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O aniversário de Forma e Exegese

07 jun 2017 às 21:09
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Qual a matéria mais gostei de escrever? Foi essa, que redigi em 2015 para o site Literatortura, ainda no início do curso de jornalismo, com o Marcos Hidemi Lima sobre os 80 anos de Forma e Exegese, do poeta Vinicius de Moraes. ♥

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Meu amor pelo poetinha transformou minha vida. Quando estou iluminada pelo signo viniciano, saem textos assim. Leia a matéria completa e apaixone-se também:

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O aniversário de Forma e Exegese


Mais que um poeta, Vinicius de Moraes foi um dos maiores da segunda fase do Modernismo no Brasil. Ao lado dele estavam grandes nomes como Carlos Drummond de Andrade e Cecilia Meireles. Nessa época, o mundo passava por diversas turbulências e, no Brasil, Getúlio Vargas ascendia ao poder.

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O Poetinha, como Vinicius foi carinhosamente apelidado por Tom Jobim, se casou nove vezes. E amou todas elas intensamente. Era o poeta que vivia sob o signo da paixão. "Afinal, poetinha, quantas vezes você vai se casar?", perguntou o próprio Tom em certa ocasião.


Eis que no ano de 1935, quando falecia o grande poeta português Fernando Pessoa, nascia "Forma e Exegese", livro de poesias escrito por um ainda jovem, poetinha. Há exatos 80 anos, a segunda obra dele era lançada e nela encontramos poemas que demonstram a inquietação e angústia de um Vinicius que, ainda, era fortemente influenciado pela doutrina católica.


José Castello, jornalista e autor da excelente biografia "O Poeta da Paixão", evidencia a influência sofrida por Vinícius. "A influência da formação de Vinicius com os jesuítas, com quem estudou na adolescência, é indisfarçável. Trata-se de uma espiritualidade não libertadora, mas coercitiva, punitiva, baseada na culpa e no castigo", diz Castello. Para ele, Vininha sempre teve seu lado tradicional e seu lado moderno, o que deixa sua poesia complexa, porém, ao mesmo tempo, original.


Nessa segunda obra, já vemos indícios do grande poeta que estava por vir. Para o biógrafo, essa é a fase metafísica de Moraes. Ia nascendo o poeta que, mais tarde, conheceríamos em "Poemas, Sonetos e Baladas",de 1946, livro que transforma e marca de vez sua história.


O próprio Castello, em um trecho da biografia, descreve Vinicius como sendo "um homem que viveu para se ultrapassar e para se desmentir. Para se entregar totalmente e fugir, depois, em definitivo".


De acordo com o Marcos Hidemi de Lima, doutor em letras, professor e estudioso da obra de Vinicius, em "Forma e exegese, deparamo-nos com um poeta ainda marcado pelas influências místico-religiosas da sua formação católica. O próprio Vinicius tem consciência de que seu segundo volume de poesia possui qualidades marcantes para si mesmo e para a poesia brasileira, pois mais tarde ele vai escolher desse livro alguns poemas para sua Antologia poética (1954)".


A poesia de Vinicius, na década de 1930 era cheia de inquietações e melancolias. Em "O Escravo", é claramente visível essa inquietação que o assolava, porém, que angústia era essa?


"Quando a tarde veio o vento veio e eu segui levado como uma folha


E aos poucos fui desaparecendo na vegetação alta de antigos campos de batalha


Onde tudo era estranho e silencioso como um gemido.


Corri na sombra espessa longas horas e nada encontrava


Em torno de mim tudo era desespero de espadas estorcidas se desvencilhando


Eu abria caminho sufocado mas a massa me confundia e se apertava impedindo meus passos


E me prendia as mãos e me cegava os olhos apavorados.


Quis lutar pela minha vida e procurei romper a extensão em luta


Mas nesse momento tudo se virou contra mim e eu fui batido


Foi ficando nodoso e áspero e começou a escorrer resina do meu suor


E as folhas se enrolavam no meu corpo para me embalsamar.


Gritei, ergui os braços, mas eu já era outra vida que não a minha


E logo tudo foi hirto e magro em mim e longe uma estranha litania me fascinava.


