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EROS E PSIQUE - Do mito até a terceira tarefa

27 set 2011 às 23:20
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Afrodite, venerada em todos os templos como deusa do amor e da feminilidade, teve muitos amantes e dentre eles o seu filho Eros, o deus do amor.
Uma mortal de nome Psique ameaça o reinado de beleza de Afrodite. De todas as partes acudiam forasteiros para ver e reverenciar não mais a deusa do amor, mas uma mera princesa.

Irritada com a competição e com o desleixo ao seu culto. A deusa pediu ao seu filho Eros para vingá-la e destruir a jovem beldade, fazendo-a casar-se com o mais repulsivo dos homens.

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Mal sabia Afrodite que Psique não se sentia amada por que todos que dela se aproximava a adoravam feito uma imortal, não a tocavam como mulher.

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Temeroso pela filha e já prevendo a ira de Afrodite, o rei consulta o oráculo que já fora orientado por Afrodite. Este a condena às núpcias da morte com um monstro cruel e viperino que aterroriza os mortais e inspira horror às trevas do Rio Estige.


Em obediência ao Oráculo, os pais abandonam a jovem às núpcias da morte amarrada a um mastro junto ao penhasco. Enquanto isso Eros prepara suas flechas do amor para dar cabo ao desejo de Afrodite cuja intenção é a de fazer com que Psique se apaixone pela mais horrenda e repulsiva criatura.


No entanto, o imprevisível acontece até mesmo com os deuses.

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Ao se aproximar da princesa, Eros se fere com a ponta de sua flecha e por ela se enamora. Invoca o vento Zéfiro e para sua surpresa Psique se vê transportada por Zéfiro a um palácio encantado onde passa a desfrutar de uma vida paradisíaca com Eros, seu amante invisível. Eros a alertou de que jamais lhe olhasse.


As irmãs mais velhas de Psique pedem para fazer-lhe uma visita. O vento Zéfiro mais uma vez faz o transporte ao palácio. Diante do cenário idílico e fascinante, as irmãs corroídas de ciúme e inveja, resolvem destruir o paraíso da caçula incentivando-a a olhar para seu amante, afinal, diziam elas, ele poderia ser um monstro a enganá-la.


Psique acende um candelabro a óleo e se posiciona para observar o marido que dormia. Vê ao seu lado o próprio Eros e loucamente se apaixona. Porém, uma gota de azeite fervente cai no ombro do amado. O deus desperta e sem dizer palavra, abandona a amante que de agora em diante buscará incessantemente encontrar o amor perdido.


Eros se aloja aos cuidados da mãe por que sua ferida lhe arde e queima tornando-o acamado e doente. Mas antes dos cuidados, Afrodite, a mãe que não quer nora, descarregou sobre o filho uma saraivada de insultos.


Psique, cheia de dor, vagueia de cidade em cidade em busca de Eros. Pede auxílio a outras deusas que por temerem Afrodite não a auxiliam.


Para todos os males do amor, só há um remédio, implorar no templo de Afrodite. Cheia de inquietação e tristeza Psique vai ao encontro da sogra. A deusa do amor a recebe com olhar feroz e insultos. Como se não bastasse sua investida contra a indefesa menina, lhe impõe quatro tarefas absurdas e perigosas para então lhe auxiliar a alcançar o seu amor perdido.


Em sua primeira tarefa, Psique deverá, em uma só jornada noturna, separar um enorme monte de cereais por espécie. Ao verificar que o monte era imenso e que teria de separar grãos de trigo, cevada, milho, grão de bico, papoula, lentilha e fava, Psique se viu sem esperança de fazê-lo a tempo. Daí tudo estaria perdido. Mas, as formigas vieram em seu auxílio e com o trabalho em conjunto, Psique separou-as a tempo.


Afrodite, então, lhe ordena a segunda tarefa: trazer para a deusa do amor flocos de lã de ouro que cobrem o dorso de carneiros ferozes que vagueiam num bosque à beira de um rio caudaloso.


Ao se deparar com os animais, Psique se põe a chorar e por saber que jamais conseguiria lhes roubar a lã, decide no rio se afogar. Foi nesse momento que um humilde junco que brotava do rio evitou sua morte ensinando-lhe como executar a ordem divina. Bastava que colhesse a lã dos galhos e das cercas por onde eles, eventualmente se enroscavam.


