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A LENDA DA IARA E DO BOTO ROSA –reflexões sobre o transtorno de personalidade borderline

02 fev 2014 às 00:11
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Iara ou Uiara, também referida como "Mãe-d’água", é uma entidade do folclore brasileiro da região da Amazônia e é de uma beleza fascinante. Por ser uma sereia, enfeitiça os homens facilmente por ter a metade superior de seu corpo com formato de uma linda e sedutora mulher. Já a parte inferior do seu corpo em formato de peixe não é muito notada, por estar submersa em água. Assim não há quem resista a sua belíssima face e as suas doces canções mágicas.

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Deitada sobre a branca areia do igarapé, brincando com os matupiris, que lhe passam sobre o corpo meio oculto pela corrente que se dirige para o igapó, uma linda tapuia canta à sombra dos jauaris, sacudindo os longos e negros cabelos, tão negros como seus grandes olhos.

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As flores lilases do mururé formam uma grinalda sobre sua fronte que faz sobressair o sorriso provocador que ondula os lábios finos e rosados.


Canta, cantando o exílio, que os ecos repetem pela floresta, e que, quando chega a noite, ressoam nas águas do gigante dos rios.

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Cai a noite, as rosas e os jasmins saem dos cornos dourados e se espalham pelo horizonte, e ela canta e canta sempre; porém o moço tapuio que passa não se anima a procurar a fonte do igarapé.
Ela canta e ele ouve; porém, comovido, foge repetindo: - "É bela, porém é a morte... é a Iara".
Uma vez a piracema arrastou-o para longe, a noite o surpreendeu... o lago é grande, os igarapés se cruzam, ele os segue, ora manejando o apucuitaua com uma mão firme, ora impelindo a montaria, apoiando-se nos troncos das árvores, e assim atravessa a floresta, o igapó e o murizal.


De repente um canto o surpreende, uma cabeça sai fora d'água, seu sorriso e sua beleza o ofuscam, ele a contempla, deixa cair o iacumá, e esquece assim também o tejupar; não presta atenção senão ao bater de seu coração, e engolfado em seus pensamentos, deixa a montaria ir de bubuia, não despertando senão quando sentiu sobre a fonte a brisa fresca do Amazonas.


Despertou muito tarde, a tristeza apoderou-se da sua alegria, o tejupar faz seu martírio, a família é uma opressão, as águas, só as águas, o chamam, só a solidão dos igarapés o encanta.


"Iara hu piciana!" Foi pegado pela Iara. Todos os dias, quando a aurora com suas vestes roçagantes percorre o nascente, saudada pelos iapis que cantam nas samaumeiras, encontra sempre uma montaria com a sua vela escura tinta de muruchi, que se dirige para o igarapé, conduzindo o pescador tapuio desejoso de ouvir o canto do aracuã. Para passar o tempo procura o boiadouro de iurará, porém a sararaca lhe cai da mão e o muirapara se encosta. As horas passam-se entregue aos seus pensares, enquanto a montaria vai de bubuia.


O acarequissaua está branco, porém o aracuã ainda não cantou. A tristeza desaparece; a alegria volta, porque o Sol já se encobre atrás das embauleiras da longínqua margem do Amazonas; é a hora da Iara.


Vai remando docemente; a capiuara que sai da canarana o sobressalta; a jaçanã que voa do periantã lhe dá esperanças, que o pirarucu que sobrenada o engana.


De repente um canto o perturba; é a Iara que se queixa da frieza do tapuio.
Deixa cair o remo; Iara apareceu-lhe encantadora como nunca o esteve.


O coração salta-lhe no peito, porém a recomendação de sua mãe veio-lhe à memória: "Taíra não te deixes seduzir pela Iara, foge de seus braços, ela é munusaua".


O aracuã não cantava mais, e do fundo da floresta saía a risada estrídula do jurutaí.
A noite cobre o espaço, e mais triste do que nunca volta o tapuio em luta com o coração e com os conselhos maternos.


Assim passam-se os dias, já fugindo dos amigos e deixando a pesca em abandono.


