Um toque durante o banho mudou a vida da cirurgiã vascular Alanna Silva Huk, de 36 anos. Em agosto de 2025, ao apalpar um pequeno nódulo na mama, ela decidiu procurar atendimento médico para investigar a alteração. Mesmo conhecendo os procedimentos e os caminhos do diagnóstico por causa da profissão, a médica enfrentou o medo ao receber a confirmação do câncer de mama.
Agora, como porta-voz da AML (Associação Médica de Londrina) na campanha do Outubro Rosa 2026, ela compartilha a experiência para levar esperança a outras mulheres. “O diagnóstico não é sentença de morte. Existe vida durante o câncer”, afirma.
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A médica passou por ultrassonografia, mamografia, ressonância magnética e biópsia. Após uma segunda biópsia para definir a conduta, recebeu a indicação de cirurgia e quimioterapia. “Eu sabia tudo que estava acontecendo, conhecia os exames, os passos e, mesmo assim, tive medo”, relata.
A quimioterapia começou em outubro. Foram 16 sessões ao longo de cinco meses, com aplicações semanais e uma rotina rigorosa de exames complementares. Ao final, ela passou por uma cirurgia realizada simultaneamente à reconstrução mamária.
Vida durante o tratamento
Durante os meses de quimioterapia, Huk procurou manter o trabalho, a prática de atividade física e os cuidados com os filhos Livia, de 7 anos, e João Romeu, de 3, nos dias em que se sentia bem. Nos períodos mais difíceis, respeitava os limites do corpo e contava com a ajuda da família.
“Saía com as crianças, trabalhava, me alimentava bem. Nos dias ruins, deitava, comia melhor e deixava minha mãe cuidar de mim”, recorda.
A rotina da médica encontra respaldo em evidências científicas. A prática regular de atividade física durante a quimioterapia está associada à melhora da tolerância ao tratamento e dos efeitos colaterais. A alimentação adequada e o descanso também são importantes para o cuidado durante esse período.
A médica reconhece que teve uma rede de apoio estruturada, com familiares presentes e condições para manter parte da rotina. Por saber que nem todas as mulheres contam com o mesmo suporte, ela destaca a importância da participação de familiares e amigos durante o tratamento.
“É importante pedir e aceitar ajuda, os familiares precisam estar atentos a isso e ser uma rede de apoio verdadeira. Levar uma refeição pronta, umas frutas, fazer um serviço doméstico ou cuidar das crianças são cuidados simples e que fazem muita diferença”, aconselha.
O acolhimento também veio de pessoas que ela não conhecia. Ao compartilhar sua experiência nas redes sociais, recebeu mensagens de mulheres que enfrentavam situações semelhantes. A troca de relatos ajudou a tornar o processo menos solitário. “Falar sobre o assunto ajudou bastante, pois permitiu a troca de experiências”, afirma.
Autoestima como parte do cuidado
As mudanças na aparência estiveram entre os momentos mais delicados do tratamento. A queda dos cabelos e a perda dos cílios afetaram Huk, que sempre usou os fios longos e sabia o quanto a filha gostava do “cabelão” da mãe.
Antes de começar a perder os cabelos, ela decidiu cortá-los bem curtos para se adaptar gradualmente à mudança. Mesmo incomodada com a ausência dos cílios, procurou maneiras de recuperar a autoestima.
“Fiz curso de automaquiagem e tentava me arrumar nos dias bons. Prefiro sempre ver o copo mais cheio, hoje penso que tive uma oportunidade de me ver com um cabelo curtinho”, conta.
Para a médica, o receio das mudanças físicas não deve se tornar um obstáculo ao tratamento. “O que mais importa é estar curada e estar viva”, ressalta.
Já na fase final do tratamento, a médica reforça que o diagnóstico não significa o fim das possibilidades. Ela destaca os avanços da medicina e a importância de manter a esperança diante da doença.
“A nossa geração é a que mais vai sobreviver à doença. Há uma infinidade de tratamentos, com altas taxas de cura”, afirma.
O cuidado com a saúde mental também foi importante ao longo do processo. No caso da médica, a religião ajudou a encontrar forças para enfrentar cada etapa. Ela reconhece que existem momentos difíceis, mas defende a valorização da vida durante o tratamento.
“A cabeça tem que estar boa para sustentar o diagnóstico. É claro que há momentos difíceis, mas a vida é única e temos que escolher viver.”
Diagnóstico precoce
O câncer de mama é o tipo mais incidente entre as mulheres no mundo e ocupa a segunda posição entre todos os tipos de câncer, representando 11,6% dos casos globais. Em 2022, foram estimados cerca de 2,3 milhões de novos casos, o equivalente a 23,8% de todos os cânceres diagnosticados em mulheres, excluídos os tumores de pele não melanoma.
No Brasil, a estimativa do Inca (Instituto Nacional de Câncer) para o triênio 2026-2028 é de 78.610 novos casos por ano, com risco estimado de 71,57 casos para cada 100 mil mulheres. A incidência é maior entre mulheres acima dos 50 anos e varia entre as regiões do país, com a maior taxa no Sudeste e a menor no Norte.
A detecção precoce é determinante para o prognóstico. Segundo a mastologista Isabela Garcia Spironeli, também associada da AML, a Sociedade Brasileira de Mastologia orienta a realização anual da mamografia a partir dos 40 anos. Para mulheres com alto risco, o rastreamento deve ser individualizado, considerando o histórico familiar e outros fatores de risco.
A especialista também alerta para a desinformação sobre o exame e reforça que a mamografia é segura e continua sendo o método mais eficaz para o rastreamento do câncer de mama.
Entre os fatores que podem ser modificados estão a obesidade, o sedentarismo e o consumo de álcool. Já as mutações genéticas BRCA1 e BRCA2 estão associadas a cerca de 5% a 10% dos casos da doença.
Embora seja mais frequente entre mulheres, o câncer de mama também pode atingir homens, que representam aproximadamente 1% dos casos. O diagnóstico costuma ocorrer por volta da sexta década de vida e, muitas vezes, em estágios avançados, devido à falta de informação sobre a possibilidade de desenvolvimento da doença no público masculino.
Na mastologia brasileira, a discussão sobre o rastreamento também envolve a ampliação da cobertura do exame sem um limite etário rígido, diante do número de mortes entre mulheres idosas. Segundo levantamento do DATASUS, entre 2015 e 2024 foram registrados 162.471 casos de câncer de mama em mulheres idosas no Brasil, dos quais 93.852 resultaram em morte.
Independentemente da idade, sinais como nódulo persistente, secreção sanguinolenta pelo mamilo, retração da pele ou do mamilo e alterações no formato da mama exigem investigação diagnóstica imediata.