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Deuses da Consciência e A Dissociação Psíquica Emocional

10 mar 2013 às 13:19
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Por mitologema, de acordo com a definição de Károly Kerényi, entende-se um complexo de material mítico que é continuamente revisitado, encarnado e reorganizado no decorrer da história política, psicológica e social da humanidade.

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O mitologema é um modelo arquetípico, que ao ser acrescido com os elementos próprios de uma dada cultura, dá origem ao mito. Um exemplo disso é a imagem primordial do sol, cuja adoração pelos povos primevos deu origem aos mitos de Apolo, Cristo, Lucífer, Osiris e Mitra, todos eles símbolos do Sol, de claridade, clareza e, por conseguinte, de consciência.

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Apolo traduz o símbolo da consciência e da ordenação das coisas; Cristo traz a mensagem da consciência do amor e do acolhimento; Lucífer, por sua vez, representa a lucidez que pode cegar ou curar.Seu nome significa "o portador da luz". O mito de Osiris e de Mitra, representam o ciclo solar e indentificados que são pelo Sol, ambos simbolizam a continuação dos nascimentos e dos renascimentos abrangendo o estado da consciência através do ciclo vida-morte-vida da natureza.


Albert Camus ao introduzir sua filosofia do absurdo, utiliza o mito de Sísifo e em seu último capítulo compara o absurdo da vida do homem com a situação de Sísifo, uma personagem da mitologia grega, condenado a repetir sempre a mesma tarefa de empurrar uma pedra de uma montanha até o topo, só para vê-la rolar para baixo novamente.


Camus apresenta o mito para trabalhar uma metáfora sobre a vida moderna, como trabalhadores em empregos fúteis em fábricas e escritórios. "O operário de hoje trabalha todos os dias em sua vida, faz as mesmas tarefas. Esse destino não é menos absurdo, mas é trágico quando apenas em raros momentos ele se torna consciente".

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Mas, Camus complementa que não é o mundo que é absurdo e nem mesmo o pensamento humano. O absurdo surge quando os humanos precisam entender a satisfação e o prazer pela irracionalidade do mundo, quando o apetite para o absoluto e pela unidade complementa a impossibilidade de reduzir o mundo a um princípio racional e razoável.


Seu questionamento passa pelo seguinte tema: será que ao homem que conscientemente vive essa tola repetição exige-lhe o suicídio¿ E então, ele mesmo responde: "Não. Exige revolta."


Assim, vemos que no mito de Sísifo a consciência do absurdo, exige a revolta, a indignação.


Prometeu também vem simbolizar a consciência. Ele é um titã que rouba o fogo dos deuses e o entrega à humanidade e por isso é condenado a ficar preso a uma montanha onde uma águia fica bicando seu fígado que sempre se regenera. Ele é símbolo arquetípico do homem e da humanidade que despertou sua consciência e que se encontra numa batalha interior.


A consciência é fundamental para o processo de acolhimento, que é amor, como prática da liberdade. Sempre que nos atrevemos a questionar criticamente, atitudes, ações políticas, identidades e lealdades, damos inicio ao processo de descolonização. Ao descobrirmos em nós mesmo coisas há muito internalizadas como o ódio, a dita baixa autoestima, pensamentos de supremacia e enfrenta-los de modo a torna-los conscientes poderemos, então, iniciar uma revolução que se multiplica sócio politicamente.


O reconhecimento das duras verdades da nossa realidade, tanto individual como coletiva, é sem dúvida, uma etapa necessária para o crescimento pessoal e político.


Um exemplo pinçado do cotidiano: fui pagar uma conta e havia uma senhora "muito" idosa sendo atendida na fila preferencial. Logo atrás dela havia uma mãe "medianamente" idosa e sua filha na idade madura. Como a primeira senhorinha se demorasse a fazer seu pagamento e inclusive uma doação ao Hospital do Câncer, essa mãe e filha iniciaram um processo agressivo fazendo "caras e bocas", ora "bufando", ora reclamando impacientemente. A primeira senhora já estava de saída quando a filha da segunda senhora resolveu ser delicada após ter sido audível e fisicamente agressiva, perguntando à primeira idosa se a garrafinha de água que estava sobre o balcão não seria dela. A senhorinha, sem lhe dirigir o olhar, disse-lhe um enfático não e se retirou dali para verificar papéis em sua bolsa no balcão atrás da fila. Nesse instante, a filha e a mãe dirigiram à primeira senhorinha palavras de baixo calão e a praga de que ela morreria sozinha. Por algum motivo, a mulher que estava em minha fila e que, aparentemente, não tinha nada com a situação agressiva que ali se desenrolava, juntou-se as duas e disse em alto e bom som: "Está com o pé na cova e não aprende. É por isso que não dou lugar para gente velha e nem regalias." Bem, diante disso tudo fiz uma intervenção de modo a deixar a senhorinha satisfeita.


