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Chapeuzinho Vermelho - o enfrentamento ao instinto

07 mai 2011 às 15:10
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Era uma vez uma menina chamada Chapeuzinho Vermelho, que tinha esse apelido porque desde pequenina gostava de usar chapéus e capas desta cor. Chapeuzinho e sua mamãe moravam nas proximidades da floresta.

Um dia, sua mãe pediu:
- Querida, sua avó está doente, por isso preparei aqueles doces, biscoitos, pãezinhos e frutas que estão na cestinha. Você poderia levar a casa dela?
- Claro mamãe. A casa da vovó é bem pertinho!
- Mas, tome muito cuidado. Não converse com estranhos, não diga para onde vai, nem pare para nada. Vá pela estrada do rio, pois ouvi dizer que tem um lobo muito mau na estrada da floresta, devorando quem passa por lá.
- Está bem, mamãe, vou pela estrada do rio, e faço tudo direitinho!

O conto de Chapeuzinho se inicia com três personagens e todas elas femininas. De onde se depreende que tal universo está polarizado e conseqüentemente, radical. Não há nenhuma menção sobre se quer um masculino. Ninguém fala sobre pai, avô, tio ou amigo. Ocorre uma negação do masculino que, por ser negado ou negligenciado, vive inconsciente na psique. E como tudo está envolto na vivência apenas do feminino somado ao fato da inconsciência da força masculina da psique, implica ao sujeito, como também a sociedade, em comportamentos e ocupação da vida baseados em conceitos cristalizados, idéias obsoletas e o desejo pela transcendência que abdica da realidade objetiva em prol da realidade imagética.

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Para designar a atração que guia o desejo no sentido da transcendência, as últimas palavras de Goethe em seu segundo "Fausto" surgem em um coro místico que proclama: O eterno feminino nos atrai para o alto. Assim, o feminino representa o desejo sublimado.

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Podemos então, nos adiantar em nosso conto ao questionar qual seria o desejo sublimado na história de Chapeuzinho Vermelho, cujo apelido advém do constante uso de chapéu e capa vermelhos desde pequenina.
E em sendo assim, é justo supor que a grande influência para seu comportamento vem da família. De modo que devemos buscar o desejo sublimado na mãe e na avó, únicos personagens presentes.


No plano social estamos vivendo tanto a misoginia quanto a misandria. Esta última tem sido completamente negligenciada e até ignorada, nada se diz sobre a raiva em relação aos homens, mas os padrões e conseqüências deste fato são bem visíveis e lamentáveis. Como isto acontece na sociedade, também ocorre na psique, de maneira que as forças masculinas da psique estão sendo, no mínimo, negligenciadas.


As forças da psique não possuem em si mesmas qualquer tipo de distinção posto que sejam elas instintuais. A razão, hoje tomada também como instintiva, nomeia e organiza o mundo fazendo o mesmo com as forças psíquicas.
Por outro ângulo, o aparelho psíquico possui uma retroalimentação de energia o que equivale a dizer que conteúdos inconscientes modificam conteúdos conscientes e vice-versa. Tudo que está na sociedade recebe projeções do inconsciente e são estimulados por ele, bem como tudo o que está na sociedade influencia os conteúdos inconscientes.

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É devido a isso que se faz menção entre força masculina e feminina da psique. O gênero masculino recebe atributos e características ditadas pelo social. O mesmo acontece com o gênero feminino. Ao introjetar estes papéis e conceitos, a mente passa a fazer distinção entre suas forças na tentativa de se auto- explicar. De modo que, as forças da psique ficam assim organizadas pela própria razão da psique. Os conceitos e pensamentos determinam o comportamento, de modo que a análise sofre e discorre sobre as duas conseqüências, tanto aquela vivida e adquirida socialmente quanto aquela que por motivos vários se encontra inconsciente, em outras palavras, a análise se faz tanto em direção ao objeto quanto em direção ao sujeito.


