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A Representação da Lua no Imaginário -sonho-

14 ago 2009 às 16:23
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Para a civilização ocidental, a Lua tem sido representante do princípio feminino. Há uma canção popular que diz assim: "Lua bonita se tu não foste casada (com o Sol), eu faria uma escada e subia ao céu para te beijar".

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A lua dos amantes, lua dos enamorados, lua que domina as marés e os partos, que dá força à madeira e à colheita, se tornou desencantada depois do homem pisar em seu solo.


Porém, sua representação no imaginário ainda é a mesma e tem surgido em sonhos que é uma imagem individual e em filmes que é imagem coletiva.


Um sonho de uma mulher ainda nos anos 80, década em que se inicia a preocupação com o sistema ecológico do planeta:


‘Eu estou em minha casa. É noite e todos dormem. Parece ter havido uma festa ou reunião em casa, pois há muitas pessoas espalhadas e dormindo pelo chão.
De repente eu acordo no sonho e com uma sensação de emergência, corro lá para o quintal. Surpreendo-me ao ver a lua de um tamanho gigantesco e a surpresa dá lugar ao terror quando uma mão cheia de garras toma a lua inteira para si e demonstra que irá esmagá-la. As unhas se enterram na lua que agora sangra.
Grito para que todos venham ver a tal imagem assustadora, mas ninguém está lá fora. Corro para dentro de casa e procuro acordar as pessoas para que elas me ajudem a tomar uma providência contra aquilo que me pareceu inevitável.
Mas, elas não acordam de seu sono profundo. Parecem dopadas ou em coma. Não me ouvem e nem vêem aquilo que vi. Acordo devido a angustia e pânico’.

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Segundo orientação da psicologia junguiana, o sonho relatado acima é arquetípico por que corresponde a uma idéia coletiva. Esse sonho pode ser visto de tantas maneiras quanto existe olhares. No entanto, eu só posso falar da minha e a sonhadora da forma dela. O que representa particularmente para a sonhadora, não caberá aqui ser comentado por não ser apropriado expor conteúdos particulares.


É raro sonhar com o local em que se reside por que a vivência neste local é bastante intensa não sobrando energia psíquica para o inconsciente. É bem mais comum sonhar com uma representação do local de residência.


Se isso ocorreu já é um indício de que do inconsciente emergiu um conteúdo que requer atenção especial.


A figura da sonhadora recebe o nome de ego onírico. Assim, ao acordar no sonho significa que a sonhadora toma consciência do conteúdo ora emergido do inconsciente que é o insight ou a percepção de que a lua, que em nossa civilização é representante do princípio feminino, está sendo destruída.


A mão cheia de garras tanto pode ser de homem quanto de mulher, de modo que determinadas atitudes de homens e de mulheres estão destruindo a lua. Quais seriam tais atitudes?


Temos uma pista na seqüência do sonho. O ego onírico é o único que se preocupa e teme a destruição. As outras pessoas dormem, ou seja, vivem num outro estado de consciência onde se mostram alheias ao fato destrutivo.


Em nossos tempos, isso pode ser traduzido em falta de ética, corrupção, indiferença e não enfrentamento aos conflitos e tão pouco, atenção e ouvido para a própria sensibilidade.


São essas atitudes que estão destruindo o princípio feminino da Terra.


E o que é o princípio feminino da Terra?


O saber receber, o acolhimento, a gestação das sementes e dos frutos, a espera, a colaboração e a união. O ilimitado, o que se expande por agregar, a imaginação, a consciência difusa, a visão do todo e a subjetividade.


O princípio masculino da Terra é o saber dar, a rejeição, a fecundação, a agilidade, a competitividade e a separação. O limite, o que se expande por fragmentação, o pensamento analítico da consciência clara e reta, a visão das partes e a objetividade.


Ambos os princípios vem sendo elaborados consciente ou inconscientemente por várias civilizações e se estabelecem como matriz de pensamento quando alcançam a consciência coletiva de um povo.


O mundo contemporâneo supervaloriza os atributos culturalmente codificados de acordo com o princípio masculino, o que, indubitavelmente, contribuiu para um engessamento do pensamento ocidental que dá maior ênfase às funções psíquicas racionais (sentimento e pensamento), enquanto que despreza as funções psíquicas irracionais como a sensação e a intuição.


De acordo com diversos estudos atuais, a Terra comporta um bilhão e meio de pessoas, no entanto, esse número já chega próximo aos sete bilhões. A esse superpovoamento se deve muita das calamidades e doenças atuais, inclusive e talvez até, principalmente, as doenças psíquicas.


Por razões morais e religiosas, a discussão sobre esse tema não ganha a sua devida dimensão. A ética cientifica permanece vã num mundo em que determinados assuntos são impedidos de ganhar visibilidade.