Uma vez viram descer uma montaria de bubuia pelo Amazonas, solitária porque o pirassara tinha-se deixado seduzir pelos cantos da Iara.
Mais tarde apareceu num matupá um teonguera, tendo nos lábios sinais recentes dos beijos da Iara.


Estavam dilacerados pelos dentes das piranhas.



SOBRE O BOTO COR DE ROSA:


As primeiras citações sobre o sensual Boto Amazônico surgiram no século XIX. Segundo o folclorista Câmara Cascudo, ele seria a versão masculina da mãe-d'água ou Iara. É provável que tenha sido inventado não pelos índios, mas pelos colonizadores portugueses.


Esse ser fantástico que habita os rios da Amazônia é conhecido como um grande sedutor. Dizem que é nas primeiras horas da noite que o bicho boto, deixa para trás sua pele cor-de-rosa para se transformar em um rapaz alto, forte e bonito, vestido de branco e muito atraente.


Ele é um grande dançarino e adora ir a bailes, nos quais aparece sem ser convidado e tendo o cuidado de sempre usar um chapéu para não mostrar o orifício por onde respira. Sua presença é marcante e chama muito a atenção. Seduz a todos, conversa bem demonstrando afabilidade. Marca os encontros junto aos igarapés afluentes do Amazonas e depois de namorar, antes do nascer do sol, volta para as águas e para a sua existência de boto, deixando grávida a moça de seu encontro.


Diz a lenda que aparece nas casas onde vivem mulheres jovens e bonitas. Se aproveita da ausência dos homens e seduz as moças e nenhuma delas consegue resistir ao seu encanto. Na Amazônia, sempre que há um caso de paternidade desconhecida surge a expressão já bem conhecida e crente: "Foi o Boto sinhá!"


Conta-se também que o Boto costuma assaltar a canoas que carregam mulheres grávidas e em algumas versões, o Boto se transforma numa linda mulher atraindo os jovens rapazes para um mergulho no rio, do qual nunca mais voltam.



UMA PERSPECTIVA DE ANÁLISE:


Iara representa a mulher que fascina com o seu canto. Esse canto pode ser um talento ou mesmo seus modos sedutores e dengosos e, claro, as diversas e variadas formas de chantagem emocional e sedução.


O Boto, por sua vez, representa o homem também sedutor e envolvente, mas que não se vincula de modo amoroso, tal qual a Sereia.


Logo se vê que ambos tem problemas relacionados a sexualidade. Na Sereia a parte inferior do corpo é um peixe cujas escamas o protegem, já o Boto é um mamífero cor-de-rosa que se esgueira para as águas após o coito.


Ela seduz, faz sexo, mas não se entrega na relação e, por vezes, pode simplesmente não sentir o orgasmo, no entanto, engana bem, pois atua de modo completo e convincente. Na maioria dos casos, ela mesma acredita em suas atuações.


O Boto apresenta um comportamento sexual evidentemente compulsivo. No caso da Sereia a compulsão sexual também pode estar presente, como não é um comportamento socialmente aceito para as mulheres, este fica menos evidenciado aparecendo mais em sua ânsia por sexo, pela transcendência religiosa, drogas ou outra forma de compensação.


Ambos vivem nas águas, significando, em termos psicológicos, que apresentam o chamado conceito de sentimento oceânico que consiste num sentimento peculiar, uma sensação de ‘eternidade’, um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras.


Sentimento oceânico é uma expressão forte e possivelmente adequada para se expressar uma experiência de contato da ordem do divino.


Para Freud, no entanto, em seu ensaio "Mal Estar na Civilização", esse sentimento é originário do desenvolvimento do ego. Quando a criança é recém-nascida, ou ainda no útero, ela ainda é incapaz de distinguir o seu Eu do mundo externo. Ela "ainda não é", ou de outro ponto de vista, quem não existe é o mundo externo, ela é tudo o que existe, incluindo o mundo externo. É um sentimento de vínculo indissolúvel. Somente com o tempo ela aprende a fazer esta distinção entre seu ego (Eu) e o mundo externo.