No conto, a cor que salta aos olhos é o vermelho. O universo de Chapeuzinho que é feminino está coberto pelo vermelho.
Comecemos pelo chapéu. Nos rituais sagrados, o mestre participa dos trabalhos sempre com a cabeça coberta para indicar suas prerrogativas e sua superioridade. Analisando vários comportamentos de várias culturas, o chapéu parece desempenhar a mesma função da coroa, signo de poder e de soberania.


Ele também representa a cabeça e os pensamentos que se fazem por identificação com a consciência estabelecida. Em vários contos, o herói tem os pensamentos e empreende os projetos da pessoa cujo chapéu está usando.
Na interpretação de Carl Gustav Jung, mudar de chapéu significa mudar de idéias e ter outra visão de mundo e de homem.


A capa ou manto tem sido utilizado em diversos tipos de sociedade para indicar que aquele que a usa exerce um poder sobrenatural fazendo parte de atributos dos deuses. Por outro lado, na religião celta a capa ou manto toma outro significado por que aquele que a veste toma o aspecto, a forma e o rosto que quer pelo tempo em que a leva sobre si. De modo que o manto, apesar de continuar a ser sobrenatural, é também o símbolo da metamorfose e indica que uma pessoa é capaz de assumir várias personalidades.


Antes de seguir adiante, lembremos que na psique, o ego, ou aquilo que pensamos ser nossa única personalidade é apenas um dos inúmeros conteúdos que formam a psique e que esta é constantemente mutável e dinâmica, assim como o universo ela está em constante transformação. Para Jung, a psique é uma fonte transformativa, o ego é apenas um de seus núcleos e há diversas personagens que foram denominadas por Jung de personalidades parciais. Elas estão aí e se comunicam com o ego no caso das neuroses e no caso de psicose elas tomam conta do ego, criando a dissociação psíquica.


Em última instancia o manto ou capa foi e é utilizado, como nos casos dos monges e das freiras, para indicar a retirada do mundo objetivo e a intenção de se separar das tentações e de renunciar aos instintos materiais.
Para terminar a investigação sobre o desejo sublimado que habita e origina esse conto, vejamos sobre a cor vermelha.


O vermelho, desde sempre, ou melhor, em todas as civilizações e sociedades, diante de seu poder, força e brilho, foi associado ao princípio da vida.
Quando contido é a condição da vida e quando espalhado é condição de morte. A mulher ao conter o seu sangue dá a luz e ao espalhá-lo na menstruação significa a morte do óvulo, aquilo que poderia ter sido e não foi.


É devido a isso que em muitas sociedades as mulheres foram obrigadas a um retiro purificador antes de regressar à sociedade da qual foram, temporariamente, excluídas. Inúmeros estudos demonstram que ainda hoje, um dos possíveis componentes que atingem a mulher em forma de depressão por volta de seu período menstrual é a perda, ou, a morte do óvulo. Na depressão pós-parto, a mulher sofre a perda do feto e por isso lhe é difícil aceitar o novo, o bebê.


Por último, o vermelho é associado ao Eros vivo e triunfante. Na África negra e nas tribos indígenas da América, a pintura vermelha tem o atributo de estimular a força e despertar o desejo.
Em várias tradições da Rússia até a China e ao Japão, a cor vermelha está associada a todas as festividades, especialmente a casamentos e nascimentos. É comum se dizer de uma criança que ela é vermelha para significar que é bonita.
É usado para estimular as forças guerreiras, o arrebatamento e o ardor da juventude.


Enfim, o vermelho de Chapeuzinho e de sua mãe e avó juntamente ao símbolo do chapéu e manto vêm significar que o desejo sublimado é o desejo libidinal.


