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Narciso e Contranarciso

31 dez 1969 às 21:33
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CONTRANARCISO

Em mim eu vejo o outro
E outro
E outro
Enfim dezenas
Trens passando
Vagões cheios de gente
Centenas

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O outro que há em mim
É você, você
E você

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Assim como
Eu estou em você
Eu estou nele,
Em nós,


E só quando
Estamos em nós,
Estamos em paz


Mesmo que estejamos a sós.

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LEMINSKI, 1983.P.12


O narcisismo tem o seu nome derivado de Narciso e ambos derivam da palavra grega "narke" que significa "entorpecido" e de onde se origina a palavra "narcótico".


Estar narcísico não é apenas se preocupar consigo mesmo sem olhar o outro e ignorar as diferenças, é também estar com os sentidos entorpecidos e, por assim dizer, estar com a capacidade afetiva entorpecida e ou narcotizada.


O estado narcísico compreende o entorpecimento da sensibilidade corporal: olfato, paladar, tato, audição e visão; de forma a comprometer toda a percepção corporal, o que significa alheamento e tédio.


Consequentemente, o narcisismo é mantenedor das posturas e conceitos engessados e cristalizados, bem como de realizações conformadas ao padrão mesmo que estas sejam contra a sensibilidade dos envolvidos.


Com os sentidos narcotizados, o corpo não se mantém sozinho nem na absorção e condução dos conhecimentos e nem na dinâmica criativa das relações, necessitando tornar-se dependente dos sentidos e da capacidade criadora de outra pessoa.


A par dessa necessidade, ocorre a inveja e a menos valia o que por si só, gera atos inescrupulosos contra o objeto da inveja.


Por outro lado, o narcísico encontra maior facilidade em atender sua necessidade de dependência através de fórmulas e regras já pré-estabelecidas, se tornando assim, um exímio seguidor e impositor de cartilhas.


Temendo mudanças e novas possibilidades, prefere manter-se longe de críticas, discussões e diferenças. A mais das vezes, não ouve o outro, adivinha-lhe o pensamento e o sentimento e assume como verdade sem levar em conta o que de fato o outro tem a dizer.


O narcísico, assim como no mito, se afoga em suas próprias idealizações e sistema. Torna-se apenas uma caricatura do corpo criativo que deveras é, acaba por resumir sua existência a uma forma vegetativa, feito a linda flor de Narciso.



O MITO EM OVÍDIO


Os textos As Metamorfoses de Ovídio se constitui no primeiro escrito a evocar o mito de Narciso. Embora sua história seja simples, o alcance de seu significado atravessa os tempos e ainda impressiona.


Ovídio conta que a beleza da ninfa Liríope instigou as paixões do rio Céphiso enquanto se banhava em suas águas. Céphiso, irresistivelmente seduzido, a violentou originando o nascimento do belo Narciso.


Descontente e insegura, Liríope buscou a sabedoria do velho Tirésias sobre o destino desse filho.
O perspicaz Tirésias previu que Narciso teria vida longa desde que não contemplasse seu próprio reflexo.


Embora tal presságio parecesse privado de sentido, o destino de Narciso viria a confirmar a previsão.


Sua excepcional beleza e compleição física não deixavam ninguém indiferente. Muitos foram os rapazes e moças completamente entregues ao seu encanto. Contudo, Narciso não se abalava e até desdenhava dos afetos ofertados.


Quando a ninfa Eco dele se enamorou e lhe ofereceu o amor, Narciso a recusou com tamanho desdém que Eco sentindo-se envergonhada e desiludida, fez uma oração na qual pedia aos deuses que Narciso sofresse o que ela e muitas outras ninfas haviam por ele sofrido: "Que Narciso goste do mesmo modo e que do mesmo modo, não possa obter o objeto de seu amor".


E é daí que o amor narcísico se origina: a pessoa ama o outro sem que o outro lhe tenha qualquer afeto. É um amar sozinho!


Sua oração foi satisfeita e assim, quando Narciso voltava da caça e foi até uma fonte para saciar a sede, imediatamente se enamorou de seu reflexo que na água se espelhava.


Dias e dias se passavam e repetidamente à fonte ele voltava para se contemplar e daquele rosto inacessível o amor solicitar.