Freud supõe então, que este sentimento do ego primário, onde ainda ele era indistintamente vinculado ao mundo externo, persista em maior ou menor grau entre os diferentes indivíduos. Isso justificaria este sentimento oceânico e a busca posterior por vivenciar tal reminiscência e de, portanto, sentir novamente a profunda unidade com o todo seja nos relacionamentos, seja nas drogas e ou na religião.


A autodestrutividade é inerente ao sentimento oceânico. Estamos unidos ao todo, num total vínculo com o universo, antes do nascimento, dentro do útero materno e posteriormente dentro do caixão. De modo que o sentimento oceânico deseja a morte que, entre o útero e o caixão encontra a pequena morte, ainda que de modo efêmero, na viagem das drogas, no êxtase sexual e no êxtase religioso.


A Sereia vivencia essa sensação no sexo com o outro ou na vã tentativa de fazer com que este se componha consigo mesma a ponto de se tornar dois em um. Daí não suportar que ele tenha outros afetos por outras pessoas, mesmo que sejam membros de sua família.


O Boto prefere engravidar as mulheres, além da questão do êxtase sexual e da efêmera paixão, pode passar pelo fato de introduzir em sua amada conceitos e valores de seu próprio caráter e personalidade, de seu conhecimento, de seus desejos e vontades.


Para a Sereia o ser que sente estar amando deve lhe pertencer total e incondicionalmente. O amor pretende ser incomensurável e transcendente. Assim, não suporta dividir esse ser com outra pessoa mesmo que seja por conta de uma conversa estimulante que esse tenha com outrem. Diante de uma constatação como essa de que o objeto amado tem uma vida além de seu relacionamento pretensiosamente transcendental, a Sereia imediatamente passa do amor ao ódio e só ficará satisfeita quando roubar-lhes a vida afogando-os seja no sentimento oceânico do seu amor ou de seu ódio. Alguns Botos podem se comportar do mesmo modo.


Gerar órfãos é especialidade do Boto, o que pode ser equivalente a gerar um sentimento de amor no outro para, logo em seguida, abandoná-lo sem se responsabilizar pelo vínculo criado. Num dado momento, o outro acaba compreendendo que está amando e conduzindo sozinho a relação, sem a participação do Boto nem mesmo em reconhecimento ou gratidão. Sobretudo, percebe que ele não se responsabiliza pelos seus atos, delegando toda a responsabilidade, mantendo-se como vítima. O outro é sempre o culpado.


Nesse aspecto ambos são idênticos, quanto mais recebem, mais querem, jamais estão satisfeitos, não demonstram qualquer reconhecimento e ainda exigem, exigem e exigem. Acreditam que deveria ser completamente possível adivinhar os seus quereres, parece mesmo nem lhes passar pela cabeça tal impossibilidade. Se mostram muito surpresos e tomam isso como uma perfeita afronta.


Como estão engastados no ego primário, seu comportamento é egoísta, o que por vezes faz lembrar uma criança birrenta. Estão encapsulados ora no corpo da sereia ora no corpo do boto, não se deixam tocar e só saem dali quando lhes convém. Enquanto não convir parece estar sempre de mau humor, irascíveis, agressivos e muito chatos. Pisa-se em ovos na esperança de mantê-los mansos, para não dar-lhes nenhum motivo, real ou imaginário. A fim de evitar suas explosões extremamente estressantes e chatas perde-se completamente a espontaneidade.


A psiquiatra Lola Hoffmann (Helena Jacoby) (19 de março de 1904, em Riga, Letônia - 30 de abril de 1988 em Santiago, Chile) Fala com propriedade sobre a Sereia o que, por conseguinte, serve também para o Boto.


Diz que a pessoa é entediante, aborrecida e completamente vazia. Que se instala fortemente na vida de alguém para dominá-lo e explorá-lo com o intuito de preencher esse seu vazio, o que obviamente, jamais será preenchido pelo outro, o que causa mais aborrecimento, maior agressividade, irascibilidade e desejo de vingança.


Exerce grande atração, mas não consegue atender a demanda do afeto fazendo uma troca justa, de modo que procura se vingar, afundando- o em alguma situação em que seu ódio possa acessar, controlar e manipular. Seu controle pretende ser absoluto e para tanto, observa cada detalhe e cada mudança de músculo do seu par, invariavelmente tem um ouvido extremamente afiado, feito pelo hábito de seu controle.