A libido é a força vital que atravessa os corpos. Ao interrompê-la, busca-se não mais sofrer dores de perdas, decepções e morte. Porém, ao não sofrer mais a morte, também não se sofre a vida. E assim é que, usando o dito popular, o molho fica mais caro que o peixe, pois não sofrer significa zumbizar pela vida, melhor seria se já estivesse morto. Por que dessa maneira, não há mais história, não há mais metamorfoses, não há mais vínculos, só resta o próprio espelho e umbigo. Daí a necessidade de criar um mundo mágico paralelo onde, na maioria das vezes, depois da morte irá viver em esplendor.


O medo e a não aceitação da morte determina que não haja vida.


No amor e na vida há de se quebrar a cara até se tornar descarado. O que quero dizer com isso é que o melhor para a saúde mental é que se lide com a traição, decepção e morte até que se torne sem pudor para viver a vida que trás em seu bojo a finitude de tudo e de todos. C'est la vie.


Muitos querem determinar que a libido é o sexo. Esse conceito é deturpado e desqualifica a libido que não apenas está no ato sexual em si, como também está em tudo o mais que tráz prazer, seja ler, escrever, assistir ou participar de um jogo, orar ou rezar, cuidar de um animalzinho, colher uma flor, dar bom dia aos pássaros. Tudo que dá prazer faz parte do instinto e, consequentemente, da força libidinal, da força da vida.


Não há como ser feliz sem a cor vermelha. Na alquimia, quando se está prestes a chegar a Grande Obra, surge o albedo que é o branco. Poderia se pensar que aí estaria a grande chegada e descoberta final para a Pedra Filosofal. Diz Jung : ¨ ...mas no branco não se vive, é preciso o rubedo para que haja a vida¨.

E um dia a mamãe pediu para Chapeuzinho Vermelho ir a casa da vovó :


- Querida, sua avó está doente, por isso preparei aqueles doces, biscoitos, pãezinhos e frutas que estão na cestinha. Você poderia levar a casa dela?
- Mas, tome muito cuidado. Não converse com estranhos, não diga para onde vai, nem pare para nada. Vá pela estrada do rio, pois ouvi dizer que tem um lobo muito mau na estrada da floresta, devorando quem passa por lá.
- Está bem, mamãe, vou pela estrada do rio, e faço tudo direitinho!

É um fator real e corriqueiro verificar que, quando a mãe mantém a filha sob o jugo do mundo feminino em detrimento do masculino, seja devido à misandria ou não, na relação entre mãe e filha ocorre uma situação doentia normalmente despercebida ou ignorada pelas pessoas envolvidas. É muito comum verificar que a mãe faz de sua filha uma espécie de extensão de si mesma, situação na qual a criança é vista e tida como objeto e não como sujeito.


Desse modo, a mãe, muitas vezes trata a garota como se essa fosse uma mulher feita, seja dando-lhe responsabilidades e tratamento de adulto, seja contando-lhe segredos íntimos ou deixando-a participar de conversas íntimas ou vulgares, seja vestindo-a como mulher, seja ignorando o perigo pelo qual a filha possa estar passando desde que lhe convenha.


Seu comportamento se alterna por conveniência, pois, muitas vezes trata a criança como se esta fosse um feto ou bebê. Há momento em que um simples passeio junto ao pai se torna tão ameaçador que ela teria de ir junto ou ninguém vai. Até pareceria um cuidado exagerado se não fosse o fato de que há por detrás seu jogo manipulatório e real intenção de registrar sua posse sobre seu objeto de poder, sua filha, talvez reproduzindo a mesma situação onde ela mesma, possivelmente tenha sido, ou ainda é, a refém emocional de sua mãe.


Por outro lado, a filha se mantém psicológicamente cativa por que num universo assim, o pai ou o masculino está enfraquecido posto que não mais coloque limites e, provavelmente, é mais um a ser manipulado. Nesse sentido ele é incapaz de proteger sua filha e ela sabe disso e entende que a mãe é a mais forte, logo, irá se identificar com o mais forte e não com aquele que julga mais fraco. Repetirá o papel da mãe ou o seu oposto. Na realidade, ambos são fracos e suas neuroses são complementares. O sujeito forte não necessita parasitar outro ser, muito menos fazer dele seu objeto de posse. Agindo assim denuncia sua doença. Aquele que está doente está fraco.


