento o analista e analisando ficam "livres” dos olhares um do outro para "sonhar” a sessão. Cada um fica entregue às suas associações livres para cada vez mais dar um sentido ao que se fala e se escuta. O analista pode convidar o analisando a ir para o divã quando acredita que podem sonhar mais nesse encontro que vivenciam juntos, mas ir para o divã jamais deve ser uma imposição. É um convite que pode ser aceito ou não. Ao estar deitado faz com que o analisando também saia de uma formalidade e possa ser ele mesmo, mais informal e espontâneo. A análise não se trata de um encontro formal ou social, mas um encontro de descoberta onde possamos nos colocar em novas posições em nossas vidas.

3- O que você acha do contato físico entre paciente e analista? Dois beijos ao cumprimentar, aperto de mão e até mesmo um abraço? Partindo do paciente esse ato, o que o analista pode fazer diante disso?

Não há problema algum, em princípio. A questão não é o beijo, o aperto de mão ou o abraço, mas qual o sentido deles. Há beijos que não são beijos, mas mordidas disfarçadas de beijos. Há abraços que são prisão e apertos de mãos que são apenas hábitos corriqueiros formais. E também há beijos que são beijos e nada mais. O que importa é qual o clima desse contato físico, qual o sentido que pode ser apreendido deles. Algo que tem que ser trabalhado, conversado? Algo que o próprio analisando não percebeu? Depende muito. Psicanálise não é ciência exata que se enfia o que acontece numa equação. O que se precisa numa sessão é haver disponibilidade para olhar as coisas com novos olhos. E também muito respeito entre os envolvidos. Nenhum paciente precisa se sentir mal porque cumprimentou o analista.

4- E sobre possíveis encontros na rua? Por exemplo, encontrar com o analista num restaurante ou shopping. Como agir? Cumprimentar ou não? E por que muitos analistas consideram que o "simples" fato de encontrar um paciente fora do consultório pode ser devastador para a análise chegando a ponto de interromper o tratamento?

Ora essa! A gente encontra pacientes na rua, no supermercado, em restaurantes, em todos os lugares. Qual é o problema? Se o paciente quiser cumprimentar, cumprimente. O que tem demais? Se um analisando sente alguma coisa ao encontrar o analista em algum lugar publico, pode levar isso para a análise. Isso pode ser matéria importante e interessante para se entender o que se passa. Se alguém interrompe a análise por causa disso está vivendo sob a ditadura de uma fantasia muito forte e isso vale tanto para o analisando quanto para o analista. O analista não deixa de ser uma pessoa comum que come, anda, passeia e por aí vai. Encontrar-se e cumprimentar-se não significa que tenham que sair juntos, trocarem figurinhas e terem uma vida social conjunta. Ninguém vai derreter se analista e analisando se esbarrarem por aí. A análise acontece no consultório e não fora dele e fantasias que venham a surgir devem ser analisadas.

5- Existe um valor médio para a sessão? Sei que muitos psicanalistas acordam com o paciente o valor das sessões, mas existe um mínimo e máximo? Por exemplo, um valor aproximado... Pra ter uma noção antes de começar.


Não existe valor fixo. Cada um pratica o que quer ou o que pode. Só mesmo conversando com o profissional para saber ou chegar a um acordo. Varia também do local. Cidades como São Paulo acabam tendo um valor maior, afinal o custo de vida lá é mais alto. Portanto os honorários de cada psicanalista são matéria de cada um. Para saber vai ser necessário entrar em contato com o profissional.

Apesar de ter respondido a essas questões quero dar ênfase que a análise é acima de tudo uma experiência emocional única e intransferível. Ela não pode ser colocada de maneira intelectual, pois isso mata o sentido. Quando tentamos explicar demasiadamente algo, morre-se o sentido. Um poema, por exemplo, não foi feito para ser explicado ou racionalizado, mas sentido. É impossível explicar aquilo que não foi feito para ser justificado. A análise é uma experiência emocional entre duas pessoas que provoca e gera transformações. É uma experiência transformadora onde passamos a nos relacionar conosco e com a vida de uma nova maneira. Ao viver um processo analítico temos a chance de descobrir quem somos e como podemos viver cada vez melhor. Melhor do que perguntar sobre psicanálise é se colocar disponível para a análise e viver uma experiência que pode ser impactante na vida. Nada substitui a experiência pessoal.
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Sylvio do Amaral Schreiner
 
No blog Mundo Vivo o psicoterapeuta Sylvio do Amaral Schreiner convida o leitor a refletir sobre questões que afligem e maravilham as pessoas. Por meio de artigos pertinentes e atuais, podemos discutir sobre tudo e, com isso, enriquecer nossa sabedoria – lembrando que sabedoria e conhecimento são coisas diferentes. Conhecimento é TER, sabedoria é SER. Esperamos que este seja um espaço para a sabedoria vir a morar, se modificar e evoluir.



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