Cumprida a tarefa, para desgosto de Afrodite que lhe imputou o mais perigoso dos trabalhos até agora. Psique deveria ir à busca da água perigosa. Afrodite lhe entregou um jarro de cristal e ordenou-lhe que escalasse um rochedo íngreme e enchesse o jarro numa fonte da qual rolavam as águas escuras que alimentavam dois rios infernais o Cócito e o Estige. A fonte era guardada por terríveis dragões.


Já diante do rochedo Psique fica tão petrificada que não consegue nem chorar. Seria impossível escalar o rochedo escorregadio e não passaria pelos dragões. O caminho seria desistir ou mesmo matar-se.


A águia de Zeus, que por outra ocasião recebeu o auxílio de Eros, abriu suas imensas asas e em socorro à amante do deus do amor passou rapidamente por entre os dentes ferozes dos dragões, encheu o jarro e o entregou a Psique.


Afrodite lhe recebeu para a quarta e fatal tarefa com um sorriso irônico e cheio de desdém. Entregando-lhe uma caixinha ordenou que descesse ao fundo do Hades e que se apresentasse a Perséfone e em nome da mãe de Eros lhe solicitasse um pouquinho da beleza imortal. Afinal, ela se consumiu nos cuidados de seu filho doente.


Dessa vez Psique não teve dúvidas de que a mãe de Eros a estivesse enviando à própria morte. Flagelada e sucumbida pelo cansaço sobe a uma torre a fim de saltar de lá e morrer enfim.


Foi quando a torre lhe falou com mansidão para que não recuasse diante da tarefa derradeira. Orientou-lhe e lhe deu ânimo. Ensinou o caminho mais curto para chegar ao mundo dos mortos e a instruiu a levar na boca duas moedas e em cada mão um bolo de cevada e mel. As moedas eram para pagar as passagens da ida e da volta ao barqueiro Caronte e os bolos serviriam para apaziguar o cão Cérbero na entrada e na saída do Hades.


Ao longo do percurso, três tentações teriam de ser vencidas. Depois de um bom trecho do caminho, um senhor manco sobre um burrico também manco lhe pediria para que apanhar algumas lenhas que caíram das costas do burrico. Psique deveria seguir adiante como se não lhe tivesse ouvido. Já dentro da barca de Caronte, em meio ao rio Estige, um velho se ergueria das águas e com suas mãos pobres iria lhe implorar para que o puxasse para dentro da embarcação, mas Psiqué não deveria se deixar vencer pela piedade.


Após a travessia do rio, ao se encaminhar para o palácio de Hades e Perséfone encontraria algumas velhas tecedeiras que lhe solicitariam ajuda. Novamente, não deveria atendê-las e que prosseguisse em seu caminho até o portal que estaria sendo guardado pelo cão de três cabeças, Cérbero. Para enganar o cão, deveria lançar-lhe um dos bolos, enquanto as três cabeças brigam para abocanhar a oferenda, ela deveria ultrapassar o portal.


Na mansão do casal, rei e rainha do inferno, seria gentilmente atendida por Perséfone que lhe ofereceria um suntuoso jantar. Psique não deveria se sentar a mesa e nem comer o que lhe fora oferecido. Sentar-se-ia no chão e aceitaria apenas um pedaço de pão preto. Assim que Perséfone lhe entregasse a caixinha já com o conteúdo encomendado por Afrodite, deveria imediatamente refazer o caminho de volta. Em hipótese alguma poderia abrir a caixinha que continha a beleza imortal.


Psique atendeu todas as instruções e recomendações da Torre. No retorno do mundo das trevas, já em plena luz do dia, a curiosidade lhe assaltou e ainda pensou que poderia pegar um pouquinho da beleza imortal para se fazer mais bela para seu amante.
No entanto, a caixinha não guardava a beleza imortal, mas sim o sono estígio que se apossou de Psique tornando-a imóvel como um cadáver.

Eros, já curado do ferimento e morto de saudades de sua esposa, adivinhou o que se passava. Escapou de seu cárcere e voando junto a Psique, recolocou o sono letárgico dentro da caixinha e despertou sua amada. Pediu-lhe que cumprisse a missão e que ele faria o resto.

