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Perdido no Mundo do Genival

31 dez 1969 às 21:33

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Colagem de Silvio Alvarez
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Ao perambular pelo Centro de São Paulo, onde resido e trabalho, resolvi pesquisar e classificar alguns tipos curiosos de pedestres metropolitanos. O turista, por exemplo, é aquele que, ao perceber alguém atrás, decide diminuir o passo e caminhar feito tartaruga olhando as vitrines ou o céu. Dá vontade de voar no cangote.

O fura-olhos é aquele que tem a mania de andar de guarda-chuva, sobre a calçada, no coberto, especialmente quando não está chovendo. Este, além de insuportável, é perigoso.

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O será-que-eu-vou é aquele que vem ao encontro, empaca bem na sua frente e fica sem saber para que lado vai. Dependendo da quantidade de neurônios dos envolvidos o impasse pode durar horas.


Já o do tipo office-boy (que nem sempre é um deles) quer passar por onde não tem espaço, por onde é fisicamente impossível, sempre correndo. Todavia, o pior de todos é o sai-da-frente. Parece que a razão de sua truculenta existência é passar derrubando tudo o que carregamos, principalmente se for algo que quebra.


Mudemos de assunto. Hora de falar do Genival. Quem é o Genival? É o meu computador, ora essa.


Quando retornei à metrópole, eu era um completo analfabeto virtual. Não sabia sequer desligar o PC. Ligar é bem mais fácil.


Descobri, então, que para continuar fazendo tudo o que sempre fiz antes desta geringonç@ existir seria necessário saber usá-la. Ou seja, ou aprendia informática ou parava de trabalhar. Aprendi, ué.


Com muito custo ensinaram-me o beabá. Meu professor tinha experientes e internéticos 16 aninhos e uma paciência semelhante a de seqüestradores do PCC encurralados pela Tropa de Elite. Covardia. Não dá para competir com quem já nasceu sabendo. Genival, meu PC de índole sacana, tem mais ou menos exatamente o mesmo temperamento. Meu fiel comp@nheiro chegou em casa meio que no susto. Eu precisava de um computador de qualquer maneira. Um colega de trabalho deu um jeitinho aqui, cedendo a carcaça, o dono de um site deu outro acolá e entrou com a placa-mãe, minha vizinha portuguesa colaborou com as caixas de som e o teclado... Foi assim que o Genival nasceu. Digamos que é quase um computador-monstro, coitado. Mas funciona que é uma maravilha. Ele até pode ser esquisito, mas é meu amigão de todas as horas.


Antes da chegada do Genival, falava muito ao telefone. Com o advento da Internet, telefonema virou cafonice, além de gasto desnecessário, lógico. E-mail é ótimo, de fato, mas impessoal demais. Costumo mandar mensagem e, ansioso pela resposta, não suportando esperar, ligo para o interlocutor e conto tudo, antes mesmo dele ter tempo de abrir a caixa-postal.


Devo admitir também que não mantenho um relacionamento lá muito amigável com a tecla Caps Lock. Quem foi que inventou este treco? Sem mais nem menos relo o dedinho e passo a escrevinhar tudo com letras maiúsculas. Um inferno. Dizem que, segundo as regras da internetiqueta escrever com maiúsculas é o mesmo que berrar. EU SEI!


Um amigo aconselhou utilizar a tal da cópia oculta ao enviar mensagens coletivas. Confidenciou, inclusive, que existem programas espiões especializados em procurar @s para catá-las na maior cara dura e vendê-las a peso de ouro. Fiquei apavorado. Na noite deste dia em questão, sonhei que estava sendo perseguido pela @ assassina.


Por falar em perder o sono... Também o perdi nas três vezes que foram apagados todos os meus arquivos, assim, do nada. Meses de trabalho jogados fora. Por que você não fez um back up, inquiriram-me? E eu lá ia saber que era preciso fazer esta repimboca da parafuseta com nome de maquiagem?


No mundo virtual tudo é perfeito, ou quase. Mas... Quando a Internet sai do ar ficamos com aquela cara de Evo Morales em Davos, né não?

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Foi desta forma que este vosso amigo escrevinhador, perdido e meio caipira, atravessou as portas da esperança do século XXI. A tecnologia mudou tudo. Só que rápido demais.


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