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Brasil precisa de políticas estruturantes, diz economista

05 jun 2009 às 09:34

O Brasil não tem políticas estruturantes para enfrentar a crise, ao contrário do resto do mundo, disse o professor de Economia Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-doutor em Economia pela University of Reading (Inglaterra), Reinaldo Gonçalves. Ele participou nesta sexta-feira (5), do seminário "Crise – Desafios e Estratégias", promovido pelo Governo do Paraná, em Curitiba.

Para Gonçalves, o governo federal tem adotado o que ele chama de "linha de menor resistência", com políticas de afrouxamento de liquidez e políticas fiscais expansionistas. "Isso é o mais simples e o que todo o mundo está fazendo. O problema é que o governo federal faz em doses modestas, insuficientes. E as medidas (de apoio) são dirigidas aos setores dominantes: o agronegócio, as empreiteiras e os bancos. Nada tem sido feito para a garantia de emprego e renda do trabalhador", criticou.


Segundo Gonçalves, o Brasil possui uma economia desregulamentada, marcada pelos processos de privatização e pela flexibilização do mercado, que caracterizam o que ele chama de "modelo neoliberal periférico, de terceira categoria", deixando o País cada vez mais vulnerável. "Essa liberalização na esfera comercial, produtiva, tecnológica, monetária e financeira vem desde os anos 1990, agravada no governo de Fernando Henrique e aprofundada pelo governo Lula", afirmou. "Não há nada para parar a liberalização, a desregulamentação e a privatização. Há ausência de diretrizes e estratégias do país. Não se pensa o país para frente", disse.


Gonçalves acredita que o Projeto de Aceleração do Crescimento (PAC) tem reflexos insignificantes no enfrentamento da crise e não irá impedir a desaceleração do crescimento. "Os investimentos do PAC equivalem a 1,1% do PIB brasileiro, e foram projetados sob um crescimento nacional esperado em 5,5%. Teremos, no período do PAC, 2,9% de crescimento. Ao invés de termos aceleração, teremos uma desaceleração de crescimento", disse.


Em relação ao BNDES, o economista afirmou que os grandes projetos estão focados em commodities, reforçando a vulnerabilidade externa brasileira, o modelo periférico e a reprimarização das exportações.


PROJEÇÃO – Gonçalves acredita que "o Brasil tem desempenho medíocre desde os anos 1980". O economista lembrou que, no primeiro mandato de Lula, a taxa de crescimento médio anual ficou em 3,9% - nos países em desenvolvimento foi de 6,6%. No segundo mandato, a taxa de crescimento médio anual do PIB será de 2,9%, "abaixo da média de crescimento da economia brasileira desde 1989, que é de 4,4%".


Ainda de acordo com dados apresentados pelo economista, o FMI prevê crescimento do negativo para o Brasil em 2009 - 1,3% negativo, sendo que os países em desenvolvimento devem crescer 1,6%. Em 2010, a previsão é que o Brasil cresça 2% e os países emergentes, 4%. "Ficaremos piores do que eles. Esta é uma previsão otimista e, mesmo assim, os resultados são medíocres", disse.


Diante deste cenário, Gonlçalves apontou algumas das ideias defendidas quando a crise começou e que caíram por terra. "Se falava que o Brasil dependia menos dos EUA e, portanto, quando a locomotiva descarrilasse, estaríamos protegidos. O argumento é que nossas exportações para os EUA representavam 22% da receita de exportação, e agora são 15%. Erro absoluto, porque ficamos menos dependentes deles, mas mais da China", disse.


Para Gonçalves, depender da China é pior que depender dos EUA, pois os asiáticos compram basicamente commodities brasileiras, enquanto os norte-americanos importam manufaturados e semi-manufaturados, intensivos em mão de obra e capital.

Reinaldo Gonçalves participou da mesa "Impactos da Crise no Brasil", no seminário "Crise – Desafios e Estratégias", promovido pelo Governo do Paraná, no Canal da Música, em Curitiba. Gonçalves é professor titular de Economia Internacional do Instituto de Economia da UFRJ desde 1993. É livre docente em Economia Internacional também pela UFRJ (1991), tem mestrado em Economia pela Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV, 1976), e em Engenharia da Produção pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação (1974), da UFRJ, além de ser bacharel em Economia pela UFRJ (1973). (com Agência Estadual de Notícias)


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