Temeroso da ira materna, Eros pede a Zeus que advogue em sua causa. Zeus aceitou o encargo e ordenou uma assembléia com todos os deuses e falou:


"...Chegou o momento de tirar-lhe a oportunidade de praticar a luxúria. Cumpre aprisionar-lhe o temperamento lascivo da meninice nos laços do himeneu. Que Eros possua Psique e a conserve para sempre, que goze de seu amor e a tenha em seus braços por toda a eternidade...".


Dito isso e aprovado por todos os deuses, Hermes, o mensageiro, rapta Psique da Terra para os Céus do Olimpo. Assim que ela adentrou a mansão dos deuses, Zeus vai ao seu encontro com uma taça de ambrosia, a bebida da imortalidade e lhe ordena: "Bebe dele todo e seja imortal. Seu casamento com Eros será perpétuo." E sob as bênçãos de Afrodite, Eros e Psique se "re-uniram" para sempre.


Logo após o enlace, nasce-lhes a filha que na língua dos mortais se chama Volúpia, que significa prazer e bem- aventurança.



UMA POSSÍVEL ANÁLISE DENTRE TANTAS OUTRAS


Afrodite nasceu a partir da genitália de Urano, que lhe foram cortados e lançados ao mar, onde se fertilizaram dando origem à deusa.
Por sua vez, Psique nasceu de uma gota de orvalho que caiu do céu sobre a Terra.


Afrodite representa a feminilidade no seu estado oceânico, propensa ao estado pré-consciente de fusão e indiferenciação, instinto básico e funcional de procriação.


Psique nasceu na terra que é símbolo de consciência fecunda. A gota de orvalho é bem mais acessível e controlável do que as águas oceânicas. Ela é a anima, do verbo grego "psychein", soprar, respirar, significa tanto sopro quanto o princípio vital.


Eros é o amor personificado, do verbo grego "erasthai", desejar ardentemente, significando com exatidão, o desejo incoercível dos sentidos.


O instinto básico e funcional da procriação instiga o desejo ardente e ao mesmo tempo é uma característica própria de si mesmo. Por isso, Eros é tanto o filho quanto o amante de Afrodite.


No mito, veremos que sobre o signo de Afrodite que, afinal, é a mentora de todo o processo, tanto Eros quanto Psique se diferenciam, se desatam do jugo do instinto da procriação.


Eros, o desejo incoercível dos sentidos, encontra continência em Psique, a anima de consciência fecunda, o princípio vital que encerra em si mesmo tanto a razão quanto o instinto do prazer. Daí terem dado origem à Volúpia, o prazer pela vida, a bem-aventurança!


Lúcio Apuleio, em seu romance intitulado "Metamorfoses" conta que a mais grave ofensa para Afrodite foi a crença corrente entre os homens de que "o céu chovera novo e fecundante orvalho e de que a terra germinara, como uma flor, uma segunda Afrodite (Psique) em todo viço de sua mocidade".


Assim se estabelece o conflito entre a deusa e a mortal. A ira e a inveja de Afrodite acabam por endereçar seu filho à rival.


O conflito assim estabelecido parece encenar uma peça de teatro humana, onde a mãe super protetora e incestuosa, não admite a nora, numa tentativa de perenizar o menino, impedindo-o de ser homem.


Psicologicamente o que está acontecendo com essa mãe? O que a leva nutrir um sentimento de posse pelo filho? As perguntas certas podem nos levar a uma resposta nem sempre agradável, mas de uma verdade emocional que transforma.


Psicologicamente, está acontecendo uma insatisfação em relação a sua experiência como mulher-fruto e, conseqüentemente, um apego emocional à sua condição de virgem-flor.


Em outras palavras, algum complexo psíquico a mantém refém de uma condição imprópria para a sua idade e responsabilidade afetiva e social.


Permitir o crescimento do menino significa que está envelhecendo, mas ainda há dentro de si, uma menina que grita por se libertar, por ser amada, viver e amadurecer. Seu próprio desenvolvimento foi, por alguma razão, interrompido. Dentro dessa perspectiva é compreensível sua ira e inveja contra a juventude da nora, bem como da possibilidade dessa nora viver o esplendor do amor. A nora não está apenas "roubando" seu filho, está lhe "roubando" a possibilidade de viver através desse filho.