No conto, Chapeuzinho assegura à mãe que irá seguir seus conselhos e de fato, a criança dentro desse universo, torna-se bastante obediente. Obedece a tudo que a mãe lhe propõe, uma razão para tal obediência é por que assim pensa em ganhar o afeto materno tão querido, mas que só lhe chega de modo deturpado, um dos fatores que pressupõem a Síndrome da Acomodação do Abuso Infantil.


De qualquer modo, a homeostase psíquica, processo natural e instintivo comprovado principalmente nos estudos junto aos portadores de psicose, se encarregará de colocar à sua frente o dito Lobo Mau. A personificação negativa do masculino faltante. Haverá também, nos sonhos e devaneios a personificação do masculino positivo, o Príncipe Encantado.


Em ambos, nota-se uma exacerbação de seus defeitos em um e de suas qualidades em outro.


O perigo maior em tudo isso é que a garota poderá projetar suas fantasias em pessoas de seu convívio ou num posterior namorado, de modo a se tornar refém de um companheiro que a domina e subjuga experimentando sua impotência para sair de tal armadilha. É que a teia dessa aranha foi construída junto a sua mãe.


Se não acontecer desse modo, poderá acontecer de modo oposto. A garota reproduzirá o comportamento materno e subjugará o namorado devido a sua própria misandria. Em ambos os casos, a mulher, que ora é, não experimenta o êxtase maior em ser mulher, a troca afetiva e o encontro com o outro.


Chapeuzinho veste vermelho e se mostra cheia de vida, cheia de prazer, se empenha em seduzir pela roupa que veste, pelo jeito que aprendeu nas novelas e nas músicas de cunho sexual ou nos concursos de pequenas misses ou mesmo no convívio desse seu mundo tão feminino, no qual a sedução e a promessa de satisfazer sexualmente é uma mensagem constante, com o intuito de esconder a real impotência de se manter em contato afetivo com o outro, num vínculo onde o intercurso sexual é mais um dos diálogos do casal e não a sua única opção ou o oposto, sua exclusão na relação.


Voltando ao conto:
E assim foi. Ou quase, pois a menina foi juntando flores no cesto para a vovó, e se distraiu com as borboletas, saindo do caminho do rio, sem perceber.
Cantando e juntando flores, Chapeuzinho Vermelho nem reparou como o lobo estava perto...
Ela nunca tinha visto um lobo antes, menos ainda um lobo mau. Levou um susto quando ouviu:
- Aonde vai linda menina?
- Vou à casa da vovó, que mora na primeira casa bem depois da curva do rio. E você, quem é?
O lobo respondeu:
- Sou um anjo da floresta, e estou aqui para proteger criancinhas como você.
- Ah! Que bom! Minha mãe disse para não conversar com estranhos, e também disse que tem um lobo mau andando por aqui.
- Que nada - respondeu o lobo - pode seguir tranqüila, que vou à frente retirando todo perigo que houver no caminho. Sempre ajuda conversar com o anjo da floresta.
- Muito obrigada, seu anjo. Assim, mamãe nem precisa saber que errei o caminho, sem querer.
E o lobo respondeu:
- Este será nosso segredo para sempre...
E saiu correndo na frente, rindo e pensando:
(Aquela idiota não sabe de nada: vou jantar a vovozinha dela e ter a netinha de sobremesa... Hum! Que delícia!)


A garota veste a cor vermelha e desempenha o papel que lhe foi dado, no entanto, ainda permanece ingênua, apesar de não mais ser inocente. A ingenuidade é um grande mal. Trata-se de uma defesa do ego contra a percepção da realidade e a responsabilidade de assumir as conseqüências e viver o conflito. No entanto, a pessoa inocente, simplesmente não é culpada.


