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Opinião

Medo de se declarar gay é amplificado no futebol, diz jornalista britânico

Marina Izidro - Folhapress
03 nov 2021 às 00:00
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Em vídeo acompanhado de um texto nas redes sociais, Josh Cavallo, atleta do Adelaide United (AUS), sentiu-se seguro para falar de sua sexualidade.Na última quarta-feira (27), um jovem meio-campista australiano de 21 anos declarou-se gay.  Algo raro no futebol, principalmente com atletas ainda em atividade.

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"Foi uma jornada chegar a esse ponto da minha vida, mas eu não poderia estar mais feliz com a minha decisão de assumir", afirmou. "Tenho lutado contra minha sexualidade há mais de seis anos e estou feliz por poder deixar isso de lado", disse na ocasião.

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Para o jornalista e escritor inglês Joh Holmes, 48, fundador da Sports Media LGBT+, grupo baseado em Londres e que luta pela inclusão no jornalismo e no esporte, há muitas razões para que histórias como a de Josh sejam escassas. Ele cita o papel da imprensa no futebol masculino como uma das razões.


"Acho que a mídia aqui [na Inglaterra] contribui para isso, e os jogadores não querem ser colocados sob escrutínio, sob esse nível de atenção", diz em entrevista.


Holmes também acredita na importância de se contar histórias positivas, como a de Josh, que recebeu apoio de outros atletas profissionais e de clubes pelo mundo, para incentivar aqueles que desejam se abrir, além de campanhas para se criar ambientes mais receptivos no meio do futebol e da sociedade de maneira geral.

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PERGUNTA - Por que em 2021 ainda não temos outros jogadores de futebol profissional assumidamente homossexuais além de Josh Cavallo?


JOH HOLMES - Acho que há muitas razões para isso. Do ponto de vista da imprensa, acho que há um escrutínio intenso sobre o futebol profissional masculino e isso traz muita pressão, através da nossa indústria, das ruas, das redes sociais, e cria um ambiente de conformismo e rigidez. Para o jogador revelar publicamente que é homossexual, ele está dando um passo para fora daquele ambiente, se destacando como alguém que é um representante da comunidade LGBT, assim como Josh Cavallo. Ainda não vimos isso no Reino Unido porque há razões para isso. Acho que a mídia aqui contribui para isso, e os jogadores não querem ser colocados sob escrutínio, sob esse nível de atenção.


Vimos um aumento de casos de racismo contra jogadores nas redes sociais e o quanto isso afeta a saúde mental deles. Se você se assume publicamente, naturalmente está se colocando como alvo e esse tipo de atenção pode ser negativa. O que tentamos fazer é na verdade mostrar que existe muito apoio, assim como vimos no caso do Josh. Acho que muitos se preocupam com o fato da positividade existir no início, mas o que vai acontecer em um mês ou dois meses, quando tiverem uma partida ruim, se vão receber ofensas por serem quem eles são.


Ainda existe medo sobre o que a torcida, outros jogadores e o clube vão pensar?


JH - Medo sobre se assumir não é algo apenas no futebol profissional, é algo pelo qual qualquer pessoa da comunidade LGBT passa. A não ser que venha de um ambiente onde se sente totalmente apoiado e bem-vindo, quando você é jovem e está descobrindo quem você é, se você não receber mensagens positivas dentro do seu ambiente, você sempre terá medo da perspectiva de se assumir, seja para uma pessoa ou para milhões de pessoas, como Josh Cavallo fez.


O problema no futebol é que não temos nenhum jogador profissional gay ou bissexual [assumido] no Reino Unido e esse medo é amplificado, se torna superestimado. Criamos a percepção de que o futebol masculino profissional é o ambiente mais hostil de todos, mas na minha experiência e no meu entendimento os vestiários são um lugar inclusivo. Existem jogadores que apoiariam totalmente se um companheiro de equipe assumisse sua homossexualidade. Acho que embarcamos muito rápido em narrativas de medo e angústia.


Em que sentido a mídia é responsável?


JH - O que realmente incentiva as pessoas a assumirem-se é aprender com histórias de outras que fizeram o mesmo. Lembramos muito aqui na Inglaterra da história do Justin Fashanu (primeiro jogador de futebol profissional a assumir-se homossexual, em 1990, e que cometeu suicídio oito anos depois) e há quase 30 anos isso caracterizou a experiência de assumir-se no futebol masculino. Mas existem outras experiências de jogadores que se assumiram depois da aposentadoria, ou em divisões mais baixas, que são extremamente positivas.


A mídia é sempre muito rápida em querer compartilhar histórias como a de Cavallo, mas essas são raras e imprevisíveis. Como a imprensa sabe que existe interesse nessas histórias, corre para contar outras e aí é quando movem para o território de uma história sobre "um jogador que é gay de forma secreta ou misteriosa e que está passando por um trauma e uma dificuldade incrível".


Como não podemos verificar a história nem nomear o jogador porque precisamos protegê-lo, isso fica sendo perpetuado. É tudo sobre o tráfego em sites e vendas de jornais e a mídia tem sido bastante responsável pela maneira como cobriu esse tópico, perpetuando histórias de medo e angústia em detrimento de histórias positivas de jogadores que foram aceitos e se sentiram bem-vindos.


Pela quantidade de apoio que Josh Cavallo recebeu de jogadores, clubes, instituições, é um sinal de que a mentalidade está realmente mudando?


JH - O que eu acho que realmente mudou é esse tipo de irmandade no futebol profissional masculino, de outras pessoas que são da comunidade LGBT e que inspiraram o Josh.