Nessa peça teatral para os humanos, Afrodite, mãe e amante de Eros, representa o feminino ou a anima, inconsciente. Como esse feminino vive na sombra da consciência, ele aparece carregado de conteúdos inconscientes, por isso que essa mãe é emocionalmente instável, coercitiva, possessiva, invasiva, chantagista e incestuosa.


Psique representa a anima ou o feminino ideal. A imagem arquetípica de uma mulher perfeita. O lamento de Psique é causado devido ao fato de que os homens não amam a mulher que é, mas sim a mulher idealizada que fora nela projetada por esses homens.


Afrodite e Psique precisam uma da outra. Através de Psique, quero dizer, de sua capacidade de fazer uso da razão e enfrentar seus conflitos psicológicos, Afrodite amadurece, acolhe sua nora, admite o homem em seu filho e fica feliz com o casamento de ambos.


A partir da jornada que impõe a Psique, a menina em Afrodite se desenvolve e se torna mulher. Através de Afrodite-bruxa, quero dizer, através de seu confronto com a sombra, seus instintos mais loucos, Psique é lançada em suas quatro tarefas o que a torna afetivamente madura para o amor.


AS NÚPCIAS DO PONTO DE VISTA DA MULHER


Os pais de Psique representam o princípio paterno e materno do sujeito, que por hora, não possuem energia suficiente contra o complexo psíquico instalado, o complexo do masculino. Na história eles a abandonam. Na experiência psíquica do sujeito significa que este indivíduo não está cuidando se si mesmo e se encontra em autoinsuficiência.


O oráculo, que para o sujeito significaria sua instância psíquica mais sábia, sua sensibilidade sempre a ser consultada pelo ego, encontra-se manipulado pela sombra, conteúdo ainda desconhecido pelo ego, Afrodite que representa seus instintos mais loucos. Desse modo, sua sensibilidade falha para com o ego que está em sofrimento.


Psique encontra-se atada a um tronco junto ao precipício, donde virá o monstro repulsivo para possuí-la.


O ego está sem ação, engessado, amarrado. Sua única saída é olhar para o precipício e encarar o monstro. Sua única saída é acolher o conteúdo do inconsciente que num primeiro momento, se parece com um monstro, posto que o ego teme o desconhecido principalmente em si mesmo.


Essa criatura horrenda representa o princípio masculino, o animus, que se encontra tão soterrado e rejeitado pela consciência que não tem mais forma humana.


No entanto, quando o ego o acolhe, ambos se transformam. Aqui nessa história, o monstro dá lugar a um outro aspecto do animus, Eros, o deus do amor que ainda não possui uma forma humana, mas é bem mais agradável. Psique, ora tratada aqui como sendo o ego, também se transforma. O vento Zéfiro significa o espírito, aquilo que nos anima, ainda representando outro aspecto do mesmo arquétipo do animus. Assim, de uma condição engessada e atada, passa para uma condição volátil e animada.


Agora já se encontra frente ao ego, ao invés do precipício que é o caos do inconsciente, uma construção, uma forma mais sólida e mais próxima da consciência, o palácio do casal.


Essa primeira sizígia ou união entre Psique e Eros vem representar a junção entre o ego e o animus. Sendo o animus a representação do homem idealizado e perfeito, é um verdadeiro deus. Para o ego que saiu da condição anterior de rejeição e ódio ao masculino essa sizígia é um tremendo avanço para a sua maturidade afetiva. Mas ainda corre grande perigo.


Quando o ego se apaixona, esse deus perfeito e amado que é o animus, é projetado na pessoa que se deseja. E o homem que ali está na relação com esse ego, não é o deus que o ego está vendo. No prazo entre um mês e três anos de relacionamento, o ego se dá conta que está se relacionando apenas com um humano e não com um deus, e esse pode ser o fim da relação. Porque a paixão é da ordem divina.


Para viver o amor sem o divino pelo meio, há de se separar o que é humano daquilo que foi projetado no outro. Enquanto o amor estiver com a marca do divino, ele é narcísico, porque o ego está amando a si mesmo no outro e as diferenças nem podem existir por causarem conflitos neuróticos e desilusões. Como já nos disse Caetano Veloso, Narciso acha feio o que não é espelho.


De outra feita, superando essa fase com sucesso, o amor agora se encontra justamente nas diferenças e se fortalece na cumplicidade.


