Os próximos filmes dos Vingadores prometem fechar com chave de ouro a atual Saga do Multiverso e, mais do que isso, promover um verdadeiro reboot cronológico no Universo Cinematográfico Marvel (MCU). A estratégia da Disney visa revitalizar a franquia, limpando o excesso de subtramas e unificando personagens de diferentes eras do cinema em uma única realidade, exatamente como a editora fez nos quadrinhos. O plano central dessa transformação envolve a adaptação de um dos maiores eventos da cultura pop: Guerras Secretas.
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A primeira versão de Guerras Secretas, lançada em 1984, nasceu por pura demanda comercial. A fabricante de brinquedos Mattel buscava uma linha de produtos com os personagens da Marvel, mas exigia uma história que justificasse a união de heróis e vilões em um mesmo cenário.
O então editor-chefe Jim Shooter topou o desafio e criou uma premissa simples: uma entidade cósmica onipotente chamada Beyonder transportou os principais ícones da Terra para o Battleworld, um planeta-arena, apenas para ver quem venceria o confronto.
Apesar da motivação rasa da entidade, o impacto editorial foi gigantesco. O evento mudou o status quo de várias revistas — foi ali que o Homem-Aranha conseguiu o icônico uniforme preto simbionte, que anos depois daria origem ao Venom. O sucesso comercial fez a Marvel e a DC perceberem o imenso potencial de histórias interligadas em uma cronologia firme. Momentos marcantes, como o Hulk segurando uma montanha inteira para salvar os aliados, serviram de inspiração direta para a cena de Vingadores: Ultimato, na qual Bruce Banner sustenta os escombros do quartel-general do grupo.
A editora tentou repetir a fórmula com uma sequência em 1985, mas o interesse do público saturou rapidamente. Nos anos 1990, a Marvel enfrentou uma grave crise financeira que a levou a pedir concordata e a vender os direitos cinematográficos de suas principais franquias, como os X-Men e o Quarteto Fantástico para a Fox, e o Homem-Aranha para a Sony. Essa fragmentação de direitos autorais ditou os rumos da empresa pelas décadas seguintes.
O Universo Ultimate e a guerra de bastidores em Hollywood
Na virada dos anos 2000, sob o comando do editor Joe Quesada, a Marvel precisava modernizar seus heróis sem afastar os leitores antigos. A solução foi criar o Universo Ultimate (Terra-1610), uma realidade paralela que serviu de laboratório para recontar as origens dos Vingadores — rebatizados de Os Supremos —, do Quarteto Fantástico e do Homem-Aranha com uma roupagem mais realista e urbana. Dessa linha editorial surgiu Miles Morales, um sucesso estrondoso de crítica e público.
Com o nascimento do MCU em 2008, os quadrinhos começaram a sofrer influência direta dos cinemas. O visual de Tony Stark e a fisionomia de Nick Fury foram reformulados nas páginas para espelhar as produções das telonas. Paralelamente, nos bastidores de Hollywood, o clima azedou entre a Marvel Entertainment e a Fox Films. Diante da recusa da Fox em negociar as propriedades intelectuais, o comando da Marvel ordenou o esvaziamento dos X-Men e do Quarteto Fantástico nas HQs, priorizando franquias que estavam sob seu controle total no cinema.
Toda essa ebulição criativa e comercial culminou na saga Guerras Secretas de 2015, escrita por Jonathan Hickman. Diferente da versão oitentista, a trama foi uma complexa ópera espacial. A história começou na revista dos Illuminati, grupo formado por mentes brilhantes como Reed Richards, Tony Stark e Doutor Estranho, que descobriram que diferentes realidades do Multiverso estavam colidindo entre si. A essas colisões destruidoras deu-se o nome de Incursões.
O clímax do arco preparatório mostrou a Terra-616 (universo tradicional) e a Terra-1610 (universo Ultimate) em rota de colisão inevitável. Diante do fim de tudo, o Doutor Destino conseguiu roubar o poder dos Beyonders e salvou fragmentos de realidades destruídas, moldando um novo Battleworld. Nesse mundo distópico, Destino governava como um deus supremo de estilo feudal, tendo o Doutor Estranho como seu conselheiro.
A rebelião liderada pelo Reed Richards original conseguiu derrotar o vilão com a ajuda do Homem-Molecular, que servia de fonte de energia para o ditador. Ao fim da saga, o Multiverso foi reconstruído pelo Quarteto Fantástico, e a Marvel aproveitou para realizar um soft reboot, integrando Miles Morales e outros elementos de sucesso da linha Ultimate diretamente na cronologia principal da Terra-616, deixando os quadrinhos em total sinergia com o cinema.
E, assim, a Marvel Comics conseguiu realinhar suas propriedades em sincronia com o MCU, enquanto também deixou os X-Men e o Quarteto Fantástico "na geladeira" nos quadrinhos até a compra da Fox pela Disney, em 2019.
O futuro do MCU
A fundação para o megaevento nos cinemas já foi estabelecida em produções como as duas temporadas de Loki e Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, que introduziram formalmente os conceitos de linhas temporais sagradas, variantes e o perigo iminente das Incursões.
Os próximos grandes passos da equipe nas telonas já têm datas definidas pela Disney. O primeiro capítulo dessa resolução será Vingadores: Doomsday, agendado para 11 de dezembro de 2026, que trará Robert Downey Jr. de volta ao estúdio no papel de Doutor Destino. A conclusão épica virá logo em seguida com Vingadores: Guerras Secretas, previsto para 17 de dezembro de 2027.
Embora o Marvel Studios precise realizar mudanças estruturais pesadas na adaptação cinematográfica — alterando núcleos de personagens e substituindo dinâmicas devido à reformulação da saga do vilão Kang —, a essência conceitual dos quadrinhos de 2015 será mantida. O objetivo final permanece o mesmo: provocar uma colisão multiversal sem precedentes para estabelecer um novo ponto de partida limpo e unificado para o futuro do MCU.