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Há quatro anos criei a personagem Perdido na Metrópole para narrar o cotidiano tropicantemente desorientado deste amigo que vos dirige os vocábulos. Passei, então, a contar minhas mazelas cotidianas através de crônicas semanais publicadas em diversos veículos pelo Brasil afora.
Com o passar do tempo, por julgar que a proposta havia perdido força e até mesmo um pouco do sentido original, criei uma coluna alternativa, na qual passei a tratar do dia-a-dia político-abobrístico do nosso país. É o caso dos artigos que venho publicando neste veículo desde fevereiro de 2006.
Contudo, a minha vida, tema central da crônica que originou o Perdido na Metrópole, deu uma sacudida, um upgrade total geral e irrestrito e voltou a ser interessante.
Sendo assim, a partir desta data, deixo para lá o comportamento esdrúxulo dos nossos homens públicos e resgato aqui a série autobiográfica Perdido na Metrópole.
Como a proposta desta coluna é a de uma espécie de Big Brother escrevinhado com apenas uma anta participante (eu), durante algumas semanas reeditarei as primeiras crônicas da série para que os leitores do Bonde não tenham de pegar o bonde andando.
Espero que gostem...
Como tudo começou
Natural de São Paulo, residi nesta cidade-mundo boa parte de minha existência, feliz e saltitante. Até que um belo dia - digamos que o dia não era lá tão belo assim - um impertinente bichinho deprê me pegou de jeito. Nasci como todo mundo nasce, curti a infância rodeado por mimos parentais em excesso e, a exemplo de Neruda, confesso que vivi, ah como vivi. Vivenciei tudo o que tinha direito. Contudo, por volta dos gloriosos 20 e poucos aninhos, meus extravagantes pós-adolescentes neurônios piraram por completo na batatinha. Alguém gabaritado veio dizer que se tratava de depressão acompanhada de síndrome do pânico, de brinde. Mesmo que não tivesse a tal da síndrome, foi aí que entrei em pânico, de fato.
Males diagnosticados busquei todas as alternativas possíveis: homeopatia, florais de Bach, Mozart, Strauss, massagens chinesas, iraquianas, xiitas, todas. Faltou fazer terapia com o Freud. Devorei uma pilha imensa de best sellers de auto-ajuda: Ame-se em Dez Lições e Sem Esforço, Como Fazer Um Escritor Ficar Rico Tentando Fazer Você Feliz, entre outras pérolas. Como nada funcionou, dá-lhe remédio!
Ingressei, meio que por inércia, em uma assustadora bola de neve alopática. Quase virei farmacêutico. Pois é. Não é brincadeira, não. Chegava em um novo médico, com cara de ameba desnutrida e dá-lhe remédio traveis novamente de novo. Muitos tratamentos fracassados depois, mudei com meu pais para uma pacata cidade no interior do estado, Joanópolis. Dizem que é a Capital do Lobisomem, mas nunca vi o peludo e uivante dito cujo, nem de relance. Mesmo sem conhecer o mito, não é que a mudança de ares ajudou? Sem desconsiderar a eficácia da medicina, o que fez com que eu conseguisse levantar de fato foi ter descoberto que era capaz de controlar minha mente. Enfiei a cara no trabalho com mais parcimônia, contei com uma mãozinha profissional aqui, outra ali, e aos poucos melhorei. Posso até dizer que renasci!
Quase chegando lá, agora com um projeto de vida... Consegui exterminar velhos hábitos, rever caquéticos conceitos, reescalonar valores e promover a tão sonhada radical guinada.
Com os neurônios recauchutados - todos os três - na virada do século, retornei à metrópole. Meio que isolado por dez longos anos, acabei ficando por fora das incontáveis novidades tecnológicas, o que inclui a celularização e a informatização da sociedade. De volta, como uma criança na fase dos porquês, passei a esmiuçar o admirável mundo novo metropolitano até me transformar neste cronista crônico que hoje lhes dirige os vocábulos. Nascia assim o Perdido da Metrópole, este vosso criado.
Com algumas particularidades redundantemente específicas inalteradas... Atrapalhado, gago (em versão remix, melhor dizendo, e só quando fico nervoso), extremamente ansioso (envio um e-mail e telefono pra saber se chegou), emotivo (choro com comerciais de ração canina), um pouco neurótico (adoro berrar com operadoras de telemarketing)... Um especialista em PNL mandou dizer também que sou amigo, bem humorado, otimista, esforçado, perseverante e, sobretudo, irresistivelmente charmoso (além de modesto, lógico).
Nesta nova e fascinante fase, como em um reality show escrevinhado, passo a contar minhas perdidas aventuras urbanas a fim de demonstrar que a vida é algo muito simples, nós é que temos o dom de complicá-la