Por outro lado, a lua que sangra como representação do principio feminino, demonstra mais uma vez, que a visão do todo; a consciência difusa; a sensação (que é corpórea); a intuição e a imaginação estão sendo desprezadas pela consciência coletiva e, claro, o inconsciente virá fazer a sua devida cobrança.


Pode parecer estranho falar do inconsciente de modo personificado. Não é essa a idéia que busco atingir. O inconsciente consiste de processos naturais e não de valores morais. Não há qualquer ameaça de que ele venha nos castigar. O modo como ele reage é tal e qual um estômago que foi negligenciado ou que recebeu uma má alimentação. O que pode mesmo ocorrer é uma indigestão de ordem psíquica contra a atitude de negação dos poderes do inconsciente.


A Terra também consiste em processos naturais e já se percebe os sinais sintomáticos de sua indigestão.


De acordo com o sonho, uma boa dieta alimentar consistiria em recriar conceitos e atitudes que contemplassem os princípios criativos masculino e feminino.


Olhando bem de perto o funcionamento de um departamento de empresa, percebe-se logo que alguns funcionários confundem o conceito de pró-atividade com a atitude de controle a qualquer preço ou custo. Ou, no que concerne às relações afetivas, sejam elas quais forem, a atitude controladora está sempre em grande evidência em detrimento dos sentimentos e sentidos do próprio corpo.


A desvalorização do corpo (Lua e Terra) desvirtuou as virtudes, se é que se pode chamar assim. Esse é um dos motivos que fez com que a doença da psicopatia ganhasse o status de "esperteza". Uma funcionária, perguntada por que fez uso do conhecimento de outra profissão que não a sua, num determinado documento respondeu, sem pestanejar, que foi por que teve oportunidade. Se não tivesse sido corrupta outra pessoa seria! Isso quer dizer que ela é fraca e que acredita piamente que é esperta e inteligente. Pior, os seus superiores, se não lhe dão tapinhas amigáveis nas costas, minimizam aquilo que se constitui crime, arrogância, desprezo, enfim, corrupção. A mente corrupta é corruptível.


Por outro lado, o forte, aquele que vai lá e luta pelo que acredita de acordo com sua sensibilidade é, na mais das vezes, sufocado, desprezado e apredrejado. A empresa está adoentada tanto quanto nossa sociedade. A empresa que privilegia as atitudes psicopáticas, destituídas de ética e de sensibilidade, se acreditam superiores e as pessoas que agem do mesmo modo se acreditam indestrutíveis e inteligentes sugerindo que não apenas desconhecem sua doença, como também se orgulham dela!


Carl Gustav Jung, médico e psicólogo suíço, em Entrevistas e Encontros de McGuire e Hull, comenta que o individuo foi destituído de seu poder pessoal a ponto das pessoas não pensarem nesses assuntos psicológicos. Afinal, se algo diz respeito ao individuo, torna-se enfadonho para o coletivo. É preciso que haja sempre algo que é bom para milhões, mas não só para uma pessoa. Isso é desinteressante. Ele afirma que a ciência nos convenceu de que a vida humana é insignificante e que a história contemporânea tem demonstrado que as vidas humanas não valem nada. O que importa mesmo são as corporações e se houver algum crescimento ou revolução teria de ser coletiva. O que é a voz de apenas um individuo? Basicamente, nada.


E o individuo está tão convencido de sua desvalia e nulidade que já não faz esforço algum para desenvolver suas particularidades ou suas sensibilidades, ou sua inteligência emocional, ou mesmo se interessar pela saúde psíquica.


O individuo não é nada e isso causa a falsa noção de que o individuo nada é. No entanto, o individuo é o portador e veículo de vida. E a vida é produzida, deste ou daquele jeito, pelos indivíduos portadores de vida. A vida humana não existe por si mesma. Ela só existe através dos indivíduos. E naturalmente, o problema do individuo é o problema todo.


Com tal banalização do individuo, as pessoas parecem ficar desencorajadas para o enfrentamento aos conflitos. A reação tem de ser sempre de milhões e a indignação tem sempre que ganhar voz coletiva. O individuo é a sociedade. O poder pessoal existe!


Se deixar anular, dormir como no sonho, é se deixar enredar pela consciência coletiva que afirma que você não tem força alguma e que você não tem o poder de fazer o universo se modificar. Desse modo, endossando a apatia e corrompendo-se por que não sabe mais ser honesto consigo mesmo. E não sabe por que não ouve e nem mais sente suas emoções, sentimentos e sentidos.


Nada muda em alguém se esse alguém não se esforçar para mudar. Aí há uma força tarefa individual que está negligenciada e banalizada. Por toda parte nos deparamos com a depreciação da psique humana. E quando se fala psique humana, todos dizem que isso é ótimo, mas que é um problema dos outros.


Jung, finalmente, conclui assim: "Ora, se ninguém se preocupa com sua própria psique, então, do ponto de vista psicológico, não há nada que se possa fazer. Pode-se apenas relatar como as coisas são e tornar-se completamente impopular!".

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