Decepções após decepções, Narciso termina por confessar que aquele rosto não era outro se não ele mesmo.


Um dia, não podendo mais suportar a dor desse amor insensível e vão, perdendo seu vigor e sua beleza se deixou morrer ainda com os olhos presos na água as quais refletia apenas seus próprios anseios, fantasias, desejos e expectativas.


Enquanto seu corpo desaparecia, ali surgia uma flor amarela de açafrão cujo centro era cercado de pétalas brancas: o narciso.


Em outras versões, quando Narciso tenta beijar sua imagem no espelho da água, afunda morrendo afogado.


SOBRE O POEMA


O poema de Leminsk quebra um dos maiores e mais arraigados paradigmas de nossa cultura: o de que o ser humano é uma unidade.


A psique longe de ser uma, é sim um emaranhado de múltiplos complexos. E cada um dos complexos tem a sua própria autonomia. O ego é apenas um dentre tantos complexos psíquicos autônomos.


Como diz Leminsk, somos múltiplos.


O complexo psíquico a que chamo eu se deita hoje convencido de sua meta, expectativa e desejo para se levantar amanhã, com uma outra meta, desejo e expectativas influenciado agora por um outro complexo psíquico.


Para melhor compreender, basta que se verifique na sociedade os diversos personagens que a compõem e transferir para a psique a mesma formação, ou seja, a psique possui todos os personagens existentes na sociedade humana.


Se acaso ainda tiver curiosidade, disponha numa longa mesa feita de imaginação, todos os personagens dos quais se lembra da sociedade. Lance um desafio de uma questão qualquer e peça-lhes sua apreciação e possíveis contribuições.


Cada um deles lhe dará uma resposta condizente com sua personagem: mendigo, ladrão, banqueiro, empresário, menino de rua, professora, mestre de Kung Fu, faxineira, homem do campo, prostituta, pastor, freira, socialite, dondoca, dona de casa, enfim todos.


"Vagões cheios de gente, centenas", lhe darão sua contribuição sob diferentes ângulos e concepções quanto ao problema que o ego (ou uma dada cultura) apresentou.


A psique é a multiplicidade. Complexos psíquicos autônomos mais ou menos interligados e dos quais o ego só tomará consciência caso busque conhecer a voz que lhe sussurra neste ou naquele momento nas várias ocasiões do cotidiano.


Na esquizofrenia esses complexos não são contidos pelo ego como ocorre na neurose.
Para o esquizofrênico os complexos autônomos da psique invadem a consciência e se expressam sem censura. Na neurose a censura é tamanha que o ego deixa de ser maleável para assumir rígidas posturas e pior, acreditando piamente que ele é assim e que não mudará.


A palavra alteridade, do prefixo "alter" do latim, possui o significado de se colocar no lugar do outro na relação interpessoal, bem como acolher o olhar do outro como método de autoconhecimento. Assim,"eu" estou no olhar do outro. O "meu" existir no olhar do outro, "me" sensibiliza pela própria experiência do contato.


A prática da alteridade conecta os relacionamentos tanto entre indivíduos como entre grupos culturais, religiosos, científicos, étnicos, etc. As experiências particulares são preservadas e consideradas, sem que haja preocupação com o controle do poder, com assimilação ou destruição das experiências por mais diversas e diferentes que possam ser.


Sendo a diferença a base da vida social, esta se constitui numa fonte permanente de tensão e conflito onde se efetiva a dinâmica das relações. Um caráter e atitudes narcísicas permanece infantil no sentido de que permanece angariando e buscando o controle sobre tudo e todos como a criança faz naturalmente e até de modo a ser aceito como gracioso, porém, a criança mantém o controle, mas não administra a autonomia.


Na adolescência, abre-se mão do controle e sintomaticamente, busca-se o descontrole até como uma forma de autonomia.

Na vida adulta, descobre-se que o controle, bem como o descontrole, praticamente elimina a autonomia. Então, na vida adulta se mantém uma certa loucura controlada, onde se busca controlar o menos possível para adquirir maior autonomia possível. E isso significa ir para o conflito e assumir a diferença. É o contranarciso.

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