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Base governista

Planalto vê arbitrariedade em prisão de ex-diretor da Saúde e torce por racha na CPI da Covid

Daniel Carvalho e Ricardo Della Coletta/Folhapress
08 jul 2021 às 10:58
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Auxiliares do presidente Jair Bolsonaro consideraram uma arbitrariedade a prisão do ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias, nesta quarta-feira (7), durante depoimento na CPI da Covid no Senado.

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Para eles, a decisão do presidente do colegiado, Omar Aziz (PSD-AM), pode enfraquecer o grupo de oposicionistas e independentes que hoje controla a comissão.

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Logo após a prisão de Dias, exonerado do cargo do governo de Jair Bolsonaro na semana passada após denúncia de pedido de propina revelada pela Folha de S.Paulo, interlocutores no Planalto afirmaram que o ato foi desmedido e acusaram Aziz de usar politicamente de uma das prerrogativas do presidente da CPI.


Na audiência, Aziz afirmou que o depoente mentiu em diversos pontos de sua fala e por isso determinou que a Polícia Legislativa recolhesse o ex-diretor do ministério.

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Ao justificar a ordem de prisão, Aziz citou áudios revelados pela CNN Brasil que contradizem a versão do ex-diretor sobre o encontro com o policial militar Luiz Paulo Dominghetti Pereira, representante da empresa Davati Medical Supply.


Dominghetti disse à Folha que o então diretor de Logística da Saúde cobrou propina de US$ 1 por dose em um jantar em um restaurante de Brasília, em 25 de fevereiro deste ano. A negociação envolveria 400 milhões de doses da vacina da AstraZeneca contra a Covid.


Apresentados na CPI, os áudios são de 23 de fevereiro, dois dias antes do jantar. No áudio, Dominghetti afirma a um interlocutor que "a compra vai acontecer", o processo está "na fase burocrática" e Dias irá assinar. Ele ainda afirma que faria reunião no dia 25 -data do jantar-, para "finalizar com o ministério".


Após a prisão, ministros de Bolsonaro reconheceram reservadamente que outros depoentes também entraram em contradição na CPI, mas não foram presos. Por isso, o espanto com a decisão do presidente do colegiado.


No entanto, eles comemoraram o fato de a prisão não ter recebido o respaldo de todos os senadores do chamado G6 -grupo de seis senadores independentes e da oposição. A comissão é formada por 11 titulares.


A torcida no Planalto é que a divisão marque um racha no grupo. A expectativa deles é que a ala majoritária da CPI perca força e enfrente novas dificuldades de coordenação, beneficiando o governo.


Mesmo senadores independentes e oposicionistas criticaram publicamente a prisão.


Alessandro Vieira (Cidadania-SE) disse que seria inconsistente com decisões anteriores, quando Aziz indeferiu pedidos de prisão. "A gente não colocou um general que estava mentindo na cadeia, a gente não colocou um [Fabio] Wajngarten", disse.


Otto Alencar (PSD-BA) também afirmou que Dias "não foi o primeiro que mentiu" e pediu reconsideração da decisão. "[Eduardo] Pazuello mentiu, Elcio [Franco] mentiu, Wajngarten mentiu. Todo mundo mentiu", disse o senador baiano.


O balanço de forças na CPI já sofreu alteração recentemente. O senador Eduardo Braga (MDB-AM) distanciou-se nas últimas semanas da ala majoritária, tanto que o grupo antes era apelidado de G7.


Assessores palacianos também querem analisar como um eventual racha seria percebido na população que acompanha os trabalhos da comissão. Eles opinam que uma atuação menos coesa dos oposicionistas e independentes tende a dar algum respiro ao governo na opinião pública.


Sobre os efeitos que a prisão desta quarta-feira terá sobre os próximos depoimentos, eles ainda avaliam a situação.
Do mesmo jeito que pode haver uma corrida de depoentes à Justiça por alguma medida protetiva contra uma ordem de prisão semelhante, por outro lado há o risco de que quem não consiga a salvaguarda sinta-se mais pressionado ao responder os questionamentos dos congressistas -o que pode, em última instância, comprometer o Planalto.


Somente após essa avaliação é que o governo vai decidir se será necessário fazer mudanças na estratégia na CPI. Ainda na semana passada, auxiliares reclamavam da falta de estratégia e discurso do Executivo, o que dificulta a atuação dos aliados no colegiado.


Lacunas no depoimento de Dias


O ex-diretor da Saúde confirmou que ocorreu um jantar em um restaurante de Brasília no dia 25 de fevereiro com o policial militar que prometia a venda de 400 milhões de vacinas, mas disse que não o conhecia, e que o encontro ocorreu por acaso.


Dias negou ter pedido propina neste dia. Ele reconheceu, porém, que o seu ex-assessor e coronel da reserva Marcelo Blanco, que acompanhava Dominghetti no jantar, sabia que ele estava no restaurante.


Áudio


Em mensagem por áudio veiculada durante a sessão da CPI, obtida do celular de Dominghetti, que foi apreendido, o PM afirma a um interlocutor que teria uma reunião com Dias no dia 25 de fevereiro, o dia do jantar no restaurante de Brasília. O ex-dirigente da Saúde manteve a afirmação de que não marcou encontro com o PM de Minas e que o encontro foi casual.


Negociação paralela


Apesar de afirmar que não tinha a função de negociar vacinas, responsabilidade atribuída por ele à Secretaria-Executiva da Saúde, área dominada por militares, Dias reconhece que conversou até por WhatsApp com um representante da Davati dias antes do jantar. A Folha mostrou que o ex-diretor procurou por WhatsApp Cristiano Carvalho, representante da empresa, em 3 de fevereiro para perguntar sobre a oferta das doses. Ele alegou à CPI que não estava negociando vacinas, mas apenas checando se a proposta era verdadeira.


Oferta


Dias também disse que soube da oferta de 400 milhões de doses a partir de Blanco, o mesmo ex-colega que levou Dominghetti ao jantar. Disse que recebeu em outra data o reverendo Amilton Gomes de Paula, que também tentava intermediar o negócio com a Davati, mas não deu detalhes sobre quem pediu a reunião.


Hierarquia


Dias afirmou que, por falta de documentos da Davati, não repassou as propostas ao então secretário-executivo da Saúde, coronel da reserva Elcio Franco, apesar de ordem interna para centralizar as discussões sobre vacinas para a Covid-19 na área comandada pelo ex-braço direito de Pazuello.


Relação com militares


Dias sinalizou aos senadores que sofreu interferências da Secretaria-Executiva, ou seja, de militares aliados a Pazuello. Ele relatou que dois de seus auxiliares foram trocados por militares, e que havia "contato direto" muitas vezes entre estes novos colegas com a cúpula da pasta. Dias, porém, disse desconhecer as razões das exonerações dos seus auxiliares ou de quem partiu esta ordem.


Exoneração

O ex-diretor também disse desconhecer que ele mesmo foi alvo de um pedido de demissão movido pelo ex-ministro Pazuello. Senadores insistiram no depoimento para que Dias apontasse nomes de militares da cúpula da Saúde que trabalharam para supostamente esvaziar as suas funções na Diretoria de Logística


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