Perdido na Metrópole

Perdido na Balada

31 dez 1969 às 21:33

Ao retornar à metrópole notei uma porção de mudanças. Pudera. Natural de São Paulo, permaneci nove longos anos afastado, residindo em uma cidade com cerca de dez mil habitantes, a interiorana Joanópolis. A pacata e aprazível localidade, hoje estância turística, ajudou um bocado no processo depressivo por que passei. Mas também, por outro lado, impediu que a avalanche de avanços tecnológicos viesse ao meu encontro. Resultado? Não acompanhei o processo de informatização bem como o de celularização da sociedade.

Sou do tempo da lauda, dos discos de vinil - as tradicionais bolachas - das fitas-cassete e de vídeo. À época, CD ainda era coisa de rico e DVD, efeito especial de filme do George Lucas. Na jurássica ocasião, até fumar ainda era fashion. Pode?


Tais radicais mudanças assustaram deveras, admito. Mas já não me assusto com mais nada. Ou melhor, quase nada. Vivo sozinho em uma quitinete minúscula no Centro de Sampa, na Avenida São João. Adotei a gastronomia do microondas. Sou um expert nesta área. Preparo uma pipoca fantástica. Pois é. É sério. Existe toda uma técnica para a introdução do saquinho, não é assim tão fácil. Fritar ovo, não dá. Explode e faz uma sujeira infernal.


Secar roupa atrás da geladeira até pode ser coisa de pobre, mas que funciona, funciona. Adoro colecionar copos de requeijão. São ótimos. Sou um dono de casa solteiro deveras prendado. Cheguei a esta conclusão após travar um longo e profundo diálogo com minhas baratas.


Antes de prosseguir com meus causos urbanos desta nova fase devo lhes apresentar meu fiel escudeiro e companheiro de todas as horas, de alma adolescente e índole sacana... O Genival, meu computador. Sim, ele tem nome. Minha alfabetizão virtual veio meio que à força. Por força das circunstâncias dos novos tempos. Um dia cheguei a pensar que o mundo virtual não seria para mim. Julguei tratar-se de um modismo passageiro, ledo engano. Hoje, cá estou resignado à frente a esta máquina-faz-tudo, mascando @s e mordendo a língua.


Nos meus novos primeiros dias de cidade grande, alguns amigos resolveram me carregar para uma balada, um lugar da hora, habitat natural de toda uma galera antenada, puglada, conectada... Aquela que nasceu baixada da Internet.


Tratava-se de uma rave. E este vosso amigo Perdido, recém chegado da clausura depressiva, sentindo-se o caipira em pessoa. O baile - ops, baile é coisa de velho... A balada sassucedeu-se em uma mansão decadente imensa, alugada especialmente para o evento. Programa de índio high-tech, digamos. Devido ao avançado da hora não havia obra alguma nas proximidades, contudo, ouvia-se um bate-estaca a todo volume. Puntch, puntch, puntch... Disseram que esta era a música. Ah é? Fiquei quietim e saltitei. Alguém que nunca vira mais gordo ou mais magro ofereceu um baseado. Aqui? No meio de todo mundo? Fumei, ué. Vô batê pa tu, pa tu batê pa tua patota. No bar, ofereceram a bebida do momento. Sem perder a pose perguntei se serviam cuba-libre. responderam como se eu fosse o Bin Laden tentando encher a cara em Manhattan. Tomei energético com Whisky. Não é que desceu? E também subiu! Uhuuu! Na seqüência, deram-me tequila. Chupei limão e engoli. Deixará você mais agitado, disseram. Mais? Por estas e por outras, desconfio que foi nesta festa que descobri o que vem a ser o tal do tão falado inconsciente coletivo.


A dança era legal, poderia bailar qualquer coisa que achariam da hora. Arrisquei valsa. Passei a remexer frenético, mais por inércia osmótica e atordoada imposição neuronial do que por vontade própria. É isso aí tio, berraram. Tio de quem? Ofereceram um dropes novo, da marca ecstasy. Não, obrigado. Fiquei com o meu, Dulcora.


A rave foi até às nove da manhã do dia seguinte. Tinha gente no chão, dormindo ali mesmo, um absurdo.

Eu era um deles.


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