Lá fora, o Brasil é reconhecido por muitas coisas: no esporte, pelas lendas do futebol e da Fórmula 1; na gastronomia, pela criatividade e mistura de sabores; e nas celebrações, pelo Carnaval, um dos maiores do mundo. Mas, como toda moeda tem dois lados, a nação também enfrenta problemas que ultrapassam as ruas e chegam ao universo digital. Por trás das telas, uma epidemia de fraudes se espalha nas redes sociais.
Brasil, terra fértil para golpes digitais
Nesse tabuleiro de países, empresas e cibercriminosos, o Brasil ocupa uma posição preocupante. Na América Latina, concentra o maior número de bloqueios de ataques de phishing (pescaria, em tradução literal do termo), técnica que induz a vítima a realizar ações que podem comprometer sua segurança, como fornecer dados pessoais, fazer transferências bancárias ou acessar links maliciosos.
Segundo a Kaspersky, foram registrados 553 milhões de bloqueios desse tipo de ataque no Brasil entre novembro de 2024 e outubro de 2025. Em média, a empresa identificou e bloqueou 1,5 milhão de tentativas por dia. O volume brasileiro corresponde a 43% dos 1,291 bilhão de bloqueios registrados pela companhia na América Latina no mesmo período.
Em uma perspectiva mais ampla, os números também indicam o crescimento dos ataques. Entre novembro de 2023 e outubro de 2024, a Kaspersky registrou 309 milhões de bloqueios de phishing no Brasil. O volume aumentou cerca de 80% no período seguinte. Até a publicação desta reportagem, os dados referentes ao ciclo de 2025 a 2026 ainda não haviam sido consolidados e divulgados.
Outro levantamento reforça a dimensão do problema no país. Segundo pesquisa do Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), vinculado ao CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil), 32% dos usuários de internet com 16 anos ou mais relataram ter sofrido tentativas de golpes envolvendo seus dados pessoais. O percentual equivale a 45 milhões de pessoas. Além disso, 20% disseram ter sido vítimas desse tipo de crime.
Entre os canais mencionados, os aplicativos de mensagens, como o WhatsApp, lideraram os relatos, com 84%. Na sequência, aparecem as ligações telefônicas (79%), os sites ou aplicativos falsos (71%), o SMS (71%), o e-mail (69%) e as redes sociais (67%).
O crescimento desse tipo de campanha maliciosa, que utiliza técnicas de engenharia social para induzir vítimas a realizar determinadas ações, também foi reconhecido pelo CTIR.Gov (Centro de Prevenção, Tratamento e Resposta a Incidentes Cibernéticos de Governo). Em comunicado divulgado em maio deste ano, o órgão apresentou orientações técnicas para identificar e prevenir esse tipo de ameaça. Também recomendou que empresas e responsáveis por plataformas digitais promovessem campanhas educativas para “orientar usuários quanto a riscos de phishing, links encurtados e solicitações de autenticação fora do padrão”.
A Meta também informou que vem promovendo ações educativas em diferentes países. Em comunicado divulgado em março, a empresa destacou uma parceria com a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) para a produção conjunta de conteúdos educativos no Brasil durante o mês de conscientização sobre cibersegurança, celebrado em outubro. A iniciativa busca oferecer orientações para identificar e evitar golpes durante as festas de fim de ano.
Desinformação e impunidade alimentam os golpes
Questionado sobre o que torna o Brasil atrativo aos golpistas, Assolini aponta três fatores: impunidade, falta de conhecimento da população e tamanho do público conectado. Quanto maior o número de usuários na internet, maior o universo de possíveis vítimas. Nesse cenário, dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e da Statista colocam o país entre os maiores mercados digitais do mundo. Com 168,7 milhões de usuários conectados, o Brasil ocupa a quinta posição no ranking mundial e lidera na América Latina, alcançando 90,5% da população.
É nos dois primeiros fatores que o especialista identifica alguns dos principais elementos por trás da disseminação dos golpes. Nada convence mais do que uma mentira com um fundo de verdade. Ao se apoiar em informações e temas que ganharam destaque nas discussões públicas, os criminosos constroem abordagens em torno de notícias, eventos, promoções e outros fatos legítimos, tornando as fraudes mais difíceis de identificar.
Outro exemplo da sofisticação dos golpes é o crescimento das chamadas fazendas de phishing. Essas estruturas reúnem diversos celulares conectados e controlados por sistemas de automação, que permitem disparar mensagens falsas por SMS em larga escala. Com o uso de RPA (Automação Robótica de Processos), os criminosos conseguem enviar mensagens fraudulentas de forma rápida e personalizada, alcançando milhares de vítimas em poucos minutos e dificultando o rastreamento das operações.
O último caso que a gente verificou foi o de um benefício governamental que sequer existe, sobre uma ‘Bolsa Construção’ para ajudar as pessoas a fazerem reforma nas suas casas. É falso. Esse benefício governamental não existe, mas muitos outros existem e são usados em fraudes. O criminoso pega esse fato e usa a nível nacional, abusando do desconhecimento da população.”
Embora não haja confirmação de um benefício federal chamado “Bolsa Construção” com as características descritas pelo especialista, o governo federal mantém o Reforma Casa Brasil, programa operado pela Caixa Econômica Federal que oferece crédito para reformas habitacionais. A iniciativa, porém, funciona como uma linha de financiamento, e não como uma bolsa gratuita. É nesse tipo de distorção que uma informação legítima pode servir de matéria-prima para uma fraude.
Ao considerar esse tipo de crime relativamente novo, o especialista relaciona a dificuldade de responsabilizar os golpistas às lacunas na legislação. Segundo ele, o cenário chegou a um “ponto terrível”, em que o enfrentamento dessas brechas depende de articulações políticas para que as empresas responsáveis por esses espaços, como a Meta, também sejam responsabilizadas. Nesse contexto, Assolini avalia que é raro ver um criminoso que pratica phishing ser preso.
A avaliação de Assolini sobre as dificuldades de responsabilização dos criminosos ganha outra perspectiva na análise do advogado especialista em crimes cibernéticos Fernando Peres. Para ele, o problema do Brasil no combate a esse tipo de ataque não está, necessariamente, na desatualização do Código Penal, mas nos obstáculos para identificar e punir os responsáveis.
Com base na legislação vigente, quem pratica estelionato eletrônico pode ser punido com pena de quatro a oito anos de reclusão, além de multa, conforme o artigo 171 do Código Penal. Já o furto mediante fraude cometido por meio eletrônico ou informático pode resultar em pena de quatro a dez anos de reclusão, além de multa, conforme a Lei nº 15.397/2026.
Para o advogado londrinense, o volume de ataques, a complexidade das investigações e as possibilidades de mascarar a origem das fraudes estão entre os fatores que dificultam a condenação dos criminosos.
Não basta que a conduta esteja prevista como crime; é fundamental que existam condições concretas para sua apuração. Criminosos podem utilizar números de telefone cadastrados com dados falsos ou de terceiros, identidades fraudulentas e contas bancárias utilizadas para receber ou movimentar valores ilícitos. Além disso, determinadas operações criminosas envolvem diferentes pessoas, plataformas digitais e até estruturas localizadas fora do Brasil, o que pode exigir investigações mais complexas e cooperação entre autoridades”, conclui Peres.
Confira as reportagens anteriores da série 'Vitrine dos Golpes Digitais'
A série 'Vitrine dos Golpes Digitais' chega à última reportagem depois de abordar diferentes etapas do avanço das fraudes na internet. Na primeira parte, “Criminosos aproveitam anúncios autênticos do Instagram para enganar usuários”, o foco esteve no uso de anúncios patrocinados por criminosos para dar credibilidade a ofertas falsas e enganar usuários.
Em seguida, a segunda reportagem, “A inteligência artificial está protegendo usuários ou facilitando golpes?”, mostrou como a tecnologia se tornou uma ferramenta de dois lados: enquanto plataformas apostam na inteligência artificial para identificar e combater golpes, criminosos também a utilizam para aperfeiçoar fraudes e manipular vítimas.