E todo Lobo Mau percebe, se alegra e se diverte com isso. Seu sucesso na caça lhe é garantido. Parece até um gatinho brincando com a presa antes de abocanhá-la.


Antes de seguir adiante, devo advertir que as personagens sobre as quais trata esse texto são tidas como conteúdos psíquicos projetados na realidade objetiva. No entanto, como inexiste o mundo de dentro e o mundo de fora ou ainda, um não existe sem o outro, essas personagens estarão sendo analisadas tanto como realidade objetiva como quanto realidade subjetiva.


O tratamento psíquico requer que sejam tratadas como realidade subjetiva para se alcançar o sucesso da transformação dos conteúdos que roubam do ego sua autonomia antes de serem por ele conhecidos. O conhecimento do ego sobre tais conteúdos assegura a transformação tanto deste quanto daquele. Os contos de fada, os mitos, as fantasias, os sonhos e devaneios são materiais de projeção desses conteúdos, daí a importância em estudá-los e de até submetê-los ao bisturi da mente analítica.


O Lobo Mau diz ser um anjo que a protegerá.


Numa análise em direção ao objeto pode-se verificar que nas relações afetivas, muitas mulheres desejam que seus homens a protejam. Nada mais natural posto que está gravado no substrato da psique que é papel do macho proteger a família. No entanto, manter esse desejo é uma fonte de decepção, por que os papéis já não são os mesmos e a mulher lutou e conseguiu provar seu poder. De modo que esse script está sendo desempenhado tanto por um quanto por outro.


Em se tratando da análise em direção ao sujeito, o lobo e tudo que ele representa são atributos da própria pessoa que estariam sendo projetados e não reconhecidos como seus, deixando ao cargo do outro o desempenho desse poder.


Encontrar o Lobo Mau dentro de si é o caminho para garantir um pouco mais de autonomia para o sujeito.


Lobo e anjo, ambos se confundem nessa história. Será que um pode ser a face do outro¿ Vejamos.


Na mitologia, os anjos são seres intermediários entre Deus e o mundo. Formam o exército de Deus, sua corte e sua morada. Têm como função velar pelo mundo e transmitir suas ordens. Na fé cristã, os justos têm um anjo da guarda que está sempre a lhe apontar o caminho do bem e livrá-lo da armadilha cabendo ao sujeito tomar a atitude de seguir ou não o seu conselho.


Tomar atitudes; se confrontar com o problema; seguir adiante; dizer não para algo onde todos querem que diga sim; denunciar; lutar pelo seu desejo; abrir caminho e desbravar a mata da ignorância são tarefas para o sujeito fazer, por que o anjo apenas transmite a ordem divina, ele não possui o corpo para interagir no mundo. E só para lembrar, essas tarefas foram, por séculos, atributo do gênero masculino.


E todas elas requerem a percepção, força e o ardor no combate que tem sua representação no lobo.


Nesse sentido, anjo e lobo, são complementares. E há ainda um ponto em comum, ambos possuem a função de psicopompos, ou seja, de transmitir mensagens do alto para o baixo, de Deus para o crente, do inconsciente para o consciente. Se o anjo tem por função transmitir mensagens do reino divino, o lobo tem a função de transmitir mensagens da floresta e do reino animal, dos instintos. Num canto fúnebre romeno pode-se atestar essa sua função:


Aparecerá ainda o lobo diante de ti
...
Toma-o como irmão
Porque o lobo conhece
A ordem das florestas
...
Ele te conduzirá pela estrada plana
Até um filho de Rei
Até o paraíso.

(Trésor de La Poésie Universalle, por R. Caillos & J.C. Lambert, Paris, 1958.)


O anjo é símbolo do desejo ascensional e do instinto espiritual, enquanto que o lobo é símbolo dos instintos, especificamente nessa história, ele é símbolo do desejo sexual. São faces da mesma moeda.


