Londrina

‘Sonhadores’ autografam livro com coletânea de cartas em Londrina

25 set 2026 às 16:23

“Olá, sonhador. Tenho 10 anos e já sei o que vou ser quando crescer: vou trabalhar no mercado; aos 18 anos, vou ser babá e investir na minha faculdade. Vou te falar uma coisa: não desista dos seus sonhos, sempre olhe para a frente”. Estudantes de quatro escolas municipais de Londrina estiveram, nesta quinta-feira (24), na Biblioteca Municipal, para falar sobre os seus sonhos, dos mais singelos aos mais complexos. 


Kyara, autora da carta acima e aluna do 5º ano da Escola Municipal Noêmia Malanga, do Jardim Olímpico (Zona Oeste), por exemplo, expôs o anseio de chegar ao Ensino Superior, sem se esquecer da necessidade ou obrigação - como é na realidade de muitas famílias - de trabalhar ainda nos últimos anos da adolescência.


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Assim como ela, outros 17 autores integram o livro “Do sonho ao verso em cartas”, que foi autografado por alguns de seus escritores. Nesta quinta, a reportagem acompanhou a tarde de autógrafos de quatro alunos selecionados pelo projeto. Kate Julia Teixeira da Silva (Escola Municipal Irene Aparecida - Jamile Dequech), Claudemir Santo Santiago (EJA Escola Municipal Noêmia Malanga - Jardim Olímpico), Arthur Gabriel Fernandes e Eloyse Eduarda da Silva Gomes (Escola Municipal Zumbi dos Palmares - União da Vitória) leram para os demais colegas as suas respectivas cartas. (LEIA AS CARTAS SELECIONADAS AQUI)


Kate: Barbie, dançarina e cantora


“Quando eu era pequena, tinha o sonho de ser Barbie. Agora que estou maior, tenho o sonho de ser cantora e dançarina.”


Inspirada pela “vida perfeita” da boneca mais famosa do mundo, que tem qualquer profissão e personalidade à livre escolha, Kate, 11, já se decidiu: quer viver de arte. Além de cantar e dançar, ela ressalta que também tem talento na escrita.


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“Sempre tive o sonho de ser a Barbie. Escrevi sobre isso e também sobre ser cantora e dançarina. Amo escrever, queria ter um diário. Gosto de ouvir Marília Mendonça e K-POP”, disse, citando os grupos coreanos Twice, Blackpink e BTS como referências.


O reconhecimento de Kate como escritora encheu de orgulho a mãe, a dona de casa Ana Paula Rocha, 44, que fez questão de estar presencialmente na Biblioteca para aplaudir a filha.


“Fiquei muito orgulhosa. Tenho três meninas e a Kate é a mais nova. É importante estar aqui presencialmente, porque ela fica muito feliz e alegre”, afirmou.


Arthur, o flamenguista bom de bola


“O meu sonho é ser jogador de futebol e dar uma casa para minha mãe. Digo para você: nunca desista dos seus sonhos.”


Arthur, 11, leu a sua carta de maneira desenvolta na frente dos colegas. Para ele, falar sobre o desejo da casa própria da mãe e um futuro brilhante no futebol é tarefa simples, apesar de admitir um certo “frio na barriga”.


“Deu um pouquinho de ‘calafrio’ em ler na frente de um monte de gente. Eu jogo e treino futebol toda terça e sábado. Sou fã do Neymar e me inspiro nele. Pensei nisso e a professora me ajudou. Sonho em dar uma casa para a minha mãe através do futebol”, disse o menino, que é torcedor do Flamengo e pretende ser um dos craques do clube.


Eloyse ama chuva e quer ver o mar


“Adoro brincar com água, principalmente com minhas amigas. Amo o barulho que a água faz, me acalma, assim como o barulho da chuva me faz dormir muito rápido.”


Extremamente tímida, Eloyse superou os próprios medos ao expressar na frente de todos os desejos mais íntimos que mantém dentro de si. Ela contou aos amigos que “relaxa” ao ouvir o barulho da chuva e que sonha em ver o mar, principalmente à noite.


“Gosto do barulho da chuva, porque me faz dormir muito rápido. Já fui em algumas piscinas com as minhas amigas e adoro brincar. Queria conhecer a praia e ir a um parque aquático”, disse a menina para a reportagem, enquanto olhava para o chão, como se quisesse se esconder.


Com mais tempo de conversa e auxiliada pela professora que a acompanhava, ela confidenciou que a chuva, que tanto ama, a separa de outra paixão: a escola.


“Nesses últimos dias, faltei muito às aulas porque estava chovendo bastante. Moro um pouco longe da escola”, contou Eloyse, que, de acordo com a professora, tem dificuldade para comparecer em dias de chuva por causa do lamaçal.


Claudemir sonha em conhecer o mundo


“Meu sonho é conhecer o mundo, diferentes países e muitas praias, fazer amigos e conhecer outras culturas.”


Se para as crianças o futuro ainda é uma incógnita, para aqueles que frequentam a EJA (Educação de Jovens e Adultos) e já viram muita coisa, a vida mudou de significado e passou a ser chamada de “nova oportunidade”. O pintor aposentado Claudemir, 63, deixou de estudar no auge da juventude. Mais experiente, decidiu ir atrás daquilo que deixou pelo caminho.


“Voltei a estudar porque fez muita falta. Às vezes tenho vontade de escrever alguma coisa ou ler a bíblia, mas não consigo e tenho que depender da minha esposa. Parei de estudar porque era moleque e abandonei a escola para jogar bola”, contou.


A volta à escola tem relação direta com o sonho descrito por ele na carta. É por meio das aulas que o aposentado pretende decodificar os segredos dos lugares que pretende conhecer.


“Estou estudando há oito meses e a cada dia aprendo mais. Gostei de ver a minha carta sendo selecionada mesmo com tudo isso. Foi muito bom”, afirmou, salientando que estudou somente até o 3º ano do Ensino Fundamental.


Agora é a minha vez


A dona de casa Lildete Alves do Vale, 64, frequenta a EJA na Escola Municipal Noêmia Malanga, assim como Claudemir, e também participou da dinâmica. Ela diz que o seu sonho está se realizando por meio dos estudos, que tanto valoriza.


“Foi um sonho que eu realizei voltar a estudar. Inclusive, estou terminando e vou me formar. Vai fazer cinco anos que estou estudando. Já sei ler, escrever e fazer continhas. Vou para a próxima etapa, na turma da noite agora”, afirmou. 


“Nunca tinha estudado, porque meu pai é do interior e colocava a gente na escola por uma semana e depois tirava. A gente trabalhava na roça com ele e tinha que cuidar dos irmãos. Ao todo, éramos 13. Ele falava que lá na frente a gente poderia estudar, mas esse “na frente” nunca chegou.”


Após formar família, Lildete se deu o direito de ir atrás daquilo que lhe foi negado. Primeiro, formou os filhos no Ensino Superior e depois “estreou” nas salas de aula, lugar que nunca pôde estar por muito tempo.


“Valorizo a educação. Paguei escola particular para os meus filhos, pois não queria que eles passassem pelo que eu passei. Eles estudaram, se formaram na faculdade e agora é a minha vez. Estou livre e desimpedida”, brincou.


Cartas como caminho para a expressão


O projeto e livro “Do sonho ao verso em cartas” foi contemplado pelo Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura) e buscou trabalhar a escrita e a expressão artística dos estudantes a partir dos próprios sonhos.


Ao longo de duas semanas, cada turma participou de quatro oficinas, com dois encontros por semana, conduzidos pelas oficineiras Bruna Sabino e Maria Angélica. O trabalho começou com questionamentos sobre quem eram os alunos. Depois, eles trocaram bilhetes entre si, levaram os textos para casa e, em seguida, passaram a trabalhar especificamente com o gênero carta.


“Depois de todo o processo, eles se sentem à vontade para compartilhar. Nós falamos de como quando nós compartilhamos um sonho, ele não é mais só meu. Estou abrindo caminho para os sonhos de outras pessoas também”, explicou Bruna à reportagem.


A proposta também permitiu que alunos mais retraídos encontrassem outra forma de se expressar. Segundo a equipe, alguns estudantes conseguem falar facilmente sobre o que sentem, enquanto outros encontram na escrita uma maneira de revelar coisas que talvez nunca contassem aos colegas. A atividade acabou criando uma espécie de comunhão dos sonhos, já que muitos descobriram nos desejos dos amigos algo que também gostariam de viver.


“Um aluno tinha o sonho de ser caminhoneiro e falou: ‘Imagina se eu pego o mesmo sonho que o meu?’. Foi justamente o que aconteceu e ele ficou muito alegre”, contou Bruna.


Arte para ilustrar


Além das cartas, o projeto trabalhou a produção visual dos textos. Os alunos participaram da criação da identidade das páginas, utilizando desenho, cores e linhas para representar sentimentos e complementar as palavras. Para dar ao papel uma aparência de carta antiga, foi utilizada uma mistura de café, água e álcool. Depois, cada estudante acrescentava características próprias ao material.


“O desenho e a arte visual são fundamentais para explorar e ilustrar os versos e as palavras. Pensamos junto com eles a maneira de expressar em imagens, cores ou linhas os sentimentos”, explicou Maria Angélica.


O projeto também envolveu uma etapa administrativa relacionada à aplicação dos recursos. Segundo Danilo Trajano, membro administrativo, a execução exige prestação de contas e acompanhamento do poder público.


“Temos que apresentar relatórios de tudo o que foi gasto ou se houve alguma alteração. É um processo difícil e que tem um acompanhamento muito sério da Prefeitura”, afirmou.


Para Bruna, a verba destinada ao projeto tem papel importante justamente por permitir que as atividades cheguem às comunidades onde foram feitas. “Esse valor investido tem que retornar à comunidade de alguma forma”, completou Bruna.

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