Mas, o que vemos nessa cena é uma agressão, um ódio desproporcional ao fato em si. Portanto, é um ódio projetado, significando que esse ódio vem de longa data e sua razão seria encontrada na história dos sujeitos agressivos do exemplo dado. Sendo o ódio ou a manifestação da raiva, uma defesa do sujeito, requer saber o que há por detrás de tal defesa.


Todo e qualquer animal, incluindo o homem, só agride se estiver com medo ou fome. Do que tais pessoas teriam medo¿ De que teriam fome¿ A resposta poderia ser encontrada examinando mais detalhadamente sua ocupação da existência. De qualquer modo, ao encontrar-se "o" ou "os" motivos encontraríamos também o genuíno sentimento da tristeza.


Assim, a atitude agressiva dessas mulheres está contaminada, o fato se encontra dentro de uma dimensão de doença psíquica emocional e não quer dizer que sejam más, apenas que estão sofrendo e racionalizando seu sofrimento e, inconscientemente, se utilizando do mecanismo de projeção agressiva. Ao invés de racionalizar, é necessário raciocinar.


Compreender a situação pode nos trazer a serenidade e a empatia, mas não significa que não devemos empregar uma atitude forte e delimitadora ao comportamento doentio. Podemos amar e acolher a pessoa, mas não a sua doença, caso contrário, não distinguindo uma coisa da outra, seremos capturados pela mesma doença psíquica emocional, porque, como a terceira mulher que estava na minha frente, todos nós, temos em nossa estada existencial, situações de humilhação e de tristeza que por não ser consciente pode ser atualizada de modo projetivo e, claro, agressivo.


Dessa forma, introduzo outro conceito: a dissociação é uma experiência psicológica de quando uma pessoa se encontra desconectada de seus sentidos sensoriais, de sua sensibilidade, de seu auto senso, de seu sentido histórico coletivo e ou pessoal.


No exemplo acima citado, as mulheres que expressaram sua agressividade contra a senhorinha, se encontravam desconectadas dos sentidos. A sensibilidade não estava presente. A auto critica e o senso de si mesmo também não estavam presentes, o que nos leva a crer que desconhecem o seu sentido histórico pessoal e coletivo.


Atrás da grande ira há o medo da perda e atrás do medo da perda existe a tristeza talvez por já haver perdido. E o ressentimento o carrega diretamente ao ódio.


A dimensão de saúde é estar conectado com a verdade dura: a tristeza, a dor e o sofrimento. Enfrentá-los e lidar com essa tristeza e dor até que sobrevenha a consciência de que faz parte de nossa existência sofrer todas as paixões, enlutar pelas diversas formas de perdas, permitir esse tempo de reorganização psíquica e emocional para finalmente, seguir adiante. Cair, levantar, andar, correr, voar, cair, levantar, andar, correr, voar... Sem jamais suprimir os sentidos, sem jamais mentir para si mesmo sobre o que sente ou a emoção que nos está atravessando nesse momento. Acolher a perda e a finitude.


A dimensão da doença nos quer ressentidos, cheios de raiva, de auto piedade, de egoísmo, sem afetos e emoções genuínas, com a máscara da indiferença. A vida fica sem sentido. Sem o sentido da vida, embarcamos na depressão. Acaba-se por acreditar que a culpa é do outro, não importando se esse outro é uma senhorinha encurvada pelos anos ou uma criancinha que chora devido a uma dor de ouvido e ou um marido que esqueceu o aniversário de casamento, ou o pedestre que demorou em atravessar a rua, etc., etc. e tal.


Uma vez que escolher atitudes e pensamentos dentro de categoria de força, ou melhor, dentro da dimensão de saúde e não da doença, nós vamos, instintivamente verificar que possuímos os recursos para enfrentar essa e aquela dor. E movendo-se através da dor que somente a consciência pode redimensionar, encontraremos a serenidade que a ética da dimensão de saúde aplicada a toda e qualquer situação, definitivamente, nos traz.



OBS.: Estou formando um grupo para estudos de CONTOS DE FADAS. Se tiver interesse entre em contato com 043-9957.0843 – Consultório de Psicologia e Centro de Estudos Junguianos Sonia Lunardon Vaz – Londrina – PR.


Livros consultados:
CAMUS, Albert - O Mito de Sísifo - http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/clubedeleituras/upload/e_livros/clle000131.pdf


JUNG, Carl Gustav – A Natureza da Psique –http://blogebooksgratis.blogspot.com.br/


NEUMANN, Erich – A Criança- http://blogebooksgratis.blogspot.com.br/

KERENYI, Karl - Gods of the Greeks – London : Thames and Hudson- brochure - edition 1974.


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