Curitiba - Imagens feitas por câmeras de segurança de um supermercado de Blumenau (SC) mostram o juiz federal Eduardo Appio, da 18ª Vara de Curitiba, supostamente furtando três garrafas de espumante. O vídeo ganhou grande circulação nesta semana nas redes sociais, mas foi divulgado em outubro, o que levou o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) a afastar Appio. O juiz disse ser vítima de fake news e afirmou que vai processar o senador Sergio Moro (União-PR) por difamação.
Em fevereiro de 2023, Appio foi nomeado titular da 13ª Vara Federal de Curitiba, onde tramitaram todos os processos da operação Lava Jato quando Moro era juiz. Appio assumiu a vaga deixada pelo primeiro substituto de Moro na 13ª Vara, Antônio Bonat, que foi promovido a desembargador do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF).
Crítico da Lava Jato e com perfil “garantista”, Appio tomou uma série de medidas na 13ª Vara que incomodaram os integrantes da operação. Uma delas foi a revogação do mandado de prisão do advogado Rodrigo Tacla Duran, que vive na Espanha. Tacla Duran trabalhava para a Odebrecht e foi acusado pela Lava Jato de atuar como operador financeiro da empreiteira.
O advogado é autor de uma denúncia contra Sergio Moro e integrantes da força tarefa da operação Lava Jato em Curitiba, entre eles o ex-procurador da República Deltan Dallagnol. Tacla Duran diz que integrantes da Lava Jato cobraram R$ 5 milhões para ele não ser preso. Depois de supostamente pagar uma parcela de US$ 612 mil a um advogado de Curitiba, ele passou a viver na Espanha e teve a ordem de prisão expedida por Sergio Moro.
Appio foi afastado da 13ª Vara Federal de Curitiba pelo TRF4 em maio de 2023, cerca de quatro meses após assumir. A representação contra o juiz foi apresentada pelo desembargador Marcelo Malucelli, do TRF4. Segundo Malucelli, o filho dele, o advogado João Eduardo Barreto Malucelli, recebeu ameaças em uma ligação telefônica feita por Appio. João Eduardo Barreto Malucelli era sócio de Sergio Moro e da mulher dele, a deputada federal Rosangela Moro (União-SP), em um escritório de advocacia em Curitiba.
Em nota, Appio deu a entender que Moro está por trás da divulgação do vídeo feito no supermercado em Blumenau. Ele afirmou que é testemunha no Supremo Tribunal Federal (STF) em inquéritos contra Moro que apontam a suposta tentativa de desviar R$ 5 bilhões para a criação de uma fundação privada para o combate à corrupção. Em 2019, o ministro do STF Alexandre de Moraes considerou nula a eficácia do acordo firmado entre procuradores de Curitiba e a Petrobras, para criar uma fundação com recursos devolvidos à companhia durante a Lava Jato.
“Ingressarei com as ações competentes, inclusive (contra o) senador Sergio Moro por difamação”, afirmou Eduardo Appio em nota. “Sou testemunha no STF em inquéritos policiais contra o senador Sergio Moro (apuração, pelo CNJ em 2024, de um desvio auditado de 5 bilhões de reais da 13ª Vara Federal de Curitiba, com a finalidade de constituir uma fundação privada em Curitiba). Descobri este desvio e comuniquei ao CNJ em 2023. Hoje sofro perseguições e ofensas pessoais gratuitas por parte do senador Sergio Moro”.
Em seu perfil na rede social X, Moro publicou o vídeo e chamou Eduardo Appio de “ladrão aloprado”. “Esse ladrão aloprado foi o juiz escolhido pelo sistema para atuar na 13ª Vara federal de Curitiba, prejudicar a Lava Jato, mentir sobre colegas e beneficiar corruptos. Estranhamente, ainda correm inquéritos no STF instaurados a partir de suas fantasias caluniosas”, escreveu o senador.
VÍDEO
As imagens gravadas no dia 18 de outubro deste ano mostram Appio pegando garrafas de espumante e passando pelo caixa do supermercado em Blumenau. As imagens mostram que ele segura uma sacola onde as garrafas estariam escondidas, mas não fica claro o que foi pago. Em seguida, Appio é abordado por seguranças do mercado e levado para uma sala. Um dos seguranças retira as garrafas da sacola e o juiz presta esclarecimentos.