A crise internacional atingiu em cheio o mercado de carnes no País, e levou a uma queda generalizada de preços no mercado doméstico, sobretudo em janeiro e fevereiro. Levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostra que a alta acumulada em 12 meses dos preços dos bovinos no atacado até março, que ficou em 12,13%, é a mais baixa desde novembro de 2007, quando subiu 8,63%. Esse cenário também se reflete no varejo, onde a inflação acumulada em 12 meses da carne bovina é de 19,05%, a menor desde dezembro de 2007, quando a taxa acumulava 16,18% no período.
Para especialistas, essa variação de preços foi puxada para baixo principalmente durante janeiro e fevereiro, meses em que os preços das carnes deveriam estar subindo por conta do período de entressafra. Mas mostraram deflação, nesses dois meses, em praticamente todos os principais índices inflacionários do mercado.
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Além da FGV, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) já havia detectado o fenômeno, no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de fevereiro, que mostrou o preço das carnes (bovina e suína) em queda de 2,14% - a mais forte deflação mensal em mais de dois anos.
Nas últimas divulgações dos Índices Gerais de Preços (IGPs), o coordenador de Análises Econômicas da FGV, Salomão Quadros, já tinha alertado para o cenário atípico nos preços das carnes. Para ele, o setor é um dos exemplos mais visíveis da influência negativa do recuo na demanda internacional, que levou a uma redução nas exportações de carne. Assim, os produtos acabaram sendo deslocados para o mercado doméstico, provocando uma relação de oferta maior do que demanda, derrubando preços.
A analista do banco Brascan Denise Messer concordou que o deslocamento das exportações para o mercado interno afetou de forma expressiva o setor, e também ajudou a reduzir muito o preço do boi gordo. Entretanto, comentou que esse ambiente não deve se sustentar por muito tempo. Na análise da técnica, alguns sinais positivos de recuperação na demanda internacional já começam a surgir, o que pode levar a um cenário mais favorável nas exportações de carne, a partir do segundo semestre deste ano.
Mas o atual quadro pode ter sido suficientemente negativo para afetar o desempenho das exportações de carne bovina esse ano. O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), Roberto Giannetti da Fonseca, admite que o setor pode registrar uma queda em torno de 20% nas exportações em 2009, em quantidade e em preço - sendo que, no ano passado, a receita das vendas externas foi de US$ 5,3 bilhões, com volume de 2,2 milhões de toneladas.
Entretanto, ele fez questão de ressaltar que esse problema é de caráter ''conjuntural'', e não reflete a realidade do setor no Brasil, que é muito competitivo no cenário internacional, em custo de produção e qualidade.
Na avaliação de Giannetti da Fonseca, o setor de carnes é muito mais visível do que outros segmentos da economia. Por isso, os problemas enfrentados por esta indústria estariam alcançando maior repercussão. Na prática, segundo ele, o setor tem todo o potencial para se tornar o maior fornecedor de proteína animal do mercado mundial, e possui condições para uma recuperação sustentável após o termino da atual crise internacional.
Devido à disseminação dos fatores negativos da crise em toda a cadeia do mercado de carnes, o analista da corretora Planner Peter Ping Ho também aposta em uma recuperação bem gradativa para o setor, em termos de preços, produção e abate no mercado de carnes. Ele lembra que nunca houve uma crise internacional nesses moldes antes, e as consequências completas de seu impacto ainda não podem ser completamente mensuradas, visto que o ambiente de turbulência atingiu praticamente toda a indústria de fornecimento de proteínas.