Houve uma grande esperança nos meus olhos sem luz


Quis avançar sobre os tentáculos das raízes que eram meus pés


Mas o vale desceu e eu rolei pelo chão, vendo o céu, vendo o chão, vendo o céu, vendo o chão


Até que me perdi num grande país cheio de sombras altas se movendo… " (O Escravo – Vinicius de Moraes)


Para Lima, podemos ver um Vinicius dividido entre o pecado e o desejo da carne. "É uma luta que faz contra si mesmo, contra o prazer de viver os frêmitos do sexo e o desejo de não se conspurcar na luxúria, que é um dos sete pecados capitais para os católicos", destaca ele.


A poesia viniciana, nesse período, era cheia de temores. "Forma e Exegese" é repleta desses sentimentos. Ao ler "A Volta da Mulher Morena" percebe-se um medo do pecado que, para ele, a mulher causaria. Totalmente ao contrário do poeta que ficou famoso por ser mulherengo. O mesmo que, mais adiante, escreveu, "As muito feias que me perdoem. Mas beleza é fundamental".


"A volta da mulher morena


Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena


Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo


E estão me despertando de noite.


Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena


Eles são maduros e úmidos e inquietos


E sabem tirar a volúpia de todos os frios.


Meus amigos, meus irmãos, e vós que amais a poesia da minha alma


Cortai os peitos da mulher morena


Que os peitos da mulher morena sufocam o meu sono


E trazem cores tristes para os meus olhos.


Jovem camponesa que me namoras quando eu passo nas tardes


Traze-me para o contato casto de tuas vestes


Salva-me dos braços da mulher morena


Eles são lassos, ficam estendidos imóveis ao longo de mim


São como raízes recendendo resina fresca


São como dois silêncios que me paralisam.


Aventureira do Rio da Vida, compra o meu corpo da mulher morena


Livra-me do seu ventre como a campina matinal


Livra-me do seu dorso como a água escorrendo fria.


Branca avozinha dos caminhos, reza para ir embora a mulher morena


Reza para murcharem as pernas da mulher morena


Reza para a velhice roer dentro da mulher morena


Que a mulher morena está encurvando os meus ombros


E está trazendo tosse má para o meu peito.


Meus amigos, meus irmãos, e vós todos que guardais ainda meus


últimos cantos


Dai morte cruel à mulher morena!"


"Que sentimento que não o de pavor o poeta apresenta no aflitivo "A volta da mulher morena", ao longo do qual existe um lírico acossado pelo receio da volúpia que a musa do poema representa, a ponto de pedir, no último verso, "[…] morte cruel à mulher morena", diz Lima.


A espiritualidade também é decorrente nos poemas da obra. O Poetinha jovem, totalmente influenciado pela religiosidade, deixa rastros evidentes em seus poemas. "Nos poemas desse livro, Vinicius inicia a busca de uma solução para a equação que vai ser seu dilema da vida inteira, isto é, o poeta vai tentar estabelecer o ponto de encontro que estabeleça sentido para a espiritualização da carne e para a materialização do espírito", afirma Lima.


Desde o poema abertura de "Forma e Exegese", que é "O Olhar Para Trás", percebemos a forte presença dos valores católicos. Na terceira frase vemos a referência ao catolicismo quando o poeta cita o círio, símbolo utilizado pela religião.


"Nem surgisse um olhar de piedade ou de amor


Nem houvesse uma branca mão que apaziguasse minha fronte palpitante…


Eu estaria sempre como um círio queimando para o céu a minha fatalidade"


"No poema "O bom-ladrão", versos como "Olha! A teus pés Jerusalém se estende e dorme o sono dos pecadores", "Traze o bastante para a consolação dos teus aflitos" ou "Há tanto ouro no campo santo/Que tua avareza seria vã para contê-lo" evidenciam a inspiração que os textos bíblicos forneceram a Vinicius", destaca o professor.


Nesses 80 anos de "Forma e Exegese", aos poucos, fomos conhecendo um Vinicius que se tornou o grande Poetinha do "Soneto de Fidelidade", o grande compositor de obras primas como "Chega de Saudade" ou "Garota de Ipanema".

A vasta obra do grande poeta, compositor, músico, diplomata e jornalista Vinicius de Moraes é um presente valioso que recebemos. Nenhum outro poeta foi tão completo. E, como o próprio Drummond disse uma vez, "Vinicius é o único poeta brasileiro que viveu como poeta"


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