O contrassenso, é que essa sua vingança se faz à custa de sua própria personalidade, o que vem caracterizar sua autodestrutividade. Não raro, os que estão de fora da situação, observam que tudo podia ser bem diferente, sobretudo quando essa pessoa tem tudo para sentir-se feliz e realizada, no entanto, passa a vida criando problemas que, em sua grande maioria, são imaginários. Ela cria uma imagem de um fato, depois gera um texto de acordo com seu imaginário. Acontece, porém, que essa pessoa acredita em sua falsa imagem de tal forma que os desavisados, ao ouvirem o seu texto, podem mesmo acreditar ou até duvidar daquilo que vivenciaram.


Uma das principais características dessa personalidade é a de alterar seu humor de uma hora para outra. Podem estar na maior brutalidade de seu ódio com alguém, mas se o telefone tocar e for um amigo, atende de modo simpático e alegre, como se nada houvesse acontecido.


No decorrer do dia vão do bom ao mau humor em questão de horas ou minutos. A oscilação de humor é uma constante. De mulher carinhosa e sedutora se transforma na piranha que dilacera com os seus dentes afiados. De homem carinhoso e sedutor se transforma em um boto indiferente, cruel e distante.


Pensei muito em escrever sobre esse tema, posto que ele denuncia um transtorno de personalidade. No entanto, acredito que se faz cada vez mais necessário colocar ao alcance do público em geral o comportamento que se caracteriza por algum tipo de transtorno, de modo a possibilitar seu reconhecimento o mais rápido possível.


Quando se trata do transtorno de personalidade chamado Borderline, que é justamente o caso da Sereia e do Boto, quando adulto dificilmente irá procurar ajuda de um profissional, mesmo porque sente-se superior e como não se responsabiliza pelos seus atos, julga que não possui qualquer questão a ser trabalhada em análise.


Por outro lado, se vão para uma análise, buscarão seduzir o profissional que, se caso não possuir conhecimento suficiente para verificar o transtorno, será engolido pelo paciente e a terapia não terá nenhuma validade podendo transcorrer por anos apenas como maternagem.


Assim sendo, quanto mais rapidamente os pais e educadores, de modo geral, se derem conta dos sintomas apresentados por esse transtorno mais rapidamente poderá ser encaminhado aos profissionais aliviando a dor e o sofrimento daqueles que vivem esse transtorno e aos que com ele convivem.


A palavra borderline está em inglês e significa na borda da linha, fronteiriço, no limite. Muitos acreditam que seja a fronteira entre uma doença psíquica e outra, mas não. Aqueles que apresentam esse transtorno estão sempre na fronteira entre um forte sentimento e outro o que caracteriza sua instabilidade emocional. As emoções são sempre intensas e sofrem de raiva. Comumente dividem as pessoas em dois tipos restritos. Uma pessoa é boa e só tem qualidades ou ela é má e só tem defeitos, acontecendo de mudar a classificação de bom para mau assim que se sentir decepcionado por algo real ou imaginado.


Esse transtorno afeta todas as áreas de influência da personalidade de uma pessoa, o modo como ela vê o mundo, a maneira como expressa as emoções e o comportamento social. Caracteriza um estilo pessoal de vida mal adaptado, inflexível e prejudicial a si próprio e ou aos conviventes.


As características aqui apresentadas não servem para diagnosticar por serem elas ainda muito vagas. É recomendável que se busque um profissional da área para uma avaliação e tratamento. Com o devido tratamento alcança-se a estabilidade emocional possibilitando a definição daquilo que quer, daquilo que é e da utilização de suas potências.


Para sua maior informação consulte sobre as diferenças entre o transtorno bipolar e o borderline.


Fontes utilizadas:
Freud – O Mal Estar na Civilização - Obras Completas
C.G.Jung – Estudos Psiquiátricos – Obras Completas
Luis da Câmara Cascudo – Dicionário do Folclore Brasileiro

Sonia Regina Lunardon Vaz
Psicóloga Analítica Junguiana e
Psicoterapeuta Corporal Godelieve Struyf-Denys
Contato: 043-99570843


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