AS NÚPCIAS DO PONTO DE VISTA DO HOMEM


Por esse angulo, consideremos Eros como o ego. Psique é a anima ideal e Afrodite é o aspecto da anima negativa que torna o homem tomado de animosidade perversa além de eternizá-lo em menino, afetivamente imaturo para a união com o outro. Ora ele é um monstro assustador, ora é um menino mimado e desprotegido ou um jovem de comportamento lascivo, um vento que rapta a mulher e a coloca num cárcere privado.


Emocionalmente ligado a mãe, provoca os sentimentos de amor para logo sair voando em busca de nova aventura. Se sente acima do amor terreno e o usa como arma de poder. A conquista é o que lhe importa. Só alimenta a manutenção da união se for para manter ou ganhar poder.


O ego necessita trazer à consciência sua anima negativa, ou, inconsciente. Ao se confrontar com esse aspecto que lhe é aterrador, o ego e a sombra se transformam. Ele, então, se sente fortalecido para deixar o ninho materno e seguir adiante na conquista do amor duradouro. Já não deseja uma mulher que dorme um sono letárgico. Antes, deseja uma mulher acordada numa relação de igual para igual.


Para efetivar seu desejo o ego ainda necessita desobedecer a sua mãe, ou melhor, desobedecer ao seu aspecto de anima negativo e buscar Zeus, o representante paterno em todo seu esplendor, o princípio paterno que o habita e que lhe outorgará a devida autoridade para realizar um amor duradouro e de responsabilidade afetiva.


Com essa autoridade recém adquirida, o ego impõe o devido limite em Afrodite-bruxa, anima inconsciente, que através da relação ego e anima negativa, se transforma em um princípio materno adequado. Assim sendo, a anima dita negativa por que estava inconsciente, agora, não apenas comparece ao casamento quanto se regozija pela união.


Ainda desse mesmo ponto de vista, Psique como anima ideal ascende ao Olimpo, significando que o ego a colocou em seu devido lugar, no céu. A mulher ideal não existe. Agora lhe é possível uma relação adequada e duradoura com uma mulher da terra. Sua anima o habita e lhe confere discernimento afetivo, responsabilidade afetiva e prazer pela vida. A volúpia de viver e a boa aventurança.


ENQUANTO ISSO...


Psique se encontra cativa em uma gaiola dourada. É tudo tão idílico. Seu amante é divino e tudo é perfeito. No entanto, quando ele se ausenta ela se põe a pensar e duvidar. As irmãs representam seus pares psíquicos do princípio feminino. O espírito da animação e de elevação, Zéfiro, lhe trás as irmãs.


Através da função pensamento, o ego se distancia do problema que o cerca. Olhando-o do alto e de certa distância, o percebe de modo mais objetivo e evidenciado. As perguntas, advindas da curiosidade, lhe afloram. Afinal, porque não permite que o olhe? O que estará escondendo? Diz que é para o meu bem, mas não seria para seu próprio bem? E por que me pede para ficar distante de todos protegida nesse palácio? Ou ele estaria se protegendo?


O ego enfrenta o conflito e com a luz da consciência cujo combustível é o óleo que unge e conserva, ou, uma disposição em ver aquilo que é e não fugir, mas ficar e lidar com a diferença e o conflito que advir desse ato preferindo a verdade que dói à mentira que adoça, Psique o despoja de seu poder divino.


Devido a tal desobediência, Eros foge para os braços da mãe, abandonando Psique cujo castigo é a ausência do ser amado. Sem o animus para animá-la, Psique vagueia cheia de dor e aflição em busca do amor perdido.


No momento em que o ego sofreu a consciência de que a idéia de um amor perfeito e idealizado não existe e que esteve, tão somente apaixonado pelo amor em si mesmo, se queda em angústia, melancolia, dor e logo se instala a depressão e mesmo idéias suicidas.


Para superar esse estado, o ego terá de se entender com o seu complexo psíquico materno. A mãe, a sogra, a bruxa. O princípio materno terrível. A mãe má que o faz andar e descobrir suas potências e não aquela boazinha que lhe conserva protetoramente ao colo.


