Um grupo de WhatsApp chamado “Nós da UEL com Flávio Bolsonaro”, criado na quarta-feira (7), reúne mensagens de ódio contra políticos de esquerda, ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e estudantes da UEL (Universidade Estadual de Londrina). A reportagem do Portal Bonde também encontrou uma mensagem com conteúdo de apoio ao nazismo e outra que fazia referência a um suposto ataque com bombas na universidade.
Até a tarde desta quinta-feira (8), o grupo tinha cerca de 700 integrantes. Entre as mensagens, também havia manifestações de teor xenofóbico contra nordestinos e ataques a estudantes que marcaram um ato em apoio ao presidente da República e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), previsto para o início da noite desta quinta no RU (Restaurante Universitário) da UEL.
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Grupo teria surgido entre estudantes de Agronomia
A reportagem entrou no grupo e procurou um dos administradores, que é estudante de agronomia da UEL. Segundo ele, o grupo foi criado inicialmente como uma espécie de espaço de brincadeiras e conversas entre estudantes do curso, mas ganhou grande proporção depois que o link foi compartilhado.
O estudante, que não quis se identificar, afirmou que não considera o grupo um movimento político e negou que haja apoio coletivo ao nazismo. Ele deixou a administração e saiu do grupo após conversar com a reportagem.
“Aquele grupo não é nada sério, não é movimento nenhum. Surgiu de uma resenha diária da agronomia que acabou tomando proporção imensa. Mas também não dá para aceitar esse tipo de coisa”, afirmou. Segundo o administrador, a mensagem com conteúdo de apoio ao nazismo foi excluída por ele assim que foi identificada.
O estudante também defendeu que a existência de opiniões políticas diferentes não justificaria ataques contra outros integrantes. “Ter opinião política diferente das pessoas não nos dá direito de desrespeitar eles [SIC] e muito menos compartilhar esse tipo de coisa [nazismo]. Não compactuamos com isso”, declarou.
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Suposto ataque com bombas
A reportagem também identificou um estudante que compartilhou uma mensagem sobre um suposto ataque com bombas na UEL. Ele foi procurado para explicar o conteúdo e informar a origem da mensagem.
"Essa mensagem encaminhada tinha apenas tom cômico, pois o grupo estava inteiramente brincando e comentando sobre a manifestação. Não organizei nada e não tenho nada haver [SIC] com a situação. Apenas encaminhei uma mensagem que haviam escrevido [SIC] em um outro grupo, que não fui eu que criei. Não tenho viés político algum e peço desculpas se ficou algum mal-entendido. A mensagem encaminhada tem puramente tom de anedota", explicou o estudante por WhatsApp ao Portal Bonde. No perfil dele no Instagram, consta que é estudante de direito da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná).
A PM (Polícia Militar) foi procurada pela reportagem para verificar se havia alguma denúncia ou ocorrência relacionada à suposta ameaça. A PM também foi questionada se estão previstos reforços na segurança no ato estudantil desta quinta. Segundo o capitão Emerson Castro, do 5º BPM (Batalhão da Polícia Militar), nenhuma denúncia havia sido registrada até aquele momento. “Qualquer solicitação e informação, a direção da UEL deve repassar oficialmente à polícia”, afirmou Castro.
'Brincadeira'
A reportagem localizou ainda o jovem responsável pelas mensagens de apoio ao nazismo. Perguntado sobre o conteúdo, ele afirmou que a publicação teria sido uma provocação política.
“Da minha parte, eu estava brincando. Estava imitando aqueles esquerdistas dessa faculdade que ficam chamando os bolsonaristas de fascistas. Só quis imitar eles [sic]. Quis dizer que nós somos fascistas por causa disso. Fiz uma brincadeira social”, explicou.
O jovem não confirmou a idade, porém disse que não havia “terminado a escola”. Ou seja, não seria estudante matriculado na UEL. Ele também demonstrou preocupação porque passou a receber mensagens de outras pessoas depois que o conteúdo circulou.
Universidade se pronuncia
Até UEL informou, por meio de nota, que "está ciente das manifestações divulgadas em grupos de WhatsApp nos últimos dois dias e já definiu um plano de contingência com o intuito de resguardar pessoas e o patrimônio físico".
De acordo com a universidade, o plano será colocado em prática já nesta quinta e envolve equipes da Prefeitura do Campus, Procuradoria Jurídica e Centros de Estudos.
"Mais do que a integridade física e patrimonial, a UEL busca garantir o rígido cumprimento do Estatuto, que veda qualquer tipo de violência. O Regimento Geral da UEL ainda proíbe qualquer conduta que cause danos físicos ou psicológicos a membros da comunidade. A Universidade Estadual de Londrina tem como princípio a gestão democrática e o pluralismo de ideias. Ainda, sua autonomia universitária é assegurada pela Constituição Federal e pela Constituição Estadual. Nesse sentido, manifestações políticas, das mais diversas correntes, são amplamente admitidas em seus espaços, sendo recepcionadas como verdadeiras expressões da identidade democrática", compartilhou a UEL, em outro trecho da nota.
"Relevante também ressaltar que a Universidade, em consonância à Constituição Federal, não veda qualquer tipo de manifestação pacífica em suas dependências, sendo, no entanto, importante que sejam previamente informadas à Administração, conforme estabelece o artigo 5º, XVI, da Constituição Federal, para fins de organização da logística interna de trânsito, segurança dos envolvidos e do patrimônio da Instituição. Por fim, a Universidade reafirma seu compromisso com a democracia e com o debate saudável e plural de ideias, reforçando a importância de que as orientações aqui consignadas sejam observadas pelos membros da comunidade interna e externa", completou.