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Praticantes de musculação demonstram frustração quando não atingem o padrão físico idealizado - Reprodução
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Prejuízos à saúde

Anabolizantes continuam em alta nas academias

Agência Fiocruz
31 dez 1969 às 21:33
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A questão estética, especialmente o imediatismo na obtenção do corpo desejado, é a principal motivação alegada por quem usa ou já usou anabolizantes – substâncias sintéticas relacionadas aos hormônios masculinos que produzem o aumento da massa muscular e cujo consumo não terapêutico pode provocar uma série de prejuízos à saúde. A conclusão é de pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA). A equipe saiu a campo, matriculou-se em academias de ginástica, conheceu as rotinas desses estabelecimentos, observou a dinâmica das interações sociais e, por fim, entrevistou 43 frequentadores que já haviam utilizado anabolizantes. Os relatos apontam para o uso dessas substâncias por causa do desejo de atingir rapidamente "o corpo ideal", com massa muscular aumentada e definida, isto é, um corpo adequado aos padrões valorizados na sociedade e disseminados pela mídia.

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Definir a musculatura e erradicar a gordura, considerada a grande vilã no caminho do corpo perfeito, foram objetivos frequentemente citados pelos entrevistados, que tinham entre 18 e 35 anos. A pesquisa foi feita em três academias: uma localizada em um bairro de classe média de Salvador e duas em bairros populares da capital baiana. A preocupação com a estética foi a principal razão que levou os participantes a praticarem musculação, tanto no bairro de classe média quanto nos populares. "É interessante notar a transformação nos signos do corpo musculoso, que no passado, além de se associar ao poder masculino, denotava também o trabalho manual e a condição proletária. Na contemporaneidade, entretanto, o músculo perde esta última conotação e se torna ícone cultural altamente valorizado, simbolizando vigor, saúde e sucesso", diz o artigo, assinado pelos pesquisadores Jorge Alberto Bernstein Iriart, José Carlos Chaves e Roberto Ghignone de Orleans, do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA.

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Embora o desejo de ter um corpo musculoso fosse comum, a forma de utilizar os anabolizantes variou entre as academias. Na academia de um bairro popular, os pesquisadores observaram o uso explícito: os praticantes conversavam e até faziam brincadeiras sobre os anabolizantes e aplicavam as injeções uns nos outros antes de iniciarem a musculação; além disso, na lixeira do banheiro, foi possível encontrar grande quantidade de seringas e agulhas descartáveis, utilizadas nas aplicações. Já os entrevistados do bairro de classe média buscavam ocultar o uso dos anabolizantes: eram reservados nas conversas sobre o assunto e não faziam as aplicações no espaço da academia.


Em busca do "o corpo ideal"


Outra diferença diz respeito ao tipo de anabolizante utilizado. Nas academias dos bairros populares, prevaleceram as substâncias com preços mais acessíveis e chamou a atenção dos pesquisadores o grande consumo até de produtos veterinários. Já os frequentadores da academia de classe média utilizavam anabolizantes mais caros, inclusive importados. Diferenças à parte, os praticantes de musculação das três academias estudadas almejavam "o corpo ideal" e demonstravam frustração quando se percebiam distantes do padrão idealizado.

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O medo de serem desvalorizados pelos colegas ou de não despertarem a atração no sexo oposto também pressionava os entrevistados a se enquadrarem no padrão do corpo musculoso. "Para os jovens, o pertencimento ao grupo de amigos é uma faceta fundamental de sua identidade e vários usuários entrevistados relataram o incentivo de amigos, namorados(as) e colegas de academia como um fator que favoreceu o uso de anabolizantes", dizem os pesquisadores no artigo.


Musculos x Saúde


A equipe da UFBA também detectou um paradoxo nos relatos dos entrevistados. Embora já tivessem usado anabolizantes – substâncias que, reconhecidamente, podem trazer danos ao organismo –, eles destacavam os benefícios à saúde proporcionados pela prática da musculação. Incomodados com o envelhecimento, viam na musculação a possibilidade de envelhecer com saúde e realizar o desejo de se manter sempre jovem. "É interessante notar que a preocupação com a saúde, manifesta na justificativa para a prática da musculação, não impede o uso de anabolizantes. Contribui para esse fato a representação de que manter o corpo "em forma" torna-se cada vez mais equivalente a ter um corpo saudável", explicam os pesquisadores.

O problema é que um corpo musculoso não necessariamente é um corpo saudável. E mais: se a musculatura definida foi conseguida à custa de anabolizantes, dificilmente esse corpo gozará de boa saúde. O consumo abusivo dessas substâncias para fins estéticos pode trazer consequências negativas para o sistema reprodutivo e a pele, aumentar o risco cardiovascular, alterar a estrutura e a função do fígado, provocar desordens psiquiátricas e, no caso de injeções com seringas e agulhas reaproveitadas, há ainda o risco de transmissão de doenças como Aids e hepatite C. Por isso, os anabolizantes são considerados hoje um crescente problema de saúde pública. No Brasil, o uso de anabolizantes ainda é pouco estudado. Porém, pesquisas realizadas em academias de musculação em São Paulo, Porto Alegre e Goiânia já revelaram altas prevalências de consumo: 19%, 11% e 9%, respectivamente.


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