A exploração sexual infantil é um assunto que quando ganha destaque na mídia choca a população. O grande problema é que a maioria dos casos não chega ao conhecimento público e, o que é pior, nem mesmo é denunciado aos órgãos que cuidam da defesa das crianças e dos adolescentes.
Em Londrina, infelizmente, a situação não é diferente da registrada em nível nacional. "Falta na comunidade a consciência de que a exploração sexual é um crime grave e que precisa ser relatado e combatido", afirmou Télcia Lamônica de Azevedo Oliveira, coordenadora do programa Sentinela. O programa é desenvolvido pela prefeitura e tem participação das secretarias de Assistência Social, Saúde, entre outras, em convênio com o Núcleo Social Evangélico de Londrina (Nuselon). O programa atende crianças e adolescentes vítimas de violência sexual na cidade.
Criado no início de 2001, o programa já atendeu mais de 800 casos, a maioria de abuso sexual.
Para a coordenadora a exploração sexual infantil é uma situação de difícil combate, especialmente, porque as causas que levam as crianças e jovens à prostituição são muito variadas. "Há casos em que as crianças vivem nas ruas e acabam sendo obrigadas a isso. Em muitas situações estão envolvidas com drogas o que, aliás, é uma questão que anda muito ligada à exploração sexual".
Outro problema são as casas e estabelecimentos comerciais que acabam promovendo e incentivando este tipo de crime, com a cumplicidade de freqüentadores. "Sabemos que existe gente séria cuidando de boates e casas de shows, mas há outras que contratam mesmo sabendo que são menores de idade", comentou.
Nestes casos, conforme ela, é muito importante a participação da sociedade. "Às vezes, a pessoa está em um lugar e percebe que há crianças e jovens sendo explorados. Quando isso acontece, elas podem ligar para a gente, sem precisar de identificar e relatar o local e o que presenciaram", aconselhou.
Em Londrina, as denúncias podem ser feitas por meio de três telefones: 3336-2003 (no horário comercial); 9991-6752; que funciona 24 horas ou pelo disque-denúncia nacional, pelo número 100. Em nenhum dos casos é preciso que a pessoa se identifique.
Quando se trata de estabelecimentos comerciais ou mesmo residências onde há aliciamento de menores, o trabalho de investigação é coordenado pelo serviço de inteligência da polícia, acompanhado por representantes dos programas Sentinela e Sinal Verde, do Conselho Tutelar e da Promotoria da Vara da Infância e Juventude.
Após a abordagem, é feito o atendimento pelo Sentinela, que realiza uma triagem dos casos e busca avaliar as causas da situação de exploração. Dependendo do caso, as crianças são encaminhadas de volta à família ou ao responsável legal, que, a partir daí, passam a receber acompanhamento por parte da equipe do programa. O processo envolve atendimento psicológico, social, encaminhamento à escola e a cursos profissionalizantes.
Esse tipo de procedimento é importante porque, conforme a coordenadora do Sentinela, na maioria das vezes a exploração sexual tem raízes dentro do ambiente familiar. "Algumas vezes, a própria família incentiva e cobra o dinheiro que a criança recebe. Se formos pesquisar o passado dessas vítimas vamos encontrar situações de desestruturação e muita vulnerabilidade familiar, problemas financeiros e casos de abuso sexual na infância."
Por isso, para ela a melhor forma de prevenção é trabalhar a família. "Nós que lidamos com essas situações vemos como as famílias precisam ser cuidadas. E isso o município tem priorizado nas suas ações, especialmente com o trabalho da Assistência Social", salientou.
Ainda assim, o poder público necessita da participação da população para combater a exploração sexual infanto-juvenil. E o primeiro desafio, de acordo com Télcia Oliveira, é mudar a forma de entender a situação. "A comunidade precisa parar de pensar que essas crianças estão lá porque querem ou porque não querem trabalhar. É preciso entender que a exploração é uma situação muito séria e que há muitos motivos graves que levam a isso. Apenas os órgãos competentes não conseguem acabar com o problema", afirmou.