O ego se tornou mais acolhedor ao masculino na medida em que o buscou nas diferenças revelando sua identidade, de modo que esse complexo psíquico masculino ganhou maior leveza, traçando um paralelo com o espaço cósmico e seus planetas, se um planeta perder massa, naturalmente afetará o equilíbrio dos demais, de modo que quando o complexo do masculino perdeu peso por se tornar emocionalmente mais consciente, desestabilizou o complexo materno que deu origem, dentro de uma escala psíquica, a misandria, um fenômeno de ordem social que se caracteriza por ódio ao homem.


Ao se tornar emocionalmente mais consciente de ser mulher, a bruxa psíquica se rebelou e novamente a capturou. Mas, dessa vez, Psique não está mais sob o seu comando, muito pelo contrário, sabe o que quer. Ela quer viver o amor duradouro e livre tanto das ilusões divinas quanto da misandria.


Afrodite é uma deusa e poderia fulminá-la aqui e agora se assim o desejasse. Não foi o que fez. Por quê? A principal característica desse arquétipo é a alquimia. Afrodite é uma deusa alquímica. Ela enxerga a potência inconsciente e, alquimicamente, a torna consciente.


Psique venceu o orgulho e foi ao seu templo orar e implorar pelo amor. O ego se despojou de sua imensa importância e admitindo seus conteúdos inconscientes mais loucos, se debruçou para o acolhimento e, conseqüentemente, ocorreu a transformação sob a direção de Afrodite.


Naturalmente, se fosse por qualquer outra deusa, o resultado seria diferente.


O contato com o animus proporcionou ao ego um maior e melhor discernimento, possibilitando-lhe enxergar a força por detrás daquilo que antes julgava moralmente ruim ou infernal, isso lhe deu o poder de deixar sangrar sua ferida narcísica e assumir apropriadamente o seu desejo.


Agora então, Afrodite alquímica estabelece e lhe impõe quatro tarefas. O que significa que para lidar com as forças do inconsciente o ego necessita de superação em suas posturas rígidas e cristalizadas. Como já dizia a sabedoria popular: "crescer dói."


PRIMEIRA TAREFA


Em sua primeira tarefa, Psique deverá, em uma só jornada noturna, separar um enorme monte de cereais por espécie. Ao verificar que o monte era imenso e que teria de separar grãos de trigo, cevada, milho, grão de bico, papoula, lentilha e fava, Psique se viu sem esperança de fazê-lo a tempo. Daí tudo estaria perdido. Mas, as formigas vieram em seu auxílio e com o trabalho em conjunto, Psique separou-as a tempo.

As sementes e grãos representam o masculino. Psique já estava trabalhando com o conteúdo psíquico relativo ao masculino o que foi acrescentado agora foi um princípio ordenador instintual representado pelas formigas que, por sua vez, são símbolos relacionados ao sistema nervoso vegetativo.


Discernir os diversos aspectos do masculino requer tanto o acolhimento quanto uma atitude analítica por parte do ego. Uma diferenciação sexual no sentido de prazer e não de gênero, produzida pela razão e instintos, ou, uma razão sensibilizada. Pode-se dizer que nessa tarefa Psique aprendeu a opor limite à promiscuidade de Afrodite, ou, ao seu instinto de procriação fusional e indiferenciado.


SEGUNDA TAREFA


Sua segunda tarefa consistiu em trazer para a deusa do amor flocos de lã de ouro que cobrem o dorso de carneiros ferozes que vagueiam num bosque à beira de um rio caudaloso. Um junco evita sua morte e ensina-lhe como executar uma ordem divina.


Como se atesta no Egito ou no mito do Velocino de Ouro, o carneiro possui relação com o sol. O carneiro do sol que se apresenta feroz, é símbolo do poder masculino degenerado pelo sistema social. Por não dever tocar diretamente nele, entende-se que Psique não deve se identificar com esse sistema social que se apresenta competitivo e patriarcal.


O junco é o cabelo da Terra. Está associado às águas profundas em oposição ao carneiro feroz do sol, significando que o masculino nem sempre se apresenta mortal e degenerado. O fato desse princípio masculino se apresentar como um junco e não personificado na imagem de um homem, significa que Psique ainda não possui em sua consciência a idéia de um masculino íntegro, embora ela já esteja se delineando com sucesso.