Quando um instinto é negado pelo ego e renegado ao inconsciente, não significa que não mais existe. Existe e faz uma enorme pressão ao ego que tende a ser solapado por ele. Quando uma sociedade nega o desejo sexual, ele se estabelece de modo exacerbado. Do mesmo modo, quando a sociedade nega o instinto da raiva, este se estabelece no social com intensidade imprópria. Se a sociedade admitisse raiva, sexualidade e outros assuntos, eles seriam de menor intensidade e passíveis de maior controle.


Quando os instintos são devidamente reconhecidos, em contato com a consciência ele a modifica e é por ela modificado. O veneno pode se tornar o elixir da vida.


O lobo desse conto é um Lobo Mau, o que significa que ele é um lobo infernal e que sua força não está disponível ao ego, muito pelo contrário, se encontra no fundo da psique, não está em cima feito o sol (consciência), está embaixo, no inferno (inconsciência).


O Lobo Mau é o primeiro masculino a surgir no conto. Em primeiro lugar, ele representa as forças que estão inconscientes sobre o masculino. Ele é um predador da psique, assim como no grupo, ele é o predador social.


Quando algo acontece errado, a criança tende a manter sigilo, um dos motivos é o medo de perder o amor dos pais.
Geralmente o Lobo Mau pede segredo, isso lhe garante a presa e ainda mantém uma cumplicidade com ela.


Quando se trata do predador da psique, as pessoas também não falam a respeito, por que o predador da psique lhe envia mensagens sempre de depreciação e vergonha.


Esse Lobo Mau negativo tem sua origem na misandria, por isso que nesse conto a avó será sua primeira vítima. Essa história de que "homem não presta"; "homem é tudo igual"; "homem não sabe se virar"; etc. e tal vêm desde o tempo da vovó.


Já os predadores falam assim: "ela levou o que mereceu"; "não fiz nada que ela não desejasse"; "ela queria ser abusada"; "você não vale nada por isso tem que ficar comigo e se deixar ser usada conforme eu desejar"; "mulher é para usar e jogar fora" e outros fatos e piadas que possuem claramente o viés da misoginia, que por sua vez, remonta alguns séculos contra o feminino.


A avó é duas vezes mãe, sugerindo que o padrão de comportamento visto aqui faz parte da herança psíquica.


Chegando à casa da vovó, Chapeuzinho bateu na porta:
- Vovó, sou eu, Chapeuzinho Vermelho!
- Pode entrar minha netinha. Puxe o trinco, que a porta abre.
A menina pensou que a avó estivesse muito doente mesmo, para nem se levantar e abrir a porta. E falando com aquela voz tão estranha...
Chegou até a cama e viu que a vovó estava mesmo muito doente. Se não fosse a toquinha da vovó, os óculos da vovó, a colcha e a cama da vovó, ela pensaria que nem era a avó dela.
- Eu trouxe estas flores e os docinhos que a mamãe preparou. Quero que fique boa logo, vovó, e volte a ter sua voz de sempre.
- Obrigada, minha netinha (disse o lobo, disfarçando a voz de trovão).
Chapeuzinho não se conteve de curiosidade, e perguntou:
- Vovó, a senhora está tão diferente: por que esses olhos tão grandes?
- É prá te olhar melhor, minha netinha.
- Mas, vovó, por que esse nariz tão grande?
- É prá te cheirar melhor, minha netinha.
- Mas, vovó, por que essas mãos tão grandes?
- São para te acariciar melhor, minha netinha.
A essa altura, o lobo já estava achando a brincadeira sem graça, querendo comer logo sua sobremesa. Aquela menina não parava de perguntar.


Um dos grandes aliados para que haja fluidez de vida é a curiosidade. Quando se está numa situação perigosa, é melhor fazer as perguntas certas. Elas abrirão caminho para o enfrentamento ao conflito e a conseqüente resolução do problema.


