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Sylvio do Amaral Schreiner
Sylvio do Amaral Schreiner
10/01/2020 - 00:04
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Pergunta de leitora - Há vida para viver



Na ceia de Ano Novo, me deparei com uma crise de ansiedade ou pânico, não sei dizer. Eu preparei um texto para a minha mãe em comemoração aos 80 anos dela para falar durante a ceia. No momento, eram por volta 80 pessoas, eu estava tranquila, até fui bem na homenagem, voz meia tremida, mas saiu. Depois sentei à mesa e comecei a me sentir mal: suei muito (a pressão arterial deve ter baixado), uma dor muito forte na boca do estômago, acompanhada de uma diarreia e até a sandália me incomodava, tive que tirar.



Me senti sufocada e até com medo em alguns momentos. No meu trabalho, em certas tarefas às vezes tenho essas sensações de medo, insegurança e ansiedade. Me lembro que quando mais jovem trabalhava no Banestado e um colega me disse: "Você é muito assustada" e eu não dei importância ao fato. Eu acredito que existe algo que me deixa assim, assustada com coisas, sem muita importância.

Quando me sinto ansiosa eu procuro ler ou assistir a um filme para me acalmar. Estou com 60 anos, sofri muito de labirintite, e em consequência, tenho deficiência auditiva, mas não me impede de eu levar uma vida normal. Tenho uma dieta saudável, pratico musculação e esteira, mas, sinto que preciso de algo para meditação, tipo ioga. Meu irmão disse que devo procurar uma ajuda psicológica, meu marido já diz que eu devo saber administrar, pois ele não acredita em psicologia e psiquiatria. Sei que passei neste final de ano, por mais uma crise sem saber ao certo o quê. É uma sensação horrível, um mal-estar inexplicável. Dr Sylvio, preciso de uma orientação do que pode estar acontecendo comigo. O que devo fazer?


Você sabe do seu mal-estar, do quão desconfortável é a angústia que sente, mas não sabe o que origina isso. Geralmente, quando ficamos angustiados, queremos nos livrar da sensação incômoda o mais rápido possível, porém não se trata de se livrar de algum sentimento ou emoção, mas de poder compreender o que se passa internamente. Em outras palavras, o que lhe falta é dar um significado para o que você sente.

Me chama atenção o fato de que você prepara um discurso para a sua mãe, o faz na frente de tanta gente, e assim que o termina se sente mal. Seu colega de trabalho já dizia que "você era assustada”. No trabalho você, também, sente insegurança e medo. Será que tudo isso diz que você não confia em si própria? Não acredita na sua capacidade? Além disso, pode ser que você se cobre demais, até de maneira cruel, daí a sensação de sufocamento. Talvez, haja uma mistura de falta de autoestima com excesso de auto cobrança na maneira que vem vivendo todos esses anos, o que leva à uma sensação muito difícil de suportar.

Seu irmão diz que você deve procurar ajuda psicológica, já seu marido desautoriza esse pedido de ajuda, pois acredita que você tem que lidar com tudo isso sozinha já que ele não acredita em nada. Mas o que você quer? Você falou deles, da vontade e da crença deles, mas falta falar de você, do seu desejo e de ir atrás das suas necessidades. Ninguém vai viver a sua vida, pagar o preço dela, então só você mesma poderá decidir. A sua deficiência auditiva não é o problema, tanto que você mesma reconhece que leva uma vida normal quanto a isso, mas a falta de audição sobre si própria é que vem te prejudicando. Quando alguém não consegue ouvir a si próprio, fica mesmo atordoado.

Ao me escrever esse e-mail você está procurando algum tipo de ajuda. Você já sabe que não dá mais para continuar vivendo nessas condições e que se faz necessário transformar como você se vê e se coloca na sua vida. Que tal agora dar o próximo passo e de fato fazer uma análise? Aprender a se ouvir, aprender a dar um significado a tudo o que se passa internamente? Tudo o que você sente não é inexplicável, é apenas a falta de compreensão sobre si mesma. Com 60 anos há vida pela frente. Está na hora de descobrir sobre si. Descobrir-se sempre traz medo, mas alguns medos valem apena serem enfrentados.
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Sylvio do Amaral Schreiner
 
No blog Mundo Vivo o psicoterapeuta Sylvio do Amaral Schreiner convida o leitor a refletir sobre questões que afligem e maravilham as pessoas. Por meio de artigos pertinentes e atuais, podemos discutir sobre tudo e, com isso, enriquecer nossa sabedoria – lembrando que sabedoria e conhecimento são coisas diferentes. Conhecimento é TER, sabedoria é SER. Esperamos que este seja um espaço para a sabedoria vir a morar, se modificar e evoluir.



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