Josh mencionou que conhecia a história de Justin Fashanu e ficou preocupado, mas depois leu uma história que saiu no ano passado sobre o jogador Thomas Beattie, que se assumiu depois da aposentadoria. Josh escreveu que foi a história de Thomas que o inspirou e o deu força. O que aprendemos com isso é que há uma reação em cadeia de histórias positivas, sobre ser capaz de assumir quem você é em um ambiente masculino, em um time masculino.


O que é realmente impactante sobre a história de Josh é que ele é tão jovem, tem apenas 21 anos -eu não me assumi até os meus 30 e poucos anos. Reflete muito bem no Adelaide United, na liga australiana e no esporte na Austrália o fato de que alguém tão jovem quanto o Josh tenha se sentido confiante para compartilhar sua história em um nível global. Essa é uma mudança incrível de percepção, então estamos realmente muito satisfeitos por ele e temos que tirar lições para outras ligas ao redor do mundo, para vocês no Brasil, para nós aqui no Reino Unido, o que eles foram capazes de criar para dar a Josh a confiança para fazer isso.


Você acha que os clubes e a Premier League estão oferecendo um ambiente seguro para que jogadores assumam sua sexualidade sem medo, sabendo que terão apoio?


JH - Acho que a razão pela qual o futebol masculino está um passo atrás com relação ao resto da sociedade, como na música, no cinema, na televisão, onde há uma grande comunidade LGBT, é que o futebol profissional é uma espécie de bolha difícil de penetrar. Campanhas como a Rainbow Laces, que existe há menos de uma década, ajudam a transmitir mensagens positivas sobre inclusão. Vai demorar mais tempo para que isso entre em um vestiário de forma a estar inerente nessa cultura do futebol. É preciso um nível de compreensão e educação além e que realmente possa fazer diferença para qualquer indivíduo, assim como para um jogador tão jovem como Josh, que pode estar sofrendo.


Com o tempo, esse entendimento [ajudado pelas campanhas] já se manifestou na redução na quantidade de linguagem homofóbica nos vestiários, linguagem que era parte da conversa e as pessoas não percebiam o impacto que tinha. Agora existe o entendimento de que essa linguagem realmente machuca alguém que está lutando com sua sexualidade. Existe [agora] apoio de jogadores, como Jordan Henderson [capitão do Liverpool], de atletas experientes e respeitados, porque eles sabem o tamanho de suas responsabilidades. Muitas vezes esses jogadores são capitães de seus clubes, então todas essas ações diferentes, combinadas, começam a mudar as bolhas dos vestiários para um espaço de influências mais positivas, mas leva tempo.


É questão de educar?


JH - Campanhas como a Rainbow Laces existem para incentivar conversas que nunca aconteciam. As pessoas se sentem mais confortáveis para falar sobre o assunto e entendem o contexto disso, que isso impacta a saúde mental. O fato de não poder assumir-se pode causar um problema de saúde mental, assim como quem é afetado pelo vício no jogo, bebida ou drogas e todas essas coisas que são pressões ocultas com as quais um atleta profissional tem de lidar. Essa ideia de que em um dia de jogo ele precisa ir a campo e fazer o seu melhor e calar todas as outras pressões dentro da cabeça, quando você é um atleta gay que não pode se assumir, é muito difícil fazer isso, porque outros pensamentos estão sempre na sua cabeça e eles podem se manifestar de formas estranhas.


Se o jogador de um time puder assumir a homossexualidade é bom para a própria equipe porque ele será o mesmo bom jogador, apenas mais feliz, certo?


JH - Eu acho que temos que olhar para a história do jogador Collin Martin nos Estados Unidos. Ele já falou publicamente várias vezes que depois que assumiu-se está muito mais feliz e é um jogador muito melhor. Ele recebeu abuso homofóbico ano passado durante um jogo e é algo que, para qualquer jogador gay ou bissexual, existe a possibilidade de que sua orientação sexual seja usada contra você, infelizmente, aconteceu com ele. Mas vimos pela reação do público e do técnico o grande apoio que ele recebeu depois desse incidente e as lições positivas. Acho que se você falar com o Collin hoje, tenho certeza que ele dirá que não se arrepende de ter se assumido, porque ele é um jogador de futebol melhor por causa disso.


Quando teremos um jogador assumidamente gay na Premier League?


JH - É uma pergunta muito frequente. Não podemos colocar um tempo nisso, o que esperamos é que estejamos nos movendo nessa direção. É algo tão pessoal, não é algo que pode ser medido em um cronograma de quando isso vai acontecer. Não conhecemos a luta interna e o diálogo interno que esses jogadores estão travando com si mesmos. Acho que o que podemos esperar e o que pode já ter acontecido é que esses jogadores já tenham se assumido para seus times, nos vestiários, para seus treinadores, para pessoas em quem eles confiam em seu ambiente. Nós apenas não sabemos que já está acontecendo. Em divisões inferiores, há jogadores no nível semiprofissional que são aceitos, estão felizes e são bem-vindos em seus vestiários. Veremos uma mudança de baixo para cima, assim como vimos Thomas Beattie inspirando Joshua Cavallo. Em algum momento no futuro, espero que em breve, a mudança atingirá o nível profissional.


Jon Holmes, 42 É jornalista e escritor. Fundou a Sports Media LGBT+, grupo baseado em Londres que luta pela inclusão no jornalismo e no esporte. É um dos coordenadores da Sky Sports na campanha Rainbow Laces, de apoio à comunidade LGBT+ na Premier League.

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