O avanço tecnológico e as novas mídias vêm colocando em xeque os modelos tradicionais de ensino e transformando a maneira de transmitir conhecimento. Além do papel tradicional de dar acesso ao conteúdo, a educação precisa, mais do que nunca, dar sentido à profusão de informações em que a sociedade está inserida, para que os alunos compreendam e interfiram na própria realidade. Esse é o papel do educomunicador, um profissional que atua na interface da comunicação na educação e vem ganhando espaço na formação de cidadãos críticos.
A escola, o livro e o professor já não são as únicas referências de compartilhamento de saber. Segundo o educomunicador e diretor da Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação (ABPEducom), Bruno Ferreira, o adolescente e o jovem que está inserido no universo da tecnologia já não aceita apenas ser receptor da informação.
"Eles estão conectados às redes sociais, postam fotos, vídeos, têm necessidade de produzir. Nós utilizamos essa realidade para fomentar processos de transformação social nesses jovens", explica.
Os jovens estão se conectando ao universo midiático cada vez mais cedo e nele são "alvejados" por uma avalanche de informações. Mas nem sempre estão preparados para lidar com todo esse conteúdo.
"A educação vive hoje um grande desafio porque os alunos chegam à escola muito diferentes do que chegavam antes. Eles têm muita informação, mas ao mesmo tempo parecem muito perdidos. O educomunicador é o mediador na interpretação desse conteúdo que eles recebem o tempo todo", explica a pesquisadora e educomunicadora Mariana Ferreira Lopes.
Mais do que inserir técnicas e ferramentas de comunicação nos processos de aprendizagem, o papel do educomunicador é incentivar reflexões e mudanças, tanto na recepção das mensagens dos meios de comunicação de massa quanto na produção de conteúdo.
"Não é só usar um data-show ou um filme em sala de aula. Hoje a gente vive dentro de uma cultura muito mais participativa, em que a possibilidade de participação na produção de conteúdo é muito maior", pondera Mariana. "Não é difícil eu chegar na sala de aula hoje e encontrar estudantes que são youtubers ou blogueiros, que já produzem comunicação. O papel do educomunicador é contribuir para que essa produção seja feita de uma maneira crítica e criativa", acrescenta ela, que é docente da Unopar.
Formação
Para isso, apesar dos atuais educomunicadores serem, na maioria, jornalistas, comunicólogos ou educadores, não é necessário uma formação específica. No Brasil, existem apenas dois cursos de graduação em educomunicação: um de licenciatura na Universidade de São Paulo (USP) e um bacharelado na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
"Acredito que, para trabalhar com educomunicação, é importante ter conhecimentos das áreas da comunicação, educação e direitos humanos", opina o jornalista e educomunicador Diego Henrique da Silva. Assim, segundo ele, até um adolescente pode ser educomunicador. "Se o garoto está usando um blog ou canal de Youtube para um propósito educativo ou de compartilhamento de conhecimento, e ainda promove e discute a importância da garantia de direitos humanos, ele está educomunicando", exemplifica.
Segundo Silva, o educomunicador pode atuar em diferentes espaços: projetos sociais de organizações da sociedade civil, escolas, espaços de educação formal, informal e não formal, pesquisas acadêmicas, formação de educadores, veículos de comunicação popular e alternativa, entre outros.
Espaço Limitado
Diferente de outros países, que já incluíram educomunicadores no ensino regular, no Brasil esses profissionais ainda estão muito atrelados a projetos de extensão universitária, movimentos sociais e ONGs. São Paulo é o único município a ter já consolidada uma iniciativa de educomunicação na rede municipal.
Criado em 2005, o projeto Imprensa Jovem, em que cerca de 2,5 mil estudantes produzem conteúdo jornalístico multimídia para agências de notícias em funcionamento nas escolas de ensino infantil e fundamental da cidade.
Os alunos participam da cobertura de grandes eventos, como a Bienal do Livro e a Campus Party e divulgam tudo por meio de blogs, rádios virtuais, canais no Youtube e páginas do Facebook.
Muitas cidades já fizeram um primeiro movimento para repetir a experiência paulistana. "Em Maringá, foi aprovada uma lei para incluir projetos de mídia-educação, mas não foi regulamentada. Sarandi também, Cambé já chegou perto de desenvolver um projeto parecido", conta a pesquisadora e educomunicadora Luzia Yamashita Deliberador.
Há cerca de 15 anos trabalhando com o assunto em diferentes universidades, Luzia espera poder levar os projetos que desenvolve em espaços não-formais de ensino para a educação regular. "O ideal seria termos políticas públicas, para que os municípios adotassem e levassem isso para as escolas."
Os projetos, segundo ela, são desenvolvidos através de oficinas, que abordam diferentes questões, buscando uma formação mais crítica e cidadã. "Nós fazemos a oficinas pensando nos problemas específicos daquela comunidade, daquela escola: falamos de identidade, de cidadania, de problemas sociais. A partir daí, surgem discussões excelentes sobre a realidade deles. Depois, eles escolhem um veículo e através dele vão produzir conteúdos sobre o que foi discutido", conta.