- Mas, vovó, por que essa boca tão grande?
- Quer mesmo saber? É prá te comer!
- Uai! Socorro! É o lobo!
A menina saiu correndo e gritando, com o lobo correndo bem atrás dela, pertinho, quase conseguindo pegar.


Segundo várias culturas, o olho é símbolo do conhecimento e da percepção. Quando Chapeuzinho se interessa por fazer a pergunta sobre os olhos, ela está se utilizando de seu instinto para perceber e assim deixar de ignorar o perigo como tem sido de hábito como conseqüência de uma atitude essencialmente feminina.


O nariz, assim como os olhos, é símbolo de percepção. No olho a sabedoria é mais racional, em relação ao nariz o conhecimento é bem mais intuitivo do que racional.


As mãos são equivalentes aos olhos. A mão vê através do tato, de modo que também é símbolo de percepção.


As orelhas são símbolos de inteligência cósmica em diversas culturas orientais, onde grandes orelhas é sinal de sabedoria e imortalidade. A função auditiva, segundo os hindus, possui a percepção dos sons inaudíveis da vibração primordial. Para os bambaras, a orelha devido a sua conformação é um duplo símbolo sexual, onde o pavilhão auditivo representa o pênis e o conduto auditivo, a vagina. Segundo os dogons, a palavra do homem é tão indispensável à fecundação da mulher quanto como o seu líquido seminal. A palavra máscula desce pela orelha, assim como o esperma entra na vagina de modo a fecundar.


Segundo Carl Gustav Jung, o conhecimento e o seu pleno feminino, chegam à mulher através da razão, enquanto que para o homem, o conhecimento e seu masculino pleno em desenvolvimento, chega-lhe através do amor.


Atualmente a boca representa um grau elevado de consciência com a capacidade organizadora própria da razão. Nos tempos passados e em várias sociedades a boca representa a passagem tanto para a luz quanto para a sombra. Assim é que a goela é tida como símbolo ctoniano, a boca de sombra que seria a entrada para o mundo subterrâneo e que devora toda a tarde o sol e o dia para vomitá-los na aurora sobre a terra. É símbolo de passagem entre vida e morte, daí seu caráter iniciático. Diz-se do iniciado que se encontra em meditação transformativa que ele foi devorado por um monstro e que, em breve, será vomitado em forma de luz, ou seja, o seu retiro lhe trará a luz da consciência e da percepção.


Os dentes são instrumentos de tomada de posse. Ele esmaga para assimilar, ou melhor, para fornecer o alimento ao desejo. Simboliza a força da mastigação onde se vê a agressividade devido aos apetites materiais. Na mastigação devoradora encontra-se o símbolo da divisão e multiplicação de uma intelecção unificadora a fim de elevá-la de engessada e rígida para uma abrangência e fluidez que contemple todo o corpo, seja ele individual ou coletivo.


Encontra-se aqui o propósito da vovó, aquela que representa o universo feminino e que o transmitiu a filha e a neta, ser devorada e depois vomitada pela goela deste lobo que representa o instinto a atravessar a razão, tornando-a mais fluídica, leve e saudável.


Todas as mulheres que se encontram cobertas de razão estão sendo possuídas pelo Lobo Mau. Para conquistarem a razão atravessada pelos instintos, deverão permitir que sua menina, Chapeuzinho, questione, seja curiosa e faça perguntas para então, enfrentar os conflitos e viver a vida que não está na razão engessada, está sim, nos sentidos: boca, dentes, mãos, olhos e orelhas, instintos que qualificam a razão, transformando-a em razão sensível.


