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Por que não sei dirigir

14 jun 2016 às 17:10
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Quando alguém me pergunta por que não sei dirigir, lembro-me de uma cena ocorrida na minha adolescência. Eu estava visitando familiares em Mirandópolis. Na rua de entrada da cidade, vi uma imagem que nunca mais me sairia da memória: um homem, com a face transfigurada pela dor, carregava nos braços um menino que havia sido atropelado momentos antes. O garoto não deveria ter mais de sete anos; no meio de seus cabelos claros, despontava um ferimento vermelho, uma flor de morte. Já não tinha vida, e o homem — não sei se o pai ou o motorista que o havia atropelado — nada podia fazer com aquela criança nos braços.

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Ao ler notícias sobre acidentes de trânsito, eu me convenço uma vez mais de que sempre serei um pedestre, um passageiro e um caronista. É claro que, com isso, não estou livre de ser uma vítima do trânsito, mas pelo menos tenho a certeza de que nunca serei o responsável por uma tragédia.

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Controlar uma dessas máquinas de metal definitivamente é algo que está além das minhas limitadíssimas capacidades humanas. Sou um cara muito distraído; minha amada Rosângela costuma dizer que habito "o mundo das ideias", embora meus críticos não acreditem que eu as tenha. Dizem que certa vez, durante a Guerra do Peloponeso, o soldado Sócrates, que dera muitas provas de bravura no conflito, parou no meio do campo de batalha e começou a meditar sobre uma questão filosófica. Foi salvo por um amigo, que o retirou dali a tempo de não ser atingido pelas forças inimigas. Eu sou Sócrates sem a bravura e sem a sabedoria; por isso não dirijo.


O lema da cidade de São Paulo, onde nasci, é "Non ducor duco", que podemos traduzir por "Não sou conduzido, conduzo". Pode ser verdade para São Paulo, mas com o Paulo aqui ocorre exatamente o contrário. Sou conduzido — nem que seja por minhas velhas pernas de caminhante. E conduzo apenas meus sete leitores por estas linhas.


Meu pai foi o melhor e mais responsável motorista que já conheci. Certamente não foi dele que se originou essa minha aversão pelas engenhocas automotivas. Acho que mais decisiva foi a tragédia que aconteceu com meu avô Antônio, que não cheguei a conhecer em vida. Antônio era também um motorista exemplar, mas um dia atropelou um ciclista, deixando-o paraplégico. A partir desse dia, nunca mais foi a mesma pessoa. Morreu de desgosto.

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Há um conto de Julio Cortázar que narra um congestionamento sem fim numa rodovia francesa. Parados na estrada, os motoristas saem dos carros e começam a se conhecer. A atmosfera da narrativa lembra um dos meus sonhos. Sim, eu sempre sonho que estou dirigindo, mas não numa rodovia francesa: aqui mesmo em Londrina. Mais ou menos na Rua João Cândido, perto da Praça Sete de Setembro, eu me dou conta de que não sei dirigir — e acordo.

Graças a Deus, eu não sei guiar. Mas às vezes fico pensando: assim como eu não sirvo para dirigir automóvel, que bom seria se Lula e Dilma admitissem que não estão aptos a dirigir sequer um sindicato, que dirá um país!


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