Julho de 2002, perambulo pelas ruas do centro de minha metrópole quando ouço no meio da calçada, oriunda de algum alto-falante perdido, uma voz metálica de mulher com muito sono... 33, 27, 48, 52... Procuro por todos os cantos para saber adonde é que a dita cuja sonolenta mocinha está escondida. Não, não é mais uma daquelas atendentes de telemarketing de mal com a vida, não, a voz vem de um bingo... 49, 22, 56, 21...
Três horas da tarde de segunda-feira, não é feriado, e o tal cassino autorizado está lotado... 66, 12, 18, 58... Creio que quando era mais jovem não havia toda essa facilidade para se jogar. Para fazermos uma fezinha no jogo do bicho, que sempre existiu, lembro-me que olhávamos para todos os lados na hora da aposta, com um medo danado da polícia. Hoje, por mais que insistam em dizer que é contravenção, tem jogo em tudo o que é lugar e sem pudor algum. As bancas de jogo nem se dão mais ao trabalho de colocar aqueles bilhetes vencidos para disfarçar. Na mesma onda, só que legal, bingo agora é mato... 6, 37, 41, 42... Bingo!
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Pelo que percebo, este da locutora de velório, ao menos, parece ser bem-intencionado. Parei para observar o movimento e ler a plaquinha. Diz que o dito cujo existe por força da lei número tal de tal e tanto para ajudar a Confederação Brasileira de Badmington. Ah bom. Agora sim. Mas o que é mesmo badmington? Vai ao microondas? Não? É um esporte com raquete e peteca? Ahhhh. Nunca ouvi falar. Nem no Almanaque Fontoura. Pelo número de pessoas que freqüenta este bingo apoiador, era para o Brasil ser pentacampeão do esporte, ter mais de uma centena de torcidas organizadas, a Globo e o SBT deveriam brigar pelo direitos de transmissão da final do campeonato...
E alguém ganha dinheiro jogando bingo? Além do dono da casa? Ganha, sim. mas a maioria, obviamente, perde, e muito. Este jogo, como os demais, vicia. Tem gente que deixa as calças por lá, perde tudo, como no pôquer.
Vou à casa lotérica e lembro de algo que li ou ouvi em algum lugar... Quer ganhar na loteria? Então é melhor jogar primeiro.
Compro dez raspadinhas. Esta você ganha na hora. Quero ficar rico logo. Com a tampa da caneta, raspo e sonho... Iates, Paris, Ferrari vermelha conversível, Barcelona, gravatas italianas, Milão, obras de arte na sala de casa, cruzeiros, uma cozinheira internacional que odeie macarrão instantâneo, apartamento auto-limpante, trezentos mil CDs, duzentos mil DVDs, livros, muitos livros, relógios suiços, queijos também suíços (adoro queijo), uma porção de seguranças para poder ter tudo isso... Acabo de raspar...
Ganhei! Ganhei!
Cinqüenta centavos... E perdi quatro reais.
Outra mania do momento... Máquinas caça-níqueis. Todo boteco tem. É "só" contravenção, não é crime.
Estas máquinas engana-trouxas viraram febre. Basta introduzir moedas ou notas, apertar um botãozinho e pimba... Foi-se o seu rico dinheirinho. São deverasmente espertas, te deixam ganhar à vontade e ficar feliz. Dá-lhe dinheiro! Ganha-se mais e mais e seguimos em frente. Dá-lhe dinheiro! Aumenta-se a aposta e... Perde-se tudo que ganhou. Poucos têm o autocontrole necessário para parar na hora certa. Por esta razão, já aprendi... Simplesmente não jogo.
Passo por outra rua e vejo uma enorme aglomeração. No meio do burburinho, um rapaz manipula três fôrmas de empadinha viradas para baixo com uma bolinha vai saber em qual delas. O croupier de rua movimenta tudo muito rápido mudando-as de lugar com enorme agilidade. O público tem de descobrir onde é que está a famigerada bolinha. Esta larápia brincadeira é mais velha que andar para frente.
Por falar em febre, além das fronteiras jogatínicas... Quero saber quem foi o infeliz japonês que inventou o videokê. Queria oferecer uma viagem para o Iraque... Só de ida. Existem excelentes cantores de videokê, admito. Porém, ainda não descobri algo mais irritante do que conversar em um bar quando somos obrigados a ouvir um clone de Tetê Espínola com defeito de fabricação ferindo os tímpanos sem piedade.
Bom, voltando ao sonho de ficar rico... Podem falar o que quiser, mas conheço uma única receita para ganhar dinheiro. Na realidade são duas: a que descarto de antemão é muito praticada por boa parte dos políticos, mas é melhor deixar pra lá... A outra pode levar muito tempo, exige preparo e esforço, um bom QI (quem indica) em alguns casos, certa dose de talento e um pouquinho de sorte... Já ouviram falar em trabalho?