Os flocos de lã de ouro que podem ser chamados de cabelos raios representam o poder masculino de fertilização. O feminino necessita ser fertilizado pelo masculino. Uma idéia negativa, misandrica, do masculino pode impedir a mulher de se utilizar de sua produtividade criativa. Estando ela identificada com o poder do masculino em sua forma degenerada, o resultado pode ser mente e afetividade árida, rigidez e cristalizações no comportamento e pensamento. Um exemplo corriqueiro e usual é que uma mulher não fertilizada pelo masculino sempre tem razão, se mostra "coberta" de razão.


Ao realizar, com sucesso, a tarefa divina, Psique aprende a se relacionar emocionalmente com o feroz campo social, competitivo e patriarcal, sem perder sua identidade feminina.


TERCEIRA TAREFA


Psique deveria ir à busca da água perigosa. Afrodite lhe entregou um jarro de cristal e ordenou-lhe que escalasse um rochedo íngreme e enchesse o jarro numa fonte da qual rolavam as águas escuras que alimentavam dois rios infernais o Cócito e o Estige. A fonte era guardada por terríveis dragões. A águia de Zeus conquista o sucesso da empreitada.


A água perigosa é o resultado de dois rios que circulam pelo Hades. Cócito é o rio das lamentações e o Estige o rio da imortalidade. O que são as lamentações senão o gemido de dor pelo que se foi e o grito para que retorne? Em francês existe o verbo "reclamèr", que significa reclamar, lamentar. "Reclamèr" também é o nome que se dá para o chamado que o instrutor de gaviões faz para que ele retorne e novamente pouse em seu braço.


O instinto que concede a sensibilidade foi para longe de Psique e seu resgate se faz necessário. Todas as neuroses se caracterizam pelo distanciamento do ego de seus instintos. A profunda cisão entre ego e instintos caracteriza a psicose.


As reclamações e as lamentações são sintomas, alerta, indício da cisão entre ego e instintos.


E o que é a imortalidade para nós mortais? Como já mencionou uma vez um velho e querido amigo fundamentado no pensamento filosófico de Deleuze e Guattari, "tudo que é importante, volta." A intensidade é imortal. É sobre a intensidade que Nietzsche trata em seu conceito filosófico de eterno retorno.


De acordo com a Wikipédia, em química e mineralogia, um cristal é uma forma da matéria na qual as partículas constituintes estão agregadas regularmente, criando uma estrutura cristalina que se manifesta macroscopicamente por assumir a forma externa de um sólido de faces planas regularmente arranjadas, em geral com elevado grau de simetria tridimensional.


O jarro é símbolo do corpo cujo conteúdo é símbolo dos sentidos que o animam, o espírito.


Psique foi instada a reunir em seu corpo a consciência dos sentidos e das intensidades de modo cristalino, transparente, puro, honesto enfim. O turbilhão da superfície, pele, e do ctônico, o mais profundo que representa os instintos.


Os dragões são símbolos de conteúdos tão profundos da psique humana que ainda se encontram sob a forma de animais assustadores e mitológicos. Uma herança psíquica que só pode ser alcançada através do intelecto. Eles representam o triunfo do ego sobre tendências regressivas da psique.


A águia de Zeus representa o vigor e a bravura atribuídos à energia psíquica masculina, bem como o olhar de águia que possui foco de atenção, enquanto que a atenção atribuída à energia psíquica feminina é difusa e geral.


Ao vencer mais esta prova, Psique reúne em si mesma, de uma maneira emocionalmente consciente, ambas as energias psíquicas. Assim se torna continente e conteúdo de si. Seus relacionamentos não estarão mais atrelados em necessidades e ou dependências neuróticas. Seu relacionamento com o amor, Eros, estará livre dos véus fantásticos que embaçam tanto a visão quanto a capacidade de amar nas diferenças.


As três tarefas a capacitam à maturidade emocional possibilitando, deveras, o encontro com o outro.


No próximo texto: A quarta tarefa e o final feliz.


Livros consultados:
JUNG, CARL GUSTAV - O Eu e o Inconsciente - Ed. Vozes - 1984 - Petropolis - RJ
_________________- A Natureza da Psique - Ed. Vozes - 1985 - Petrópolis - RJ
BRANDÃO, JUNITO DE SOUZA - mITOLOGIA gREGA - Vol.II - Ed. Vozes - 9ª edição- 1998-RJ
CAMPBELL, JOSEPH - O Poder do Mito - E. Palas Athena-1ª Edição - 1990 - São Paulo -SP


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