Dia a Dia

Mães devolvem filhos ao Cense

18 ago 2009 às 20:06

Publicada originalmente na Folha de Londrina de hoje, 18/08.

Por Wilhan Santin


A manhã de ontem ainda estava começando, às 8 horas, e o movimento era intenso em uma casa de um bairro na Zona Sul de Londrina. Três mães e seus três filhos adolescentes buscavam um meio de condução até o Fórum de Londrina. O objetivo das mulheres era apresentar os garotos à promotora de justiça dos adolescentes infratores, Sônia Regina de Melo Rosa. Elas sabiam que voltariam para casa sem os filhos, deixando-os algemados dentro de uma viatura policial. Mas avaliaram que era o melhor a fazer. Faltava o transporte. Tentaram uma carona com o Conselho Tutelar, mas receberam a resposta de que teriam que ir até o Fórum por conta própria. O transporte coletivo foi a saída.

Os três garotos em questão, dois de 17 e um de 13 anos, se evadiram há 10 dias do Centro de Socioeducação (Cense I) junto de um outro menor que ainda está foragido. À FOLHA, eles explicaram como foi a fuga. Diferente da primeira versão apresentada pela direção do Cense I, os menores disseram que não foram resgatados, mas se aproveitaram do descuido de um dos educadores para sair da unidade. ''Nós quatro estávamos no mesmo 'X'. Um educador deixou o cadeado aberto depois de levar o João (nome fictício) para fazer um exame de saúde. Percebemos o descuido e saímos do 'X'. Eram 10 horas. Depois de algum tempo os outros três resolveram voltar, mas eu fiquei escondido dentro de uma sala onde ficam guardadas as drogas que são apreendidas. Fiquei lá até anoitecer e usei cocaína. Quando era 22h30 voltei para o 'X'. Fiquei fora o dia todo e os educadores não sentiram a minha falta. Usei o cano de uma espingarda que estava na sala junto com as drogas para arrebentar o cadeado, que já havia sido fechado. Arrebentamos o cadeado e fomos até uma sala desocupada onde há um buraco na parede, que seria para um ar-condicionado. Arrebentamos a grade de ferro que fechava o buraco, subimos no telhado e depois pulamos o muro'', relatou Marcos (nome fictício). A fuga dos quatro internos só foi notada às 7 horas do dia seguinte (8). No momento da evasão havia dois policiais militares, quatro educadores sociais e um enfermeiro na unidade. Ainda segundo o adolescente, eles aproveitaram para pegar um bloco de um quilo de crack e uma quantidade indeterminada de cocaína e maconha. ''Após pular o muro do Cense, ficamos um tempo em um terreno baldio que tem por perto até que um conhecido passou de carro. Vendemos a pedra de crack barato, por R$ 2 mil. O resto da droga nós usamos, distribuímos e até jogamos um pouco fora. Com o dinheiro que conseguimos compramos tênis, roupas e pagamos para uma pessoa nos levar para um sítio fora de Londrina, onde ficamos escondidos no mato'', relatou. O diretor do Cense I, Márcio Augusto Alencar Schimidt, confirmou que realmente aconteceu uma evasão e não um resgate. ''Abriremos um processo administrativo para averiguar a possível falha operacional'', argumentou. ''Trata-se de um fato isolado. Esses adolescentes estavam separados dos outros por sofrerem ameaças e acabaram se evadindo. Contudo, a nossa rotina permanece normal'', completou Schimidt. Atualmente, o Cense I trabalha no limite de sua capacidade, com 85 adolescentes. O delegado William Douglas Soares, titular da Delegacia do Adolescente, que funciona junto ao Cense e que tem a responsabilidade sobre as drogas apreendidas que teriam sido furtadas pelos menores, confirmou que realmente há entorpecentes na sala que eles acessaram. ''Estamos fazendo um levantamento minucioso para concluirmos o que eles teriam subtraído''. No entanto, o delegado negou que haja armas nessa sala. ''Em nenhum lugar há armas de fogo por aqui. A espingarda à qual eles se referiram, na verdade, é apenas um pedaço de espingarda, sem poder de fogo'', explicou. Algemas fechadas, lágrimas nos olhos O instinto de proteção foi o que fez as três mães localizarem os adolescentes e os conduzirem de volta ao Cense I. Por conta própria, elas foram até o sítio localizado a quase 100 km de Londrina para buscar os garotos, todos usuários de drogas. ''Só depois de dois dias é que fiquei sabendo que meu filho fugiu, quando ele entrou em contato por telefone. Convenci-o a me contar onde ele e os colegas estavam e fui até lá. Atravessei lamaçal e matagal para achá-los. Na rua, acabariam morrendo'', comentou uma das mães. Os três garotos cumprem medida socioeducativa por furto, mas dizem que já roubaram à mão armada. ''Já fiz todo tipo de assalto, usando armas de vários calibres'', ressaltou um deles. ''Já saí para roubar muito louco, drogado, para matar ou morrer'', completou outro. Questionados sobre planos para o futuro, nenhum deles quis arriscar um prognóstico. Apenas o mais novo disse que quer largar as drogas e voltar a estudar. Um dos rapazes de 17 anos vive entre o Cense e clínicas de recuperação de dependentes de drogas desde os 12 anos. ''Muitos falam que a culpa é dos pais, mas já fizemos tudo o que podia ser feito. Porém, eles não encontram oportunidade. A sociedade não permite nem que eles trabalhem'', lamentou uma das mães. Entregar os filhos à promotora foi a forma de elas garantirem que seus filhos não sofreriam represálias pela fuga dentro do Cense. ''Não há motivo para essa preocupação. O Cense é o local apropriado, onde as medidas socioeducativas, no sentido pedagógico e educativo, são cumpridas'', garantiu a promotora.

Ao final, só restou às mães enxugarem as lágrimas ao verem as algemas sendo fechadas pelo policial que foi até o Fórum cumprir o mandado de busca e apreensão que pesava contra os adolescentes. (W.S.)


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