Muitas pessoas conhecem o Batman pelo seu perfil porradeiro e estrategista. No entanto, a faceta de maior detetive do mundo raramente ganha o espaço merecido. Nem mesmo a recente interpretação de Robert Pattinson entregou essa capacidade deductiva em seu auge, ainda mais na versão mais pobre sem sequer uma lanterninha barata de site chinês.
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Criado no século 20, o Homem-Morcego herdou traços diretos de Sherlock Holmes. Em 1996, a DC lançou a antologia Batman Black and White. O projeto reuniu mentes brilhantes como Bruce Timm, Neil Gaiman, Bill Sienkiewicz e Simon Bisley para criar contos minimalistas.
Entre esses contos, destaca-se Perpetual Morning, obra-prima de Ted McKeever sobre o Batman indicada ao Eisner Awards.
A narrativa mostra Bruce Wayne visitando um necrotério sem disparar um único soco. Em tom intimista, ele reflete: “Sei que você não pode responder essas perguntas, mas ainda assim você é bem-vinda. Entre, compartilhe o banquete. Compartilhe essa dança.”
Ao examinar a vítima anônima, aplicando conhecimentos médicos de seu pai, Thomas Wayne, Bruce observa: “As marcas em seu corpo pálido são como um mapa de seu trajeto.” Ele decodifica os ferimentos e faz a análise completa da cena.
Batman soluciona o mistério e devolve a alma da vítima sem sair da sala
A profundidade da missão fica evidente quando o herói expõe seus dilemas internos: “Você me permitiu entrar em seu círculo, permitiu-me procurar respostas em seu corpo, agora deixe-me encontrar sua alma. Eu preciso de seu nome.”
Ele continua o desabafo: “As pessoas acreditam que sou um cavaleiro, um salvador. Mas, na verdade, sou apenas um recipiente para conter as memórias dos que se foram. Aqueles os quais não têm um lugar na prateleira para guardá-los. Eles devem pensar que me deleito em minhas vi
Analisando vestígios da última refeição no estômago da jovem, ele descobre a identidade da mulher rotulada como “Jane Doe”, soluciona o assassinato e prende o culpado sem sair da sala de autópsia.
Ao dar um nome à vítima, o Batman fecha o conto com uma mensagem poderosa: “Você tem só os seus pensamentos e sonhos à sua frente. Você é alguém. Você é importante.” O encerramento funciona como um tributo poético ao heroísmo melancólico do personagem, que, no final das contas, soluciona o mistério e devolve a alma à vítima sem sair da sala e sequer trocar um sopapo ou distribuir seus cacarecos.
Embora The Batman, a última adaptação do Homem-Morcego na versão mais baixa-renda da história, sem uma bolinha de fumação sequer e com o Batmóvel na forma de um Opala podre caindo aos pedaços, o diretor Matt Reeves deixou a gente sonhar dizendo que seu filme mostraria mais esse lado detetive — o que não aconteceu na verdade, porque o Cavaleiro das Trevas só se intrometeu nas investigações da polícia sem ajudar nada e ainda foi derrotado pelo Charada-múmia.
A expectativa é de que, já que a continuação promete pelo menos um cinto de utilidades com um Batman menos sovina e deprê, o diretor realmente coloque em prática o lado detetive à altura de enredos como este de Ted McKeever.
Para quem deseja ler esse clássico, a Panini publicou a história na edição histórica encadernada Batman: Preto & Branco (Omnibus). Por se tratar de um volume esgotado nas lojas tradicionais, a obra pode ser encontrada em sebos especializados ou no mercado de usados.