Antes de buscar as roupas na lavanderia, preciso almoçar...
Veja bem, é a primeira vez que resido solitariamente sem ninguém junto. Morei a vida toda com meus pais, cercado por todas as mimações possíveis e imaginárias: café com leite servido na cama, roupas cheirosas, passadas e prontas para vestir, comida caseira sempre quentinha e na hora certa... Pois é. O mundo gira e a Lusitana roda. Não é moleza ter de dividir o apartamento com você mesmo. Não tanto pela solidão, mas pelas tarefas todas que acumulam.
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Confesso. Sim, sou preguiçoso. Não sei o porquê de ter de lavar a louça depois de todas as santas refeições. Lavo-a uma vez por semana e olha lá, está de bom tamanho. Abro uma exceção, claro, quando ela começa a ficar verde ou quando acabam os pratos do armário.
Tenho de aprender ou morrerei solteiro, eu sei. Calma lá. Aprendo aos poucos. Hoje fui ao supermercado até. Bom garoto. Faço compras uma vez por semana. Adquiro quase sempre os mesmos dois produtos, macarrão instantâneo e refrigerante de dois litros, aquele, o do mais barato. Adoro apreciar a criatividade de quem os fabrica. É incrível a quantidade de sabores que inventam para sentirmos sempre o mesmo gosto, né não? Macarrão sabor picanha grelhada (será que eles ficam ao lado da churrasqueira com um frasquinho?) e refrigerante sabor abacaxi tropical, então (tem abacaxi que não seja tropical?).
Bom, está na hora da bóia. Cozinhemos. Querem aprender como é que se prepara um macarrão instantâneo? Pois não. Ferve-se a água, abre-se a embalagem do dito cujo, despeja-se o conteúdo na água. Muita calma nesta hora. Caiu o saquinho do tempero lá dentro. Queimadura de terceiro grau no indicador direito. Com o dedo enfaixado, retira-se a água da panela para a gororoba não virar sopa. Ao separar a papa The Flash da água, cuidado para metade do almoço sabor quatro queijos suiços não ir junto. Cuidado você aí, porque aqui já era.
Antes de sair, hora do banho. Chuveiro queimado. Ahhh meu Deus! Vai gelado mesmo. Não curto água gelada nem de cachoeira. Dou um jeito, e, a exemplo de Jack, vou por partes. Lavo as mãos, os pés, as mãos, os pés, os pés, as mãos e o resto.
À lavanderia. Fica perto da minha quitinete, aqui mesmo na Avenida São João. Prontinho. Deixo o recinto com uma sacola plástica branca cheia de cuecas perfumadas. Sim, também mando lavar as cuecas. O que é que tem?
Antes de retornar ao cafofo, resolvo dar uma passadinha na banca de jornal mais próxima, bem na esquina do Caetano Veloso, aquela, a da Ipiranga. Alguma coisa acontece no meu coração...
Distraidamente, largo o alvo volume sobre o balcão e passo a olhar as publicações, pensando na morte da bezerra impressa. Um homem muito alto, de meia-idade e com panca de halterofilista adentra ao local portando uma sacola igualzinha e faz questão de deixá-la, estrategicamente, bem ao lado da minha, o infeliz.
Na hora de sair, sem perceber, lógico, esta anta que vos dirige os vocábulos, pega as duas e vai embora. De repente, vejo o tal troglodita a me catar pelo cangote com uma das mãos. Mais preocupado com a outra mão (fechada) enorme e apontada para o meu frágil nariz, começo a tremer. O truculento dito cujo só sabia me chamar de ladrão (sem contar outros "meigos" e impublicáveis adjetivos).
Não entendendo nada do que se passa, permaneço estático e mudo, mesmo porquê a gagueira não permitiria que eu falasse nada mesmo. Não dá tempo de raciocinar... O sujeito encontrara a chance do dia para bater em alguém. Os pedestres começam a parar à nossa volta, e ele berrando...
- Seu ladrão safado. Te pego, larápio.
Devolvo a famigerada sacola branca alheia e sigo andando de cabeça baixa. Sou inocente, mas ninguém sabe, uai. Escapo ileso, porém o mastodonte não tem piedade verbal e prossegue gritando atrás. A minha sorte é que o ponto turístico em questão costuma ser "de pouca circulação":
- Canalha. Batedor de carteiras. Vem aqui, calhorda.
Experiência deveras traumática. Neste dia não consegui dormir, nem com calmante. Só sosseguei quando, no dia seguinte, retornei ao fatídico lugar e falei com a proprietária da banca. Queria provar que não era um criminoso, ora essa. Ela riu. Para a jornaleira, tudo não passou de um episódio banal, tedioso até. Juro que não achei graça.
O difícil foi conseguir voltar a falar sem gaguejar... Permaneci no modo remix por umas duas semanas.