Há 43 anos não seria possível um encontro como esse. Seria necessário, ao menos, seis horas de viagem. Porém, nesta tarde de setembro de 2025, um simples link atravessou quilômetros de estrada, encurtando a distância entre Curitiba e Londrina. De repente, as duas cidades cabem na mesma tela, no mesmo coração, no mesmo momento. De um lado, a jornalista com mais de quatro décadas levando informação a milhões de brasileiros. Do outro, na sala de podcast da Folha de Londrina, corpos se ajeitam, braços se acotovelam discretamente para conseguir um lugar de onde se possa ver bem aquele rosto tão conhecido, tão querido, tão nosso: Dulcinéia Novaes Felizardo Vieira.
Dulcinéia Novaes, recém agraciada com a maior comenda de honra da cidade de Curitiba, é o tipo de mulher que parece carregar o tempo com delicadeza. Aos 70 anos, fala de sua trajetória com a serenidade de quem aprendeu a viver cada etapa sem pressa e sem medo. Não há em sua voz peso algum, mas a certeza de quem sempre soube que o trabalho seria a chave de todas as portas.
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Desde cedo, a vida exigiu dela coragem. Órfã de pai aos cinco anos, viu sua mãe, ainda jovem, trabalhar como empregada doméstica para garantir o pão da família. Dessa mãe herdou a força e os valores que moldaram sua bússola moral: respeito, ética, honestidade e, acima de tudo, a importância de tratar bem as pessoas — independentemente da classe social — como um dever humano. “Ela nos incutiu isso desde a infância”, recorda emocionada.
O início da carreira
A infância a levou de Martinópolis (SP) a Assis (SP) e, depois, a Londrina, onde cresceu, estudou em escola pública e aprendeu que a persistência podia abrir horizontes. “Estudei no Benjamin Constant e depois no Vicente Rijo. Passei no vestibular da UEL sem cursinho — até porque eu não teria dinheiro pra isso.”
Entre muitas risadas e com a internet oscilando, Dulcinéia comenta: “É difícil jornalista que seja bom com números, viu? Quando tirei nota máxima em matemática foi como ganhar um prêmio, um troféu.”

Já com a escrita, era diferente. Ela guardava contos, poesias e crônicas em uma pasta, que um dia levou à Folha de Londrina na esperança de conseguir um emprego — e conseguiu. “Foi lá que considero minha primeira experiência jornalística. Entrei na editoria Geral e depois na Cultura. Participei da página Qual é a deles?, voltada ao público jovem, cobri o Projeto Pixinguinha, shows, exposições e até o primeiro Rock in Rio, em 1985. Foram sete anos de Folha de Londrina, até que precisei escolher: ficar no jornal ou na TV.”
Enquanto ajeita os óculos no rosto, Dulcinéia relembra sua primeira reportagem para a TV Coroados, em um desfile cívico na cidade de Cambé. “Eu estava tão nervosa, a mão tremia porque eu precisava aproveitar o momento em que a banda iria passar ao mesmo tempo em que eu daria a notícia ao vivo. Um primeiro obstáculo para uma jovem na profissão.”
Pelo mundo
E seguiu longe. A televisão a levou a lugares como Noruega, Romênia, República Dominicana, Ilhas Canárias e tantos outros cenários deslumbrantes. Subiu milhares de degraus sem preparo físico suficiente, mergulhou com cilindro mesmo sem saber nadar, atravessou dunas em Moçambique e, sob o sol escaldante de Madagascar, ofereceu água a uma gestante debilitada — cena que não sai de sua memória.
Entre aventuras e perrengues, nunca faltou coragem. “Eu só vou”, ela diz. E continua com gargalhadas ao lembrar dos saltos em águas profundas, das tirolesas, da disposição de enfrentar o novo. “Não é sobre adrenalina, mas sobre instinto e disposição de vencer desafios. Se não der certo, não vai ao ar. Mas eu tento. Eu nasci para isso, para ser jornalista.”

O choro também vem fácil, admite. Não conseguiu completar sua fala ao recordar o caso do menino Evandro, de 6 anos, em Guaratuba, quando a voz embargou e o choro invadiu a passagem da matéria — take que acabou não indo ao ar.
E quando fala sobre o espaço das mulheres, sua voz ganha firmeza: “Já atingimos um patamar de protagonismo muito bom, mas ainda pode melhorar. Alguns temas ainda são tratados como tabus quando vêm de uma mulher. Mas não tem como voltar atrás: escancaramos nosso espaço. Hoje ocupamos bancadas, coordenações e cargos de poder dentro das redações. Isso já mudou bastante, e não tem como segurar.”
Enquanto escrevo e anoto tudo, menciono sua idade. Dulcinéia sorri como quem recusa rótulos, enfatizando: “Essa idade não me pertence. Não me pesou quando fiz 40, nem quando fiz 60, e não me pesa agora. Não uso nem a credencial de estacionamento a que tenho direito, deixo pra quem realmente precisa. Que Deus me ajude a chegar aos 80 com a mesma disposição e energia da minha mãe, que tem 92.”

Quando menciono a palavra “aposentadoria”, novas gargalhadas. Rápida e espontaneamente, ela diz: “Você acha que eu tenho cara de quem quer se aposentar, Lu? Fazer nada é ruim. O bom de não fazer nada é quando você está de férias. Enquanto Deus me der vida, saúde e emprego, vou tocando.”
Casada há 40 anos com um marido "parceirão" — como ela define —, adora ser mãe, além de conviver com a família, os amigos e manter a rotina simples de sair para tomar uma cervejinha às sextas-feiras.
Quando perguntada sobre o que diria àquela jovem estudante que tremia diante da matemática e do primeiro microfone, responde sem hesitar: “Eu diria: continue, Dulcinéia. Insista. Seja persistente. A vida é feita disso.”
Enquanto Dulcinéia Novaes responde a essa pergunta, passeio meus olhos pela tela do computador e me deparo com a expressão da jovem jornalista que trabalha na FOLHA, Ana Luíza Barreto, de 23 anos, que organiza os detalhes da entrevista comigo e Dulcinéia. Percebo que Ana Luísa acompanha a conversa como quem assiste a um espetáculo da vida real. O brilho em seus olhos entrega algo maior: não é apenas uma jornalista diante de outra, é uma aprendiz diante de sua mestra, uma admiradora diante da fonte que sempre a inspirou. Só aí já é inspiração…
Dulcinéia Novaes é a síntese do Folha Dellas: resiliência que floresce, ética que sustenta, competência que ilumina. Sua coragem é como rio que nunca cessa, avançando sempre. O jornalismo foi seu destino há 43 anos, mas mais do que isso: foi seu modo de dizer ao mundo que o espaço das mulheres é aquele que elas mesmas escolhem. Dulcinéia Novaes é, em si, poesia viva e luz para o caminho de todas nós.