Pesquisar

ANUNCIE

Sua marca no Bonde

Canais

Serviços

Estudo controverso

Autores de pesquisa que usa ímãs para fechar a boca e perder peso recebem enxurrada de críticas

Redação Bonde com Folhapress/Everton Lopes Batista
01 jul 2021 às 17:02

Compartilhar notícia

Reprodução/Pixabay
siga o Bonde no Google News!

O desenvolvimento de um dispositivo que usa ímãs presos aos dentes para limitar a abertura da boca e, assim, levar à perda de peso gerou uma enxurrada de críticas à Universidade de Otago, localizada em Dunedin, no Sul da Nova Zelândia.


Criado e testado por pesquisadores da instituição, o DentalSlim Diet Control, como o aparelho é chamado, leva ímãs implantados nas partes traseiras superior e inferior da mandíbula que limitam a abertura da boca a apenas 2 milímetros (1/5 de 1 centímetro) e acabam forçando uma dieta exclusivamente líquida.

Receba nossas notícias NO CELULAR

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp.
Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.


Em um artigo publicado em 25 de junho na revista científica The British Dental Journal, os pesquisadores relatam que o estudo foi realizado com apenas sete mulheres que receberam o aparato. Em duas semanas, as participantes perderam, em média, 6,39 kg cada uma.


Os resultados do estudo, porém, apontam para consequências desagradáveis. O artigo diz que as participantes tiveram dificuldades para pronunciar algumas palavras devido à limitação da abertura da boca e ocasionalmente sentiam-se constrangidas. Houve desconforto e a vida em geral se tornou menos satisfatória, relataram as participantes.


Uma das mulheres no estudo admitiu ter trapaceado e derreteu chocolate para beber o doce, além de ter tomado refrigerantes. "Isso não surpreende, uma vez que estudos têm mostrado que pacientes obesos normalmente possuem uma personalidade com tendência a vícios e impulsiva por comidas doces, e sofrem de distúrbios alimentares", escrevem os cientistas no artigo.


Para o médico Ricardo Cohen, coordenador do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o artigo colabora para a estigmatização da obesidade ao se basear em uma abordagem incorreta sobre o tema. "A obesidade surge como consequência da biologia, não é um desvio de personalidade. Não se trata de uma doença psiquiátrica", afirma.


"A obesidade não é o que entra pela boca. Entre 70% e 80% das causas do problema estão ligadas a questões genéticas", diz Cohen. "Fechar a boca e mandar fazer mais exercícios é uma falácia."


"Por causa da modificação da secreção de alguns hormônios intestinais, algumas pessoas têm preferência por alimentos mais doces, mas é uma consequência da biologia, não é um erro de comportamento", explica. "As abordagens contra a obesidade que têm os melhores resultados são fisiológicas."


Segundo o especialista, o estudo não deveria ter sido aprovado pela comissão de ética de pesquisa da instituição e não apresenta valor científico para aquisição do conhecimento sobre a obesidade. Ele aponta ainda que a pesquisa carece de resultados mais robustos, já que foi realizada com um número muito pequeno de participantes.


Cientistas de áreas como medicina, odontologia e psicologia têm classificado o dispositivo neozelandês como um instrumento de tortura e criticado publicamente a pesquisa e a conduta da universidade.


Para a antropóloga Beatriz Klimeck, doutoranda em saúde pública na Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), o dispositivo pode ser visto como um sintoma de uma sociedade que acredita que vale tudo pela magreza.


"Não é algo novo; há muito tempo existem técnicas menos tecnológicas do que essa para amarrar a boca das pessoas e evitar a alimentação", diz a pesquisadora.


Klimeck diz que as abordagens para tratar a perda de peso precisam ser revistas. "O que eu percebo é que em todas as abordagens terapêuticas há algum grau de desumanização –mesmo na cirurgia bariátrica, que envolve a mutilação de um órgão saudável para a perda de peso", afirma.


A pesquisadora afirma que o combate à obesidade tem um fator estético muito grande, que leva a números altos de distúrbios alimentares como a anorexia. "E as mulheres são as que mais sofrem com isso e se submetem a esses procedimentos para tentar chegar a uma forma física que é considerada o contrário de uma pessoa gorda", diz.


Nas redes sociais, a Universidade de Otago, que tem apenas 20 mil seguidores no Twitter, viu uma enxurrada de críticas à pesquisa.


"Para esclarecer, a intenção do dispositivo não é ser uma ferramenta para perda de peso rápido ou de longo termo; em vez disso, ele é voltado para a assistência de pessoas que precisam passar por alguma cirurgia mas não podem fazer o procedimento até perderem peso", disse a instituição em uma publicação nas redes sociais.


"Após duas ou três semanas, os ímãs podem ser removidos e [os pacientes] podem ir para um período de dieta menos restritiva. Isso permitiria uma abordagem faseada para a perda de peso, com o auxílio de um dentista", escreveu a universidade.

Cadastre-se em nossa newsletter

Apesar da justificativa, a Universidade de Otago afirma em um comunicado publicado na segunda (28) que o dispositivo pode ajudar a combater a epidemia global de obesidade.


Últimas notícias

LONDRINA Previsão do Tempo

Portais

Anuncie

Outras empresas