No conto, Chapeuzinho, finalmente grita por auxílio e


Por sorte, um grupo de caçadores ia passando por ali bem na hora, e seus gritos chamaram sua atenção.
Ouviu-se um tiro e o lobo caiu no chão, a um palmo da menina.
Todos já iam comemorar, quando Chapeuzinho falou:
- Acho que o lobo devorou minha avozinha.
- Não se desespere pequenina. Alguns lobos desta espécie engolem seu jantar inteirinho, sem ao menos mastigar. Acho que estou vendo movimento em sua barriga, vamos ver...
Com um enorme facão, o caçador abriu a barriga do lobo de cima abaixo, e de lá tirou a vovó inteirinha, vivinha.
- Viva! Vovó!


O mundo feminino, agora possuidor dos sentidos, emerge vitorioso e fazendo a todos felizes. O ranço, o ressentimento, as duras palavras cobertas de razão, a moral rígida e exacerbada, o controle e poder, as diversas formas de chantagens emocionais, a atitude estóica e o desejo ascensional, foram transformados através do contato e da vivencia perante os sentidos.


Mas, antes, precisou ser devorado. O desenvolvimento do feminino abriga enfrentamentos com o Lobo Mau e tudo aquilo que ele representa.
Enfim, o caçador vem em auxílio daquela que está aberta e pedindo sua proteção.


No início havia apenas mulheres, depois surge o masculino negativo, junto consigo traz o aprendizado e o conhecimento dos sentidos e agora vem o caçador, o masculino positivo que salva o universo feminino de seu predador.


Em primeiro lugar o caçador representa o masculino não mais negligenciado e ignorado pelo ego e que já admite que as forças masculinas existam e que não são tão somente predadoras, muito pelo contrário, podem ser apaziguadoras e trazer leveza ao mundo essencialmente feminino, que é claramente, pesado, sério e grave, apesar de toda sua sedução sonhadora.


Em segundo lugar, o caçador especificamente, sai em busca de animais na floresta. Ele os detém com armadilhas e sagacidade. O caçador não usa apenas sua razão, usa seus sentidos e é por isso que obtém sucesso. Se ele usasse apenas a razão, seria mais um desses que tira proveito financeiro da caça, pode-se dizer que ao invés de ser um caçador ele seria um predador ao estilo do Lobo Mau.


Em nossa história, o desejo reprimido que deu origem ao desenvolvimento do feminino, foi relativo ao desejo sexual. É bastante temeroso sair de um estado para o outro e geralmente, o que as pessoas mais temem é o oposto da situação, a exacerbação daquilo que foi reprimido.


Este temor é validado à medida que a gente observa o quanto as pessoas vão de um extremo ao outro. No entanto, ir de um extremo ao outro significa que o conteúdo não foi elaborado, de forma a assustar e se exacerbar sem que haja controle do ego.


O conteúdo aqui apresentado foi devidamente enfrentado e admitido pelo ego que lhe deu o devido valor e soube que do mesmo modo que foi devorado pelo desejo ascensional ou instinto religioso, poderia ser devorado pelo instinto sexual.


Como no enfrentamento da situação percebeu a capacidade do masculino e a beleza dele, abriu caminho para ser cuidada pelo caçador, mais um dos conteudos psiquicos.


O caçador coloca limite ao instinto para que o ego não se entregue aos seus desejos de violência, de brutalidade e selvageria.


E assim:


Todos comemoraram a liberdade conquistada, até mesmo a vovó, que já não se lembrava mais de estar doente, caiu na farra.


"O lobo mau já morreu. Agora tudo tem festa: posso caçar borboletas, posso brincar na floresta."


Dessa vez, os sentidos não perderam e nem ganharam, tudo ficou ajustado entre a razão e os instintos pelo caçador. Todos podem comemorar a liberdade conquistada, a liberdade de ir e vir na floresta, apreciar os sentidos instintivos sem ser por eles devorado.


Chapeuzinho Vermelho é um conto que nos alerta sobre o perigo em se conservar menina ao invés de se tornar mulher capaz de se guiar e conter seus instintos sem, necessariamente, extirpá-los da consciência ou por eles ser possuído.

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