Brasil

Bets transformam promessa de renda em dívidas e perda de controle

23 ago 2026 às 13:17

As lembranças de Kaio*, 42 anos, estão associadas a uma madrugada de julho. O celular começou a exibir anúncios de apostas e, em poucos minutos, ele perdeu R$ 1 mil. Depois, R$ 2 mil. Em seguida, R$ 5 milO dinheiro havia sido emprestado por um amigo para que ele quitasse dívidas com agiotas, contraídas justamente por causa de outras apostas em bets.


Enquanto a esposa e os dois filhos, de 10 e 4 anos, dormiam, Kaio continuou diante do celular. Quando o filho mais velho pediu para ser levado até a casa da avó, ele respondeu e voltou a apostar. "Pareceu que se passaram poucos minutos. Quando olhei para trás, meu filho não estava mais. Eu perdi a noção de tudo. Inclusive do tempo", relataMais de três horas haviam passado.


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A perda da noção de tempo pode ser um dos sinais da ludopatia, transtorno relacionado ao controle dos impulsos diante de jogos e apostas. No caso de Kaio, o envolvimento com as bets começou durante momentos de descanso do trabalho como motorista de uma prefeitura em Goiás. O problema se agravou após a morte do pai, vítima de câncer, quando passou a apresentar sintomas de depressão.


As apostas desencadearam uma sequência de perdas. Kaio vendeu o carro financiado, depois móveis e, por fim, a casa da família. O casamento também terminou. Mesmo assim, as dívidas ultrapassaram R$ 200 mil. "Perdi a casa e o casamento acabou. A dignidade também", afirma.


Ele deixou o emprego e utilizou a rescisão para pagar parte das dívidas. Depois, procurou atendimento em um Caps (Centro de Atenção Psicossocial) no Distrito Federal, onde participa de grupos terapêuticos e recebe acompanhamento.


"Eu passei a tomar três remédios por dia. E os grupos fazem com que eu não me sinta mais sozinho. Estou recomeçando minha vida. Espero que meus filhos um dia me perdoem", deseja. Hoje, ele trabalha na reposição de alimentos em uma escola no interior de Goiás.


Vulnerabilidade


A psiquiatra Kátia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, explica que pessoas em situação de vulnerabilidade social podem estar mais expostas ao problema. Segundo ela, a publicidade das apostas contribui para criar a falsa impressão de que os jogos podem complementar a renda.


"São pessoas que querem retornos rápidos induzidas a acreditar que podem ter com as bets. Isso se tornou realmente muito perigoso", explica.


O endividamento provocado pelas apostas pode agravar problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade, além de aumentar o risco de ideação suicidaKátia também alerta para a normalização das apostas em transmissões esportivas e outros espaços de entretenimento. Segundo ela, houve aumento na procura por atendimento especializado.


"Aumentou a procura no ambulatório e em vários serviços em busca de ajuda para o tratamento", compartilha a especialista.


A psicóloga Claudia Feres, da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, destaca que a tecnologia facilitou ainda mais o acesso às apostas. "Aliado agora à tecnologia e a esse mundo das telas, a pessoa tem um cassino na palma da mão para acessar sem sair de casa e a qualquer hora", contextualiza.


O tratamento pode envolver estratégias de redução de danos e a diminuição do contato com o celular. Entre os sinais de alerta estão isolamento, alteração do sono, nervosismo e dificuldade de controlar o tempo dedicado às apostas.


"Nos Caps, pessoas chegam com um pedido de socorro desesperado. Nós fazemos o acolhimento e buscamos trazer a família para perto", diz.


Outros casos


João*, 32 anos, também faz tratamento em um Caps. Paraplégico após uma briga, ele participa semanalmente de um grupo terapêutico e é acompanhado pela mãe. A família vive com poucos recursos e passou a enfrentar dificuldades depois que ele começou a gastar dinheiro com jogos online.


"Na verdade, não consigo me controlar. Não sei o quanto já perdi", comenta.


Outro paciente, Ricardo*, 26 anos, afirma apostar desde 2018 e calcula ter perdido mais de R$ 100 mil. O primeiro contato veio pela curiosidade e pela promessa de conseguir uma renda extra. As dívidas contribuíram para o fim do relacionamento e hoje ele tenta evitar as apostas mantendo o celular desligado durante a madrugada.


"Já fiquei até de madrugada. A abstinência bate tão forte que a gente não consegue ter uma noite de sono normal. Eu acho que não me considero viciado porque não tive que vender coisas de casa para pagar dívidas", detalha. Apesar das perdas, Ricardo ainda reluta em reconhecer o problema.


Instituto defende jogo responsável


Em nota à Agência Brasil, o IBJR (Instituto Brasileiro de Jogo Responsável), que afirma representar 75% do mercado brasileiro, reconheceu a importância da prevenção ao jogo problemático e da proteção de pessoas vulneráveis.


A entidade afirma que as apostas devem ser encaradas como entretenimento, e não como fonte de renda ou alternativa de subsistência. Também defende a atuação conjunta entre poder público, reguladores, empresas e sociedade para prevenção e atendimento.


Sobre a publicidade, o IBJR afirma que o setor segue regras específicas, incluindo a proteção de crianças e adolescentes e a proibição de mensagens que apresentem as apostas como caminho para enriquecimento ou solução financeira.


A entidade também defende o combate às plataformas ilegais e afirma que o fortalecimento do mercado regulado amplia a fiscalização e os mecanismos de proteção aos apostadores.


Os personagens ouvidos pela Agência Brasil tiveram os nomes preservados devido à situação de vulnerabilidade.

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