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Economia

Ao investir para filhos, gestores financeiros trocam poupanças por ações

Lucas Bombana/Folhapress
11 out 2021 às 09:45
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Muita gente deve se recordar de ter recebido quando criança dos pais ou dos avós algum valor depositado na caderneta de poupança, de modo a contribuir com o pagamento dos estudos ou de outros objetivos pessoais mais à frente.

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No entanto, quando os pais são gestores profissionais de recursos no mercado financeiro, o conservador investimento na poupança acaba dando espaço para portfólios de viés bem mais arrojado, formados por um grupo selecionado de ações na Bolsa de Valores.

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Antes de depositar as futuras economias dos herdeiros nas apostas de maior convicção no mercado, no entanto, a formação de algum tipo de reserva financeira de caráter mais conservador é sempre um ponto destacado pelos especialistas.


Gestor da Versa Fundos de Investimento, Luiz Fernando Alves diz que uma das primeiras providências que tomou após o nascimento da filha Liz, hoje com 2 anos e 10 meses, foi quitar o apartamento que estava financiado no banco em que mora com a família, na capital paulista.

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Tendo se assegurado que os seus terão um lugar onde viver, Alves afirma que a reserva financeira restante é toda destinada aos cinco fundos de investimento de alta volatilidade sob sua gestão na Versa.


"Ao mesmo tempo em que nos preocupamos em oferecer alguma solidez para nossa filha, por outro lado, pelo fato dela ser muito jovem e ter ainda a vida pela frente, com chances de acertar e errar, depois de ter alcançado o nível mínimo de segurança com o imóvel, o excedente deixo no risco", afirma o gestor, com cerca de R$ 600 milhões sob gestão na Versa.


Ele acrescenta que, se as economias guiadas pelas apostas do pai no mercado não correrem de acordo com as expectativas, a filha terá mais à frente as condições necessárias para correr com as próprias pernas em busca dos objetivos.


Até porque nem é mesmo uma preocupação deixar a ela uma grande quantia em dinheiro a partir dos rendimentos dos fundos, diz Alves. "A nossa ideia é dar para a Liz a vara, e não o peixe."


Pai da Laura, de 6 anos, Roberto Reis, sócio fundador e diretor de investimentos da gestora Meraki Capital, diz que não só ele como outros pais na empresa miram a estratégia de maior volatilidade da casa -por meio do fundo Meraki Long Biased- quando pensam no dinheiro que planejam destinar futuramente aos filhos.


Reis aponta igualmente o tempo que a filha ainda tem à frente como grande aliado para permitir que a carteira de ações selecionada mature de maneira adequada, em um horizonte de médio e longo prazo.


"É um dinheiro que vai estar investido por um bom tempo, até porque não tenho a intenção de entregar antes que ela complete 18 anos. Tendo um horizonte de mais de dez anos, e por meu DNA sempre ter sido de investir em ações, faço um pouco do mesmo que sempre fiz ao longo da carreira quando penso nos investimentos para minha filha", afirma o diretor da Meraki, gestora com cerca de R$ 2,4 bilhões sob gestão, que recebeu um aporte de capital no início de suas atividades de Lia Maria Aguiar, filha de Amador Aguiar, fundador do Bradesco.


"Sempre tive um apetite a risco mais alto e minha forma de investir não mudou depois que a Laura nasceu, mas o meu ímpeto de consumo sim, que hoje é mais ponderado", diz Reis, que enfatiza a importância de ter claro qual o horizonte disponível para um planejamento financeiro familiar bem-sucedido.


Ele afirma ainda que, independentemente da economia que deixará com base nos resultados dos investimentos na Bolsa, considera importante iniciar desde cedo dentro de casa uma cultura de educação financeira, para que a filha cresça com uma boa noção sobre quais as melhores formas de fazer uso do dinheiro que tiver disponível.


Na mesma linha, Sara Delfim, sócia cofundadora da gestora Dahlia Capital e mãe dos gêmeos Catarina e Bruno, de 8 anos, diz que a preocupação com os filhos passa tanto pelo legado financeiro, por meio da formação de uma poupança, efetivamente, como pelo trabalho de conscientização a respeito do valor que a conquista do dinheiro traz no tempo.


"Vejo que essa sensibilidade e entendimento sobre o dinheiro e sobre o poder e não poder fazer as coisas, as crianças percebem bem mais cedo do que anos atrás, até pelo nível de informações a que elas têm acesso", afirma a gestora.


A sócia da Dahlia, empresa com cerca de R$ 12 bilhões em ativos sob gestão, conta que já têm alguns meses que seus filhos vêm pedindo a ela e ao marido que comprem um cachorro para a família.


O acordo que ficou acertado entre eles -de forma até a postergar um pouco a chegada do bicho de estimação, brinca a gestora- é que as crianças irão economizar parte do dinheiro que recebem de mesada para ajudarem financeiramente na missão de trazer o cachorro para dentro de casa.


"Com isso, eles passaram a ter um objetivo definido e se mostram mais conscientes em como cuidar do dinheiro da mesada", diz a cofundadora da gestora, que confessa que a filha demonstra um zelo maior com as economias em comparação com o menino.


Sara afirma também que, por conta do esquema de trabalho em casa nos últimos tempos, os filhos acabaram tendo uma interação maior com o seu dia a dia na empresa de investimentos. E até já pedem a ela que leve suas economias para os fundos da gestora para que o cachorro chegue mais rápido.


"O que sempre digo para eles é que o investimento que fazemos não é uma corrida de 100 metros, mas uma maratona, em que vamos ganhar em alguns dias, mas podemos perder em outros", diz a gestora, que afirma ter parte dos recursos destinada aos filhos no fundo de previdência da casa Dahlia Global 50 Prev.


Além de contar com o benefício da regressão da alíquota tributária no longo prazo, ela assinala que não há cobrança de come-cotas sobre o fundo de previdência, que tampouco entra em inventário -o valor é transmitido aos herdeiros sem maiores burocracias em momentos delicados como de perda de um ente querido. "É uma maneira de deixar uma liquidez imediata na sua falta", afirma.


Enquanto coordena as expectativas dentro de casa sobre a chegada de um novo hóspede de quatro patas, Sara afirma que as ações da rede Petz estão entre as preferidas da Dahlia na Bolsa.


No radar da gestora, diz a especialista, estão aquelas empresas com resiliência para conseguir se destacar em meio aos pares, a despeito do ciclo econômico.


Independentemente do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), os donos seguirão cuidando de seus bichinhos, com gastos diversos relacionados à alimentação e medicamentos, entre outros mimos, nota a gestora.


"Os mais jovens têm uma cabeça diferente hoje em dia, muitos preferem ter um pet do que um filho", afirma Sara, que cita ainda Natura e Weg entre os nomes de maior convicção dentro da carteira de ações dos fundos.


Reis, da Meraki, diz que, embora o cenário local e internacional esteja mais incerto em comparação com algumas semanas atrás, passou a olhar com mais carinho para as ações na Bolsa nas últimas semanas após as quedas recentes.


"Os preços já precificam um cenário muito ruim e avalio que estão em níveis bastante atraentes, em um bom ponto de entrada", afirma o diretor de investimentos.


Ele aponta as ações da incorporadora Multiplan, da empresa de combustíveis BR Distribuidora e da Magazine Luiza entre as principais apostas nos fundos da gestora.


Alves, da Versa, diz que também está mais debruçado neste momento sobre as teses na Bolsa que mais se beneficiam do tema de reabertura da economia local, que ele considera em níveis excessivamente descontados.


"Por mais que reconheça que a situação econômica é pior do que se previa inicialmente, principalmente com uma inflação mais alta e persistente, os preços já sofreram sobremaneira e o prêmio de risco está muito alto", afirma o gestor.


Ele aponta ações de empresas relacionadas aos setores imobiliário e de consumo, como Grupo Soma, Guararapes, Vivara e BR Properties, bem como da Petrobras, entre as principais apostas nos fundos da Versa.


De todo modo, frente ao aumento nos riscos percebidos nos últimos dois meses, o gestor conta que tem mantido uma alocação próxima de 25% em caixa, em recursos de baixo risco e alta liquidez, para funcionar como um tipo proteção nos momentos de maior estresse nos mercados. "Se o navio virar, é uma posição que funciona como uma boia", diz Alves.

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