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Violência doméstica

Delegado Da Cunha ameaçou atirar na cara da ex-mulher, indica B.O.

Redação Bonde com Assessoria de Imprensa
20 ago 2021 às 17:30
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"Olha bem no meu olho. Se você pedir para eu falar baixo mais uma vez, eu vou atirar no meio da sua testa". Foram essas palavras que levaram a advogada Camila Rezende da Cunha, 44, a procurar a Polícia Civil de São Paulo para tentar pôr fim a um histórico de violência doméstica, conforme boletim registrado por ela em dezembro de 2016.

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Segundo o relato dela que consta do documento, a ameaça de seu então marido ocorreu em um restaurante e na frente da filha do casal, à época com 3 anos.

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Desconhecido naquele tempo, o então marido da advogada era Carlos Alberto da Cunha, 43, o Delegado Da Cunha, policial que ganhou fama nas redes sociais com a divulgação de vídeos de operações.


Atualmente afastado do cargo, ele diz estar sendo perseguido pela cúpula da instituição porque, entre outros motivos, defende uma polícia menos truculenta e por respeitar todas as pessoas.

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Também diz querer ser candidato ao cargo de governador de São Paulo.


Conforme o boletim registrado por Camila, aquela não tinha sido a primeira vez que era ameaçada por ele -por isso, solicitava medidas protetivas urgentes. Segundo o documento, ela temia por sua integridade física porque o marido havia feito novas ameaças durante a madrugada


"Por volta das cinco horas [da madrugada], o autor lá esteve [em frente à casa da mãe de Camila] e, aos gritos, pedia para que a ela saísse para conversar com ele. Telefonou inúmeras vezes para o celular da mulher, enviou inúmeras mensagens, inclusive áudios, ameaçando-a, dizendo que ela deveria sumir, porque ele iria matá-la", diz trecho do boletim de ameaça, injúria e perturbação ao sossego alheio.


Procurada pela reportagem, Camila negou na segunda-feira (16) que tenha sofrido violência física ou psicológica do hoje ex-marido. Diz ter tido brigas normais de casal e que se arrependia de ter registrado o boletim contra ele, de quem afirma continuar amiga.


O delegado Da Cunha, por sua vez, negou à reportagem que tenha praticado violência contra a ex-mulher. Disse que até as versões de testemunhas foram inventadas, por motivos desconhecidos. "Por isso atesto categoricamente em resposta às suas perguntas que tal alegação de violência doméstica é falsa", disse por email.


Em dezembro de 2016, porém, 12 dias após registrar o boletim, a advogada Camila foi ouvida pela Corregedoria da Polícia Civil e, na oportunidade, disse "ratificar [confirmar] integralmente os fatos narrados" no documento, como as ameaças e os xingamentos. Ela também afirmou que nunca foi agredida fisicamente por Da Cunha.


Relatos anteriores levados à Justiça, contudo, trazem dúvidas sobre esse ponto. De acordo com um processo judicial que tramitou em São Paulo, no dia 11 de setembro de 2014, moradores do bairro de Aparecida, em Santos, presenciaram Da Cunha atacando a advogada Camila no meio da rua e, na briga, disparar uma arma de fogo.


Uma das testemunhas, Bianca Laino, moradora do bairro, disse ter ouvido gritos pouco depois das 23h e resolveu olhar pela janela.


Conforme ela testemunhou, o homem estava atacando a mulher, no meio da rua, "com vários socos, sem a mulher reagir". Durante as agressões, ainda segundo a testemunha, o agressor xingava a mulher de vagabunda e puta. "Entra no carro que vou te matar", teria dito o policial, conforme descreveu a testemunha em depoimento.


Outra testemunha, Monise Inque, disse à Justiça ter presenciado as agressões físicas. Segundo seu relato, assustou-se com a cena e, quando se afastava do local, ouviu um disparo de arma de fogo. A estudante também descreveu que as agressões foram com socos.


Policiais militares foram acionados por moradores para atender a agressão contra a advogada (além do disparo) e chegaram a tempo de evitar que a mulher fosse colocada dentro do carro.


Segundo eles, Da Cunha havia colocado a arma ao chão (uma pistola 9 mm) ao avistá-los, dizendo-se delegado e que havia disparado acidentalmente. A mulher, ainda de acordo com os PMs, fugiu correndo tão logo foi solta pelo marido.


Da Cunha foi detido e encaminhado à corregedoria nesse dia. Teve a arma e o veículo apreendidos e respondeu a processo judicial pelo disparo de arma de fogo em via pública. O delegado alegou que o disparo foi acidental, quando bateu a arma sobre o teto do carro na discussão com Camila. O argumento prevaleceu na Justiça, e o delegado foi absolvido.


Nessa época, a advogada disse a policiais que já havia histórico de violência porque, por várias vezes, foi chamada pelo marido de "vagabunda, puta e biscate" e que o marido dizia, para ofendê-la, que ela havia dado "para todo mundo", conforme documentos obtidos pelo jornal Folha de S.Paulo.


As queixas de ameaça e injúria não prosperaram na Justiça porque a mulher não quis representar criminalmente o delegado. O Tribunal de Justiça de São Paulo disse não poder informar se foram concedidas medidas protetivas a Camila, por serem dados sigilosos.


A reportagem tentou contato com a promotora responsável pela denúncia por disparo de arma, Maria Pia Pradini, para entender por que as agressões citadas pelas testemunhas não foram incorporadas na denúncia, mas ela não quis atender.


Internamente, o delegado Da Cunha foi punido com advertência em setembro de 2014, mas a decisão da pena acabou prescrevendo. Não houve punição para o caso de dezembro 2016.


Procurada, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que os dois casos foram investigados, mas não detalhou os desfechos das apurações.


OUTRO LADO


Procurado pela reportagem, o delegado Carlos Alberto da Cunha negou que tenha praticado violência doméstica contra a ex-mulher. "Não existe nem existiu qualquer episódio instaurado contra minha pessoa por violência doméstica praticada contra minha ex-mulher, o que jamais aconteceu."


Sobre o relato das testemunhas, diz: "Assevero que não sei por que as pessoas mencionadas na matéria fizeram tais acusações, que não passam de invenções. Tanto que não foram levadas em consideração na decisão judicial".


Na resposta, o policial lembrou ainda que foi absolvido pelo disparo em via pública e apontou interesse do jornal Folha de S.Paulo em prejudicá-lo. "Em síntese, atesto que a matéria a ser veiculada é falsa, tendo como único escopo denegrir minha imagem com mentiras", afirmou.


Procurada pela reportagem, Camila defendeu o ex-marido. "Sou muito amiga do Carlos Alberto. Tivemos um relacionamento de marido e mulher durante 11 anos, tivemos briga de casal, sim, mas ele foi um bom marido, é um excelente pai. Isso [a violência] não é verdade, tanto que teve uma ação judicial que não deu em nada. Foi uma briga de casal normal."


A advogada repetiu várias vezes que não houve agressão e falou do disparo acidental em 2014. "Houve realmente um dia que houve um disparo acidental. Eu nem estava mais no local quando aconteceu esse disparo. A gente brigou, eu peguei um táxi... Isso foi parar na Justiça realmente e ficou comprovado que não houve nenhum tipo de dolo, nenhuma violência. Inclusive, no mesmo dia fui lá depor a favor dele."


Sobre as ofensas verbais, Camila minimizou os fatos. "A gente teve briga de casal, tanto que a gente não está mais junto. A gente tinha as nossas divergências de casal", disse ela, que afirmou ter se separado de Da Cunha em 2020 por motivos sem ligação com os casos narrados.


Em mensagem à reportagem, Camila explicou a ameaça de 2016 de um jeito diferente do que registrou em boletim e do que relatou à corregedoria 12 dias depois.


"A denúncia de 2016 adveio por conta de uma discussão que tivemos ao telefone, sendo que errei e me arrependo amargamente de ter feito ela, pois, como disse, não passou de uma discussão entre marido e mulher", escreveu por email.


Sobre as supostas agressões de 2014, disse que "os testemunhos não passam de delírios" de quem quer prejudicar o ex-marido dela.

"Vocês estão tentando denegrir a imagem de um homem íntegro, que é um ser humano excepcional, além de ser um pai exemplar", escreveu. "Repito, nunca fui agredida seja física seja verbalmente pelo meu ex-marido."


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