Durante a Era Vitoriana (1837-1901), as orquídeas viraram febre na Grã-Bretanha, tornando-se símbolos de distinção e fortuna. Em meio à expansão colonial britânica, colecionadores financiavam expedições caríssimas e arriscadas para retirar espécies dos trópicos e levá-las à Europa. A obsessão do chamado orquidelírio se espalhou pelo mundo, reproduzindo o gosto da elite europeia, e segue no imaginário coletivo. Mas isso teve um preço.
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“O extrativismo predatório, aliado ao mercado ilegal que persiste até hoje, colocou a família Orchidaceae em maior risco de extinção do que outras plantas com flores”, diz o professor Eric de Camargo Smidt, do Departamento de Botânica da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e Autoridade da Lista Vermelha para Orquideas Sul Americanas pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza).
O docente é coautor de uma revisão publicada no periódico Biodiversity and Conservation, que avaliou globalmente o estado de conservação das orquídeas. O trabalho também envolveu pesquisadores da Austrália, Camarões, Estados Unidos, França, Madagascar e Reino Unido, e avaliou que esse grupo de plantas está entre os mais ameaçados do mundo.
Família vulnerável e pouco conhecida
Orchidaceae é uma das maiores famílias de angiospermas (plantas que produzem flores e cujas sementes ficam protegidas dentro de um fruto). Segundo o artigo, em torno de 75% das espécies são epífitas, vivendo sobre árvores hospedeiras, enquanto as demais se dividem entre terrestres, que se estabelecem diretamente no solo, e mico-heterotróficas, que dependem de fungos para obter nutrientes. Essa dependência do ambiente, aliada a distribuições geográficas restritas e ao crescimento lento, pode tornar as orquídeas especialmente vulneráveis.
Antes da revisão, já se sabia dessa fragilidade. Mas o estudo, que reuniu dados até março de 2025 e cruzou informações por meio de ferramentas de inteligência artificial, estimou que algo entre 55,6% e 69,2% das espécies estão sob risco de extinção.
Cientistas também fizeram uma análise da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, estabelecida em 1964 pela IUCN. Trata-se da principal fonte de informação do mundo sobre o status de risco de extinção global de animais, fungos e plantas, mas, segundo o artigo, a lista está defasada quando o assunto são as orquídeas. Das 30 mil espécies conhecidas, apenas cerca de 2 mil foram mapeadas por ela, diz o professor.
A lacuna também é desigual geograficamente: as Américas Central e do Sul e a Ásia tropical são as menos amostradas. E, para diversos países sul-americanos, os dados disponíveis podem subestimar o nível de ameaça das espécies.
Esse vácuo na catalogação é atravessado por diversos desafios: um deles é o fato de muitas orquídeas viverem em locais de difícil acesso, dificultando a coleta. Além disso, há países ricos em orquídeas que usam sistemas de avaliação próprios e têm resistência ou dificuldade técnica em converter seus dados para os padrões globais da IUCN. Ainda de acordo com o artigo, há escassez de financiamento para as avaliações e um número limitado de especialistas no mercado.
Desmatamento, fogo e clima
Hoje, as principais ameaças às orquídeas incluem a exploração de recursos biológicos e o avanço agrícola. Espécies epífitas, por exemplo, dependem de árvores grandes e velhas que oferecem microclimas estáveis, e a remoção dessas árvores ou a fragmentação florestal colapsa as populações.
As mudanças climáticas também são agravantes, podendo causar descompassos temporais entre a floração e a atividade dos polinizadores. Outro problema mencionado no artigo são as queimadas, especialmente devastadoras para orquídeas terrestres.
Assim, o estudo aponta como medidas urgentes o combate a esses problemas ambientais, além da ampliação da amostragem regional com levantamentos de campo e inclusão das espécies brasileiras na Lista Vermelha.
“Também são fundamentais a proteção rigorosa dos fragmentos de mata madura, com a preservação de árvores hospedeiras, fungos e polinizadores; e a criação de bancos que armazenem não apenas sementes, mas também fungos, garantindo a possibilidade de reintrodução futura na natureza”, diz o professor.
Apesar do cenário de ameaça, os autores ressaltam que já existem técnicas para evitar a perda de espécies. As orquídeas estão entre as plantas mais cultivadas por cultura de tecidos, e em torno de 500 milhões de unidades são produzidas anualmente nos 10 principais gêneros comerciais. O desafio, segundo o estudo, é combinar essas ferramentas com avaliações de risco mais completas e atualizadas, indicando onde devem ser concentrados os esforços de conservação.