Até mais ou menos exatamente uns cinco anos atrás meu trabalho exigia visitas esporádicas à grandes empresas do mercado fonográfico. Costumava participar de entrevistas coletivas, aquelas nas quais artistas cansados das mesmas perguntas atendem às necessidades dos que buscam sempre as mesmas respostas.
Ao ingressar em um desses verdadeiros monumentos ao capitalismo selvagem musical, surpreendi-me com um colossal esquema de segurança, minuciosamente planejado para garantir o bem-estar de quem lá está e o mal-estar de quem, no final do expediente, sabe que precisará sair e enfrentar um mundo sem nada daquilo. Não sei o porquê de tanta segurança em uma gravadora. Segurança esta, muito mais avançada que a dos cofres subterrâneos do Banco Central. Daquelas, capazes de barrar até formiga atômica, histérica e fã do Leonardo.
Como este vosso amigo escrevinhador é extremamente desligado, perdido e carente de sanidade neuronial quando desafiado por geringonças tecnológicas, creio que o leitor compreenderá a aflição vivenciada no decorrer da celeuma descrita abaixo.
Nos tempos que vovó era jovem, ao chegar em uma firma (como se dizia) passávamos por um procedimento de praxe. Bastante simples, por sinal. Restringia-se a solicitar a apresentação do RG e pronto. Muito distante da complexidade de exigências e da parafernália empregada nos tempos atuais de hoje.
Agora, para a simples entrega de um documento em um prédio comercial, somos obrigados a encarnar uma espécie de espião da KGB, amigo de Bin Laden, em visita à Casa Branca.
Muito provavelmente, partindo do pressuposto que os visitantes mantém ligações com o PCC, com o Comando Vermelho e também com as FARC, apelam para catracas de aço gigantes, câmeras bisbilhoteiras por todos os lados, detector de metais, de mentiras, de caráter, vidros fumê blindados, sem contar os seguranças imensos, bem ao estilo MIB.
Nestes recintos de segurança máxima, sinto-me um Inspetor Clouseau atuando em Missão Impossível durante a batalha final de Guerra dos Mundos.
Teria sido deveras divertido participar desta excursão ao tal parque temático de Gattaca - A Experiência Genética - caso não tivesse ficado preso à catraca logo na entrada. De tão incomensuravelmente grande e resistente, a dita cuja roda de aço parece ter sido projetada para conter hipopótamos adolescentes em show do RBD da espécie.
Como, ao sair de casa, tive a infeliz idéia de vestir um sobretudo proveniente do figurino do Matrix, acabei enroscado àquele reluzente bagulho catraquento. O travado entrevero não chamou somente a atenção dos encarregados pelo bom funcionamento do trambolho, mas, pelo alvoroço do alarido também a da CIA, do FBI, da Swat, da Cruz Vermelha, da Tropa de Elite...
Ainda atordoado, ao me desvencilhar do sufoco com o auxílio da eficiente força-tarefa de resgate, como se não bastasse, ainda tropiquei num famigerado degrauzinho-armadilha. Por pouco não fui de fuça ao chão. Contudo... Não pude evitar. Caí de joelhos aos pés da santa catraca, bem ao lado da placa da CIPA.
Já no elevador, que, de tão inoxidável, mais parecia o showroom da Tramontina, a porta fechou sem sequer terem me fornecido um manual de instruções ou uma bússola, ao menos. Onde é que diabos esconderam os botões desta joça?
Solitariamente aprisionado, com uma tremenda cara de tonto, igualzinha a de quem participa de um reality show, procurava o que apertar para fazer aquela panela de pressão subir, descer ou, no mínimo, me deixar sair. Você está sendo filmado! Estava ciente de mais este agravante, mas... Sorrir, ali, naquela situação, nem pensar. Gritar, talvez.
O ambiente tão areadamente magnânimo, ofuscou meus nada brilhantes neurônios e, consequentemente, todas as suas mil uma inutilidades. Pânico. Total, geral e irrestrito. Com os olhos voltados para uma das câmeras indiscretas, sem nada dizer, supliquei por clemência. Abriram-se as portas inoxidáveis da esperança. Neste libertário instante, uma bela, gentil e simpática mocinha (gostosa por sinal), parecida com aquela andróide do Fantástico, ensinou tintim por tintim, com lousa e tudo, como fazer aquele troço andar para cima. Meu estômago e eu subimos ao pavimento de destino sem maiores contratempos. Guardei a palha de aço da ignorância tecnológica e escapuli apressadamente da claustrofóbica pressão ascensora chegando são e salvo à sala do evento. Transpirava a cântaros e arfava feito um São Bernardo após o resgate de uma equipe de sumô nos Alpes.
Cheguei tarde demais. A entrevista coletiva já havia começado. Compus a típica e apropriada feição de nada aconteceu e, física e emocionalmente recomposto, adentrei ao recinto como um executivo norte-americano deverasmente ambientado às modernidades tecnologicamente modernas. Sorri com humilde prepotência a fim de amenizar o veredicto da pontual platéia e, como complemento, fiz questão de tecer aquele comentariozinho esfarrapado de praxe... Sabem como é, este trânsito de São Paulo, uma loucura, pior a cada dia...
Ao deixar o bunker pagador de jabá, esnobando o aparato hollywoodiano local, alheio a tudo e a todos, esqueci de devolver o crachá. Levei para casa, ué. Ainda está aqui na estante, todo chique, bem ao lado da foto que tirei com a Hebe Camargo.