Londrina

O que está afastando eleitores das urnas em Londrina? Entenda

02 out 2026 às 16:56
Para parte dos eleitores, votar deixou de representar uma escolha capaz de produzir mudanças concretas. Entre a descrença na política, a dificuldade de se identificar com candidatos e o excesso de informações nas redes sociais, comparecer às urnas pode parecer cada vez menos importante.

Esse comportamento aparece nos números de Londrina. O município, que em 2014 tinha menos de um em cada dez eleitores ausente no primeiro turno, chegou a 2022 com quase um em cada cinco sem comparecer às urnas.

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No primeiro turno de 2014, 31.638 dos 331.007 eleitores londrinenses não votaram. Em 2018, foram 62.630 ausentes entre 372.008 eleitores (16,84%). Já em 2022, o número chegou a 76.729, de um eleitorado de 393.687 pessoas (19,38%).

O crescimento de 9,82 pontos percentuais aproximou Londrina dos índices do Paraná e do Brasil. A abstenção nacional foi de 19,39% em 2014, 20,33% em 2018 e 20,90% em 2022. No Paraná, os índices foram de 16,85%, 16,96% e 19,40%, respectivamente.

A mudança ocorreu em um período marcado por forte mobilização política, eleições polarizadas e uma transformação na forma como os eleitores acompanham candidatos e debates públicos. Para especialistas, porém, o desinteresse pelo voto não tem uma causa única.


Descrença, logística e excesso de informação


Segundo o cientista político Ronaldo Gaspar, do Centro de Letras e Ciências Humanas da UEL (Universidade Estadual de Londrina), dificuldades de transporte e locomoção, idade, condições de saúde e viagens podem impedir o comparecimento. Esses fatores, porém, não explicam sozinhos o aumento da abstenção.


Para Gaspar, parte dos eleitores passou a questionar a capacidade da política de resolver problemas que permanecem ao longo dos governos. “Passam os governos e os problemas, em que pese algumas mudanças em políticas públicas, continuam estruturalmente os mesmos”, afirma.


O advogado Dorival Assi, especialista em direito eleitoral e membro da Abradep (Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político), também destaca a percepção de que o voto precisa fazer diferença. Quando o eleitor acredita que sua participação não terá efeito sobre o resultado, a disposição para comparecer pode diminuir.


Mas há uma particularidade brasileira que também facilita a ausência. Embora o voto seja obrigatório, as consequências para quem não comparece são pequenas. “Nós temos um voto obrigatório no papel, mas, na prática, acaba sendo mais próximo de um voto facultativo, tendo em vista que a multa é de R$ 3,51. E, hoje, o eleitor consegue justificar a ausência também através de aplicativo [e-Título]”, aponta.


Assi também aponta a transformação na forma de consumir informação política. Nas redes sociais, candidatos, partidos, influenciadores e usuários disputam a atenção do eleitor, que pode encontrar conteúdos verdadeiros, falsos, distorcidos e contraditórios no mesmo ambiente.


Para o advogado, esse excesso dificulta a identificação do que é confiável e pode transformar o interesse pela política em cansaço ou desconfiança.


A mudança também afeta a renovação política. Segundo Assi, as redes sociais permitem que novos candidatos construam visibilidade e capital eleitoral fora dos caminhos tradicionais dos partidos. Para Gaspar, por outro lado, o enfraquecimento de movimentos sociais e organizações populares reduz a formação de novas lideranças.

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