20/06/21
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Possível morte sem confronto

Boletim aponta que polícia atirou no rosto, abdômen e costas nas mortes no Jacarezinho

Emerson Dias/ N.com
Emerson Dias/ N.com


Boletins médicos sobre os corpos de parte dos que morrerem na operação do Jacarezinho, que matou 28 pessoas na semana passada na zona norte do Rio de Janeiro, mostram que foram atingidos por arma de fogo no rosto, no abdômen e nas costas.


As descrições de corpos com "faces dilaceradas" reforçam os relatos de moradores da favela de que feridos foram retirados já sem vida da favela.

A retirada dos feridos em confronto com a polícia para socorro no hospital contraria determinação expressa do STF sobre formas de atuação em operações policiais no Rio de Janeiro.

O Plenário da Corte decidiu no ano passado que o Estado deveria orientar seus agentes a "evitar a remoção indevida de cadáveres sob o pretexto de suposta prestação de socorro". A medida foi determinada para que fossem preservados todos os vestígios nas operações.

O disparo nas costas pode levantar a suspeita de que a morte ocorreu sem confronto, embora tenha sido atingido no mesmo local de confronto de outras cinco com ferimentos distintos.

As informações constam nos cinco BAMs (boletins de atendimento médico) produzidos no Hospital Municipal Evandro Freire, uma das três unidades para as quais foram levados os feridos na operação, a mais letal na história do Rio de Janeiro.

Os hospitais Souza Aguiar e Salgado Filho não disponibilizaram a documentação. Sabe-se apenas que eles também chegaram sem vida a essas unidades.

A vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, Nadine Borges, que acompanha as investigações do caso, afirmou que a descrição dos ferimentos é mais um indício de os mártires dos supostos confrontos foram retiradas mortas do local.

Ela afirmou que, além da decisão do STF, a prática contraria as determinações da Corte Interamericana de Direitos Humanos no julgamento da chacina de Nova Brasília, ocorrida na década de 1990.

"O que é apontado nos boletins demonstra indício de desfazimento da cena de crime. Eles transformaram uma obrigação em fazer num roteiro, às avessas, de fraude processual", afirmou Borges.

Procurada, a Polícia Civil não comentou os dados dos boletins médicos. Anteriormente, a corporação havia dito, sobre a retirada dos corpos do local, que "as circunstâncias de eventuais socorros para encaminhamento à unidade hospitalar e da retirada de corpos do cenário serão esclarecidas durante a investigação policial que está sendo acompanhada pelo Ministério Público".

"Todo o rito legal relacionado à deflagração da operação foi cumprido. Porém, em momento algum houve a estabilização do terreno, com os criminosos, todo o tempo, atirando para matar", diz a polícia, em nota.

A operação no Jacarezinho teve como objetivo, segundo a Polícia Civil, o cumprimento de 21 mandados de prisão contra pessoas denunciadas sob acusação de associação ao tráfico de drogas. O vínculo com a facção criminosa foi estabelecido por meio de fotos com armas em redes sociais.

Das 28 mortes, um era policial civil e 27 pessoas que, de acordo com a polícia, atiraram contra os agentes. Três dos sem vida eram alvos dos mandados de prisão. Segundo a Polícia Civil, todos tinham antecedentes criminais ou vínculo com o tráfico confirmado por parentes.

Seis pessoas foram presas -sendo três alvos dos mandados expedidos pela Justiça- e foram apreendidas na operação cinco fuzis, uma submetralhadora, duas espingardas e 12 granadas

A Defensoria Pública afirma que há relatos daqueles que se entregaram para a polícia. Além disso, criticou o desfazimento das cenas dos crimes antes da realização de perícia.

Os boletins do hospital não identificam as mortes. Mas, a partir do cruzamento com informações dos B.Os, feitos pela Polícia Civil, é possível apontar, em alguns casos, o nome ou local em que foram alvos.

Um dos feridos por bala de fogo levados para o Evandro Freire foi Carlos Ivan Avelino da Costa Júnior, 32. De acordo com o boletim, ele chegou com a "face totalmente dilacerada" ao hospital.

Segundo os dois policiais envolvidos na morte de Carlos, ele foi encontrado já sem vida após uma troca de tiros próximo ao Campo do Abóbora. Foram apreendidos dois explosivos no local, de acordo com o B.O.

Carlos, cujo apelido era Bracinho segundo a polícia, estava em prisão domiciliar desde 2017 e tinha registro por tráfico em 2015. A mãe dele disse à polícia que soube da morte por fotos, que ele morava na rua havia quatro anos e que era dependente químico. Ela não soube dizer se ele era do tráfico.

No relatório de inteligência da Polícia Civil, elaborado com dados da ficha criminal e redes sociais, não há fotos de Carlos com armas de fogo. Há postagens em que ele lamenta a morte de um outro traficante.

Outros três levados à unidade foram feridos no confronto na travessa Santa Laura, onde seis foram saíram sem vida -os demais foram levados ao Hospital Souza Aguiar.

Um apresenta "ferimento em parte posterior do tórax", outro "ferimento dilacerante na face" e o terceiro, "ferimentos em abdômen".

Não é possível saber a identidade deles porque o boletim desse caso não discrimina os BAMs de cada um que foi alvo desse confronto. A polícia afirma ter apreendido com esses um fuzil e seis pistolas.

Outro atendido no Hospital Evandro Freire apresentava, segundo o BAM, um ferimento de entrada no lado direito do tórax e de saída no esquerdo. Os braços estavam com "desvios ósseos e dilacerações, compatíveis com ferimento por arma de fogo".

Não é possível identificar nome e local de morte de sua morte porque o número do BAM não consta em nenhum dos 